{"id":11662,"date":"2026-08-25T08:16:16","date_gmt":"2026-08-25T11:16:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11662"},"modified":"2026-08-25T08:18:32","modified_gmt":"2026-08-25T11:18:32","slug":"quando-a-camara-censura-a-historia-e-resgata-o-passado-colaboracionista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/quando-a-camara-censura-a-historia-e-resgata-o-passado-colaboracionista\/","title":{"rendered":"Quando a C\u00e2mara censura a hist\u00f3ria e resgata o passado colaboracionista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>Em outubro de 1966, Castello Branco decretou o recesso do Congresso. Em dezembro de 1968, Costa e Silva editou o AI-5 e fechou o Legislativo. Em 1977, Ernesto Geisel fez o mesmo <\/em><\/strong><br><br>H\u00e1 uma ironia inquietante na decis\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados de impedir que uma obra acad\u00eamica utilize a express\u00e3o &#8220;ditadura militar&#8221; para caracterizar o regime instaurado em 1964. A Casa, que teve 173 deputados e oito senadores cassados, foi fechada tr\u00eas vezes pelos generais, mesmo tendo legitimado o golpe militar de 1964. Ao suavizar a linguagem empregada para caracterizar o regime militar, n\u00e3o apenas contraria a pesquisa hist\u00f3rica: renega a pr\u00f3pria mem\u00f3ria.<br><br>A contradi\u00e7\u00e3o emerge em decorr\u00eancia da colet\u00e2nea Independ\u00eancias do Brasil, organizada por historiadores vinculados \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria, \u00e0 revista Almanack e \u00e0 Sociedade de Estudos do Oitocentos. Cerca de 50 autores assinaram cess\u00f5es de direitos, e o livro j\u00e1 estava revisado e diagramado quando uma comiss\u00e3o especial respons\u00e1vel pelas comemora\u00e7\u00f5es dos 200 anos do Congresso Nacional e o Conselho Editorial da C\u00e2mara passou a exigir altera\u00e7\u00f5es. Presidido pelo deputado Lafayette de Andrada (PL-MG) \u2014 tinha que ser um bolsonarista \u2014 o colegiado recomendou substituir &#8220;ditadura militar&#8221; por &#8220;regime militar&#8221; ou &#8220;governo militar&#8221; em pelo menos 13 passagens.<br><br>Tamb\u00e9m prop\u00f4s altera\u00e7\u00f5es em refer\u00eancias \u00e0 tortura, aos direitos ind\u00edgenas, ao marco temporal, \u00e0 Guerra do Paraguai, ao Haiti e at\u00e9 ao samba-enredo da Mangueira de 2019. Como os autores,  em defesa do rigor acad\u00eamico e da liberdade de express\u00e3o, recusaram mudan\u00e7as que adulteravam suas interpreta\u00e7\u00f5es, a C\u00e2mara informou que a obra n\u00e3o ser\u00e1 publicada, o que representa um endosso da Mesa da Casa \u00e0 censura instaurada e uma agress\u00e3o ao estado democr\u00e1tico de direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2026\/08\/7486483-relator-da-6x1-na-ccj-do-senado-quer-entregar-texto-nesta-quarta-feira.html\">Relator da 6&#215;1 na CCJ do Senado quer entregar texto nesta quarta-feira<\/a><\/strong><br><br>N\u00e3o se trata de simples prefer\u00eancia vocabular. &#8220;Governo militar&#8221; informa quem exercia o poder. &#8220;Ditadura&#8221; identifica a natureza de um regime que suprimiu direitos pol\u00edticos, censurou a imprensa, perseguiu opositores, tolerou pris\u00f5es, sequestros, torturas, assassinatos e &#8220;desaparecimentos&#8221;. Subjugou as institui\u00e7\u00f5es representativas. Substituir uma express\u00e3o pela outra, n\u00e3o esclarece, mascara a viol\u00eancia brutal e mais inomin\u00e1vel da pol\u00edtica de seguran\u00e7a do regime. E revela obscurantismo e falta de compromisso da C\u00e2mara com a Constitui\u00e7\u00e3o que seus integrantes juraram defender.<br><br>A hist\u00f3ria brasileira oferece exemplos suficientes de obscurantismo e submiss\u00e3o do Parlamento. Em 1823, Dom Pedro I dissolveu a Assembleia Constituinte na chamada Noite da Agonia e, no ano seguinte, outorgou uma Constitui\u00e7\u00e3o de fei\u00e7\u00e3o liberal garantindo-lhe forte Poder Moderador. Em 1891, Deodoro da Fonseca fechou o Congresso. Get\u00falio Vargas dissolveu o Legislativo em 1930 e voltou a faz\u00ea-lo em 1937, ao instaurar a ditadura do Estado Novo. O Congresso permaneceu sem funcionar at\u00e9 janeiro de 1946.<br><br>O fechamento foi acompanhado pela suspens\u00e3o das garantias constitucionais, pela censura e pela concentra\u00e7\u00e3o de poderes no Executivo. A alega\u00e7\u00e3o de que as institui\u00e7\u00f5es representativas atrapalhavam o governo serviu para justificar o arb\u00edtrio. Nos seus anais, a pr\u00f3pria C\u00e2mara registra que o Parlamento brasileiro foi fechado ou dissolvido repetidamente e reconhece, expressamente, que durante a &#8220;ditadura militar&#8221; isso ocorreu em tr\u00eas ocasi\u00f5es.<br><br><strong>Tolice politica<\/strong><br><br>Em outubro de 1966, Castello Branco decretou o recesso do Congresso. Em dezembro de 1968, Costa e Silva editou o AI-5 e fechou o Legislativo, depois que a C\u00e2mara recusou autoriza\u00e7\u00e3o para processar o deputado M\u00e1rcio Moreira Alves. Em abril de 1977, Ernesto Geisel repetiu a medida para impor mudan\u00e7as pol\u00edticas e eleitorais. O Pacote de Abril alterou as regras da representa\u00e7\u00e3o parlamentar e criou os chamados senadores bi\u00f4nicos, escolhidos indiretamente.<br><br>N\u00e3o foram meros acidentes de percurso. O regimes admitia a exist\u00eancia do Congresso desde que ele n\u00e3o amea\u00e7asse a autoridade dos generais. Mas a rela\u00e7\u00e3o do Parlamento com a ditadura n\u00e3o se resumiu \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima. Houve resist\u00eancia, mas tamb\u00e9m muito colaboracionismo, cuja recidiva estamos vendo agora. Na madrugada de 1\u00ba para 2 de abril de 1964, o presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, declarou vaga a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, embora Jo\u00e3o Goulart estivesse em territ\u00f3rio nacional, no Rio Grande do Sul. A manobra ofereceu uma apar\u00eancia de legalidade \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o de um presidente constitucional.<br><br>Nas d\u00e9cadas seguintes, maiorias parlamentares chancelaram elei\u00e7\u00f5es indiretas, aceitaram cassa\u00e7\u00f5es, aprovaram mudan\u00e7as constitucionais ditadas pelo Executivo e ajudaram a preservar a fachada institucional do regime. A ditadura n\u00e3o dispensou o Parlamento: procurou enquadr\u00e1-lo, utiliz\u00e1-lo e, quando necess\u00e1rio, silenci\u00e1-lo. Em 2013, o pr\u00f3prio Congresso anulou simbolicamente a sess\u00e3o que declarou a vac\u00e2ncia da Presid\u00eancia em 1964.<br><br>Ao corrigir aquela decis\u00e3o, reconheceu que Jo\u00e3o Goulart fora deposto ilegalmente. A maior repara\u00e7\u00e3o foi reconhecer a participa\u00e7\u00e3o parlamentar na ruptura democr\u00e1tica. Antes disso, em 2012, a C\u00e2mara devolvera simbolicamente os mandatos de 173 deputados cassados entre 1964 e 1977. Na mesma ocasi\u00e3o, inaugurou uma exposi\u00e7\u00e3o e lan\u00e7ou um livro intitulado Parlamento Mutilado: Deputados Federais Cassados pela Ditadura de 1964, publicado justamente pela Edi\u00e7\u00f5es C\u00e2mara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Leia mais:<\/em> <strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/08\/7486297-juizes-convocam-assembleia-e-miram-pauta-etica-para-cupula-do-stf.html\">Ju\u00edzes convocam assembleia e miram &#8220;pauta \u00e9tica&#8221; para c\u00fapula do STF<\/a><\/strong><br><br>A contradi\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara salta aos olhos: o vocabul\u00e1rio que antes permitiu reconhecer a viol\u00eancia cometida contra a institui\u00e7\u00e3o tornou-se inconveniente para seus atuais dirigentes. \u00c9  revelador que a censura alcance ind\u00edgenas, escravid\u00e3o, Haiti e cultura popular. O objetivo \u00e9 higienizar a narrativa oficial, o &#8220;apagamento&#8221; de conflitos, viol\u00eancias e personagens que desafiaram prefer\u00eancias ideol\u00f3gicas da atual maioria parlamentar. Como diria Homero, o futuro dir\u00e1 a verdade do que foi feito: &#8220;at\u00e9 o homem tolo aprende depois que o evento j\u00e1 aconteceu&#8221;(Il\u00edada, Canto XVII<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vale a pena ler de novo:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-por-quem-os-sinos-dobram-neste-31-de-marco\/\">Por quem os sinos dobram neste 31 de mar\u00e7o<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-lembrai-vos-de-1964-nao-custa-nada\/\">Lembrai-vos de 1964! N\u00e3o custa nada<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em outubro de 1966, Castello Branco decretou o recesso do Congresso. Em dezembro de 1968, Costa e Silva editou o AI-5 e fechou o Legislativo. Em 1977, Ernesto Geisel fez o mesmo H\u00e1 uma ironia inquietante na decis\u00e3o da C\u00e2mara dos Deputados de impedir que uma obra acad\u00eamica utilize a express\u00e3o &#8220;ditadura militar&#8221; para caracterizar o regime instaurado em 1964. 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