{"id":11671,"date":"2026-08-27T08:23:46","date_gmt":"2026-08-27T11:23:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11671"},"modified":"2026-08-27T08:23:47","modified_gmt":"2026-08-27T11:23:47","slug":"a-insensatez-da-chantagem-nuclear-entre-putin-e-zelensky-na-guerra-da-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-insensatez-da-chantagem-nuclear-entre-putin-e-zelensky-na-guerra-da-ucrania\/","title":{"rendered":"A insensatez da chantagem nuclear entre Putin e Zelensky na guerra da Ucr\u00e2nia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Moscou advertiu que n\u00e3o aceita uma Ucr\u00e2nia nuclear e amea\u00e7a promover ataques preventivos, o que pode transformar o conflito regional numa crise mundial<\/em><\/strong><br><br>A Guerra do Peloponeso come\u00e7ou em 431 a.C. como uma disputa pela hegemonia do mundo grego e terminou, 27 anos depois, com a derrota de Atenas, o esgotamento de Esparta e o enfraquecimento de praticamente todas as cidades-estados envolvidas. Segundo Tuc\u00eddides, o crescimento do poder ateniense e o medo que isso despertou nos espartanos tornaram o confronto inevit\u00e1vel. A guerra resultou de decis\u00f5es equivocadas, alian\u00e7as autom\u00e1ticas e c\u00e1lculos errados.<br><br>Os governantes foram incapazes de interromper a escalada. A desastrosa expedi\u00e7\u00e3o ateniense \u00e0 Sic\u00edlia selou o destino da guerra. Apesar dos riscos, os dirigentes de Atenas enviaram uma grande for\u00e7a militar para conquistar Siracusa. Foi uma cat\u00e1strofe: a frota foi destru\u00edda, milhares de soldados morreram ou foram escravizados e Atenas perdeu a capacidade de sustentar sua hegemonia. Entretanto, a vit\u00f3ria final de Esparta tamb\u00e9m foi ef\u00eamera. D\u00e9cadas depois, a Gr\u00e9cia, fragmentada e exaurida, acabou submetida \u00e0 Maced\u00f4nia de Felipe II.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/08\/7486996-china-desafia-o-plano-de-trump-para-sufocar-o-ira.html\">China reage a Trump e amea\u00e7a medidas contra san\u00e7\u00f5es ao Ir\u00e3<\/a><\/strong><br><br>A guerra da Ucr\u00e2nia repete essa l\u00f3gica da autodestrui\u00e7\u00e3o. A invas\u00e3o ordenada por Vladimir Putin, em fevereiro de 2022, violou a soberania ucraniana e desencadeou o maior conflito europeu desde a Segunda Guerra Mundial. Desde ent\u00e3o, cada lado procura melhorar sua posi\u00e7\u00e3o antes de negociar, como se uma nova ofensiva, um ataque mais profundo ou uma arma mais poderosa pudesse, finalmente, desequilibrar o confronto.<br><br>O resultado \u00e9 uma sucess\u00e3o de avan\u00e7os limitados, retalia\u00e7\u00f5es e impasses, al\u00e9m de centenas de milhares de mortos e feridos, cidades destru\u00eddas, milh\u00f5es de refugiados e a militariza\u00e7\u00e3o da Europa. A R\u00fassia n\u00e3o conquistou a vit\u00f3ria r\u00e1pida que imaginava. A Ucr\u00e2nia n\u00e3o disp\u00f5e de meios convencionais para impor uma derrota completa \u00e0 pot\u00eancia invasora. Os aliados ocidentais temem tanto o triunfo de Moscou quanto uma escalada que os envolva diretamente. A guerra se alimenta da expectativa de que o advers\u00e1rio ceder\u00e1.<br><br>A recente e misteriosa viagem a Moscou do diretor da CIA, John Ratcliffe, \u00e9 um sinal de que a escalada deixou de ser apenas ret\u00f3rica. Foi a primeira visita conhecida de um chefe da ag\u00eancia de espionagem norte-americana \u00e0 R\u00fassia, desde novembro de 2021, quando William Burns foi enviado para advertir Putin sobre os preparativos para a invas\u00e3o. Desta vez, Ratcliffe se reuniu com dirigentes dos servi\u00e7os russos, mas n\u00e3o com Putin. Donald Trump classificou a miss\u00e3o como &#8220;semirrotineira&#8221;, uma desculpa que s\u00f3 aumenta o mist\u00e9rio dos seus objetivos.<br><br>A opera\u00e7\u00e3o teve cuidados reveladores. Washington informou previamente Kiev sobre a presen\u00e7a da delega\u00e7\u00e3o e pediu a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria de ataques em \u00e1reas russas durante seu deslocamento. Um avi\u00e3o militar C-17 voou dos Estados Unidos para a R\u00fassia, com escala na Let\u00f4nia, enquanto imagens mostravam um comboio diplom\u00e1tico em Moscou. N\u00e3o se sabe a pauta das conversas. Mas os interesses m\u00fatuos s\u00e3o conhecidos: troca de prisioneiros, guerra do Ir\u00e3, a\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia e mecanismos para evitar um choque militar direto.<br><strong><br>Marcha crescente<\/strong><br><br>No contexto da guerra ucraniana, por\u00e9m, a pauta mais plaus\u00edvel \u00e9 a escalada da guerra. Quando as chancelarias n\u00e3o conseguem produzir acordos, os canais entre servi\u00e7os de intelig\u00eancia assumem a fun\u00e7\u00e3o de transmitir advert\u00eancias, esclarecer inten\u00e7\u00f5es e estabelecer linhas vermelhas. Foi assim durante os momentos mais perigosos da Guerra Fria. A presen\u00e7a de Ratcliffe em Moscou mostra que Washington e o Kremlin reconhecem a exist\u00eancia de riscos fora do alcance da diplomacia convencional.<br><br>A quest\u00e3o nuclear est\u00e1 em debate. Autoridades e pol\u00edticos ucranianos voltaram a lembrar que seu pa\u00eds renunciou ao arsenal sovi\u00e9tico instalado em seu territ\u00f3rio depois da dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Em 1994, pelo Memorando de Budapeste, a Ucr\u00e2nia, a R\u00fassia, os Estados Unidos e o Reino Unido firmaram um compromisso pol\u00edtico segundo o qual Moscou, Washington e Londres respeitariam a independ\u00eancia, a soberania e as fronteiras ucranianas. Kiev aderiu ao Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o Nuclear e transferiu as ogivas para a R\u00fassia. A invas\u00e3o russa destruiu a credibilidade dessas garantias.<br><br>A Ucr\u00e2nia abrigava, em 1991, cerca de 1.900 ogivas estrat\u00e9gicas sovi\u00e9ticas, al\u00e9m de milhares de armas t\u00e1ticas, mas n\u00e3o possu\u00eda controle operacional nem infraestrutura para mant\u00ea-las. Reconstruir seu programa nuclear militar, como admite o presidente Volodymir Zelensky, exigiria tempo, instala\u00e7\u00f5es, tecnologia e testes, al\u00e9m de romper o regime internacional de n\u00e3o prolifera\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel com o conhecimento cient\u00edfico dispon\u00edvel e a ajuda europeia.<br><br>Moscou advertiu que n\u00e3o aceita uma Ucr\u00e2nia nuclear e amea\u00e7a promover ataques preventivos, o que pode transformar o conflito regional numa crise mundial. Putin recorre repetidamente ao poder nuclear russo para intimidar a Ucr\u00e2nia e limitar o apoio ocidental. Mudan\u00e7as na doutrina militar, exerc\u00edcios das for\u00e7as estrat\u00e9gicas e amea\u00e7as mais ou menos expl\u00edcitas nem sempre s\u00e3o apenas propaganda, mas dissuas\u00e3o: ningu\u00e9m sabe onde termina o blefe. Basta olhar para a guerra do Ir\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia mais<\/em>:<strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/08\/7487737-eua-nao-conseguira-nada-com-pressao-economica-diz-presidente-iraniano.html\"> EUA n\u00e3o conseguir\u00e3o &#8216;nada&#8217; com press\u00e3o econ\u00f4mica, diz presidente iraniano<\/a><\/strong><br><br>O perigo est\u00e1 no erro de interpreta\u00e7\u00e3o. Foi assim que guerras anteriores escaparam ao controle de seus protagonistas. Em 1914, quase ningu\u00e9m desejava uma conflagra\u00e7\u00e3o europeia de quatro anos, mas ultimatos, mobiliza\u00e7\u00f5es e alian\u00e7as militares transformaram o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando numa guerra mundial. Hoje, a chantagem nuclear \u00e9 uma insensatez. Um acordo de paz tornou-se, portanto, mais necess\u00e1rio do que nunca, por\u00e9m, n\u00e3o pode premiar a agress\u00e3o russa nem impor a capitula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena ler de novo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/moscou-nao-cre-em-lagrimas-80-anos-apos-derrota-do-nazismo\/\">Moscou n\u00e3o cr\u00ea em l\u00e1grimas, 80 anos ap\u00f3s derrota do nazismo<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/revista-do-correio\/2026\/06\/7445372-fascinio-da-russia-arte-historia-riqueza-e-poder.html\">Fasc\u00ednio da R\u00fassia: arte, hist\u00f3ria, riqueza e poder<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moscou advertiu que n\u00e3o aceita uma Ucr\u00e2nia nuclear e amea\u00e7a promover ataques preventivos, o que pode transformar o conflito regional numa crise mundial A Guerra do Peloponeso come\u00e7ou em 431 a.C. como uma disputa pela hegemonia do mundo grego e terminou, 27 anos depois, com a derrota de Atenas, o esgotamento de Esparta e o enfraquecimento de praticamente todas as [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":11676,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[589,1617,1950,164,972,113,3,162,1103,76,1136,68,2199],"tags":[247,165,58,1144,2201,2200],"class_list":["post-11671","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-eua","category-europa","category-geografia","category-guerra","category-memoria","category-militares","category-politica","category-putin","category-russia","category-trump","category-ucrania","category-violencia","category-zelensky","tag-eua","tag-putin","tag-trump","tag-zelensky","tag-russia-2","tag-ucrania-3"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11671"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11671\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11677,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11671\/revisions\/11677"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11676"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}