{"id":11705,"date":"2026-09-08T06:19:44","date_gmt":"2026-09-08T09:19:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11705"},"modified":"2026-09-08T08:27:22","modified_gmt":"2026-09-08T11:27:22","slug":"sobre-independencia-tradicao-diplomatica-e-nova-guerra-fria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/sobre-independencia-tradicao-diplomatica-e-nova-guerra-fria\/","title":{"rendered":"Sobre independ\u00eancia, tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica e nova Guerra Fria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Apesar das diferen\u00e7as, prevaleceu a no\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edtica externa deveria servir aos interesses permanentes do Brasil. Hoje, essa pol\u00edtica est\u00e1 sendo posta em xeque.<\/em><\/strong><br><br>A pol\u00edtica externa brasileira n\u00e3o nasceu com a Independ\u00eancia, cujos 204 anos comemoramos ontem, com o tradicional desfile do Sete de Setembro, desta vez em meio a uma campanha eleitoral e radicalizada polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sua g\u00eanese antecede a cria\u00e7\u00e3o do Estado nacional e remonta \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es que definiram o pr\u00f3prio territ\u00f3rio. Antes de o Brasil se tornar soberano, nossa diplomacia j\u00e1 come\u00e7ara a constru\u00ed-lo, como destaca o embaixador Rubens Ricupero, no seu livro A diplomacia na constru\u00e7\u00e3o do Brasil: 1750-2016 (Versal).<br><br>Houve, sim, uma Guerra da Independ\u00eancia na Bahia, que somente terminou em 1824, por\u00e9m, o mito fundador do Ex\u00e9rcito Brasileiro tamb\u00e9m \u00e9 anterior \u00e0 independ\u00eancia: surge na Batalha de Guararapes (1648-1649), que expulsou do Nordeste os holandeses. Henrique Dias, l\u00edder dos negros libertos e escravizados alforriados; Filipe Camar\u00e3o, cacique da tribo Potiguara que comandou os contingentes ind\u00edgenas; Andr\u00e9 Vidal de Negreiros, mestre de campo e l\u00edder militar que organizou as tropas luso-brasileiras, ocupam o pante\u00e3o de primeiros her\u00f3is da p\u00e1tria, representando &#8220;o povo em armas&#8221;, muito antes do alferes Joaquim Jos\u00e9 da Silva Xavier, o Tiradentes, o m\u00e1rtir da Inconfid\u00eancia Mineira (1788 e 1789).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leia tamb\u00e9m: <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/09\/7495519-no-7-de-setembro-lula-reune-chefes-de-poderes.html\">No 7 de Setembro, Lula re\u00fane chefes de Poderes<\/a><\/strong><br><br>Mas tamb\u00e9m houve, na Independ\u00eancia, um acordo envolvendo a fam\u00edlia real, os senhores de escravos e a elite pol\u00edtica nacionalista da \u00e9poca para que o Brasil se tornasse um pa\u00eds soberano sem renunciar \u00e0 monarquia e \u00e0 escravid\u00e3o. O projeto subliminar era a reunifica\u00e7\u00e3o da Coroa portuguesa sob a lideran\u00e7a de D. Pedro I, o que deu origem ao surgimento do Partido dos Brasileiros e do Partido dos Portugueses, a muitas de nossas peculiaridades pol\u00edticas e \u00e0 nossa secular iniquidade social. Entretanto, a diplomacia veio antes e foi fundamental para a nossa integridade territorial. Seu primeiro paradigma \u00e9 o Tratado de Madri, de 1750, cujo art\u00edfice foi o santista Alexandre de Gusm\u00e3o, conselheiro da Coroa portuguesa, decisivo na negocia\u00e7\u00e3o com a Espanha. O princ\u00edpio do &#8220;uti possidetis&#8221; reconheceu a ocupa\u00e7\u00e3o efetiva das terras e redesenhou os limites de Tordesilhas.<br><br>Quando o Brasil se tornou independente, grande parte do territ\u00f3rio j\u00e1 fora conquistada pela ocupa\u00e7\u00e3o e legitimada pela diplomacia. A monarquia preservou a unidade territorial e a centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, enquanto a republicana Am\u00e9rica espanhola se fragmentava. Argentina, em 9 de novembro de 1822, e os Estados Unidos, em 1824, sob a Doutrina Monroe, foram os primeiros a reconhecer nossa independ\u00eancia. Portugal somente o fez em 1825, ap\u00f3s a media\u00e7\u00e3o da Inglaterra e o pagamento de indeniza\u00e7\u00e3o.<br><br>N\u00e3o \u00e0 toa, o &#8220;americanismo&#8221; ganharia for\u00e7a pol\u00edtica com a Rep\u00fablica. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1891 adotou o federalismo, o presidencialismo, o bicameralismo e a separa\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado, sob forte inspira\u00e7\u00e3o norte-americana. O pa\u00eds passou a chamar-se, significativamente, Estados Unidos do Brasil. Joaquim Nabuco via a rela\u00e7\u00e3o com Washington como estrat\u00e9gica. Rio Branco se aproximou dos EUA, mas o fez para ampliar a autonomia brasileira. Consolidou fronteiras, solucionou controv\u00e9rsias e, no Tratado de Petr\u00f3polis, de 1903, incorporou o Acre por meio de negocia\u00e7\u00e3o, compensa\u00e7\u00f5es e concess\u00f5es. A soberania foi exercida pela diplomacia, e n\u00e3o apenas pelas armas. N\u00e3o era submiss\u00e3o.<br><br><strong>Alinhamento<\/strong><br><br>Essa estrat\u00e9gia foi consolidada em Haia, em 1907, quando Rui Barbosa defendeu a igualdade jur\u00eddica dos Estados contra os privil\u00e9gios das grandes pot\u00eancias. Nasceu ali a nossa tradi\u00e7\u00e3o de defesa do multilateralismo, no direito internacional e da solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica das controv\u00e9rsias. A pol\u00edtica externa criava condi\u00e7\u00f5es para que o Brasil fosse uma na\u00e7\u00e3o capaz de formular posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, mesmo diante dos pa\u00edses mais poderosos. Isso n\u00e3o evitou, por\u00e9m, momentos cr\u00edticos.<br><br>Na Segunda Guerra, o Estado Novo oscilou entre os EUA e a Alemanha. Havia correntes german\u00f3filas no governo, nas For\u00e7as Armadas e na sociedade. O embaixador S\u00e9rgio Corr\u00eaa da Costa revelou, em Cr\u00f4nica de uma guerra secreta (Record), a infiltra\u00e7\u00e3o nazista na Am\u00e9rica do Sul e as articula\u00e7\u00f5es irradiadas da Argentina. &#8220;Muita coisa se passava, tanto na superf\u00edcie como nos bastidores&#8221;, escreveu o diplomata, que investigou essa rede em Buenos Aires.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia mais:<\/em><strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/09\/7495381-lula-diz-que-brasil-escolheu-ser-soberano-e-destaca-areas-de-investimento.html\"> Lula diz que Brasil escolheu ser soberano e destaca \u00e1reas de investimento<br><\/a><\/strong><br>O alinhamento de Vargas aos Aliados foi uma escolha de seguran\u00e7a nacional, mas envolveu contrapartidas. O Brasil cedeu bases no Nordeste, declarou guerra ao Eixo e enviou a For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira (FEB) \u00e0 It\u00e1lia. Em troca, obteve apoio para a Companhia Sider\u00fargica Nacional (CSN). A alian\u00e7a serviu \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se reduziu a uma declara\u00e7\u00e3o de fidelidade.<br><br>A pol\u00edtica externa Independente de J\u00e2nio Quadros e Jo\u00e3o Goulart representou a busca de autonomia em plena Guerra Fria. N\u00e3o se pretendia trocar Washington por Moscou, mas impedir que as superpot\u00eancias decidissem pelo Brasil. Mesmo com o apoio decisivo dos EUA ao golpe de 1964, durante o regime militar, o governo de Ernesto Geisel adotou o chamado &#8220;pragmatismo respons\u00e1vel&#8221;: reconheceu Angola, fez neg\u00f3cios com os pa\u00edses socialistas e denunciou o acordo militar com os Estados Unidos para viabilizar o acordo nuclear com a ent\u00e3o Alemanha Ocidental.<br><br>Na redemocratiza\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Sarney e Ra\u00fal Alfons\u00edn transformaram Brasil e Argentina de rivais estrat\u00e9gicos em parceiros, como o foram na Independ\u00eancia. Dessa aproxima\u00e7\u00e3o nasceu o Mercosul. Com Fernando Henrique Cardoso, prevaleceu a &#8220;autonomia pela participa\u00e7\u00e3o&#8221;. Com Lula, a &#8220;autonomia pela diversifica\u00e7\u00e3o&#8221;, a coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul e o Brics. Apesar das diferen\u00e7as, prevaleceu a no\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edtica externa deveria servir aos interesses permanentes do Estado brasileiro. Hoje, essa pol\u00edtica est\u00e1 sendo posta em xeque nas elei\u00e7\u00f5es, em raz\u00e3o dos interesses dos EUA e dos neg\u00f3cios com a China, que protagonizam uma nova gerra fria. Dependendo do resultado, haver\u00e1 uma ruptura na nossa tradi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vale a pena ler de novo: <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-brasil-entre-soberania-democracia-e-seus-velhos-problemas-sociais\/\">O Brasil entre soberania, democracia e seus velhos problemas sociais<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/trump-e-a-volta-do-imperialismo-yankee\/\">Trump e a volta do \u201cimperialismo yankee\u201d<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar das diferen\u00e7as, prevaleceu a no\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edtica externa deveria servir aos interesses permanentes do Brasil. 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