{"id":11568,"date":"2026-07-26T08:52:03","date_gmt":"2026-07-26T11:52:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11568"},"modified":"2026-07-26T08:52:03","modified_gmt":"2026-07-26T11:52:03","slug":"quando-a-distopia-americana-de-trump-vai-alem-do-genero-literario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/quando-a-distopia-americana-de-trump-vai-alem-do-genero-literario\/","title":{"rendered":"Quando a distopia americana de Trump vai al\u00e9m do g\u00eanero liter\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A guerra cultural promovida pelo Maga produz inimigos simb\u00f3licos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cEstamos vivendo uma distopia\u201d, comentou um velho amigo radicado h\u00e1 d\u00e9cadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avalia\u00e7\u00e3o o fato de que os imigrantes latinos s\u00e3o perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira mil\u00edcia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e det\u00eam pessoas com base na apar\u00eancia, no sotaque ou na suspeita de situa\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria irregular. Pr\u00e1ticas caracter\u00edsticas do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.<\/p>\n<p>Por causa dessa conversa, aguardo a chegada \u00e0s livrarias de \u201cTomara que voc\u00ea seja deportado: uma viagem pela distopia americana\u201d, do jornalista Jamil Chade, cujo lan\u00e7amento ser\u00e1 em agosto. Com pref\u00e1cio do cineasta Walter Salles, o livro mostra o esgar\u00e7amento da democracia nos Estados Unidos entre a campanha eleitoral de 2024 e o in\u00edcio do segundo governo Trump. Chade percorre os lugares onde se espalham o medo, o rancor, a pobreza e a ilus\u00e3o, de Manhattan \u00e0 fronteira mexicana, do Madison Square Garden aos abrigos destinados aos deportados.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/07\/7467961-lula-diz-que-quem-tentar-interferir-nas-eleicoes-brasileiras-vai-apanhar-muito.html\"><strong>Lula diz que quem tentar interferir nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras &#8220;vai apanhar muito&#8221;<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um ensaio jornal\u00edstico sobre como as democracias podem sucumbir. A for\u00e7a do livro decorre de sua materialidade. Os fatos aconteceram. As pessoas perseguidas t\u00eam nome, fam\u00edlia, emprego e endere\u00e7o. Os agentes que as det\u00eam pertencem ao Estado. As ordens partem da Casa Branca. Os recursos s\u00e3o aprovados pelo Congresso. As deporta\u00e7\u00f5es aparecem nas estat\u00edsticas oficiais, enquanto as amea\u00e7as contra universidades, professores, minorias e servidores p\u00fablicos se transformam em decretos, normas administrativas e decis\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias. E inibem as den\u00fancias e protestos. N\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Em \u201c1984\u201d (Camelot Editora), Orwell concebeu um Estado que controlava a sociedade pela vigil\u00e2ncia, pela manipula\u00e7\u00e3o da linguagem e pela fabrica\u00e7\u00e3o de inimigos. Trump n\u00e3o criou um Minist\u00e9rio da Verdade, mas construiu um ecossistema pol\u00edtico no qual fatos inconvenientes s\u00e3o denunciados como falsos, advers\u00e1rios s\u00e3o apresentados como inimigos internos e a lealdade ao presidente se sobrep\u00f5e ao respeito \u00e0s institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O imigrante \u00e9 responsabilizado pela criminalidade, pelo desemprego, pela deteriora\u00e7\u00e3o das cidades e pelas defici\u00eancias dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Produz-se, assim, uma falsa amea\u00e7a permanente, para justificar poderes excepcionais e impor o medo \u00e0 sociedade, como como aconteceu com os judeus nas ascens\u00e3o do fascismo na It\u00e1lia e na Alemanha.<\/p>\n<p>Segundo levantamento do Migration Policy Institute, 622 mil estrangeiros haviam sido deportados desde a posse de Trump at\u00e9 o fim de 2025, enquanto as deten\u00e7\u00f5es realizadas pelo Servi\u00e7o de Imigra\u00e7\u00e3o e Alf\u00e2ndega, o ICE, chegaram a cerca de 1.200 por dia. Parte expressiva dos detidos n\u00e3o possu\u00eda condena\u00e7\u00e3o criminal. Houve tamb\u00e9m cidad\u00e3os norte-americanos presos, separa\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias, transfer\u00eancias para pris\u00f5es estrangeiras e tentativas de restringir o direito de defesa. A Suprema Corte precisou reafirmar que at\u00e9 os estrangeiros submetidos \u00e0 Lei dos Inimigos Estrangeiros t\u00eam direito a ser notificados e a contestar sua expuls\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Inimigos internos<\/strong><\/p>\n<p>A distopia americana de Donald Trump n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora. O terror pol\u00edtico gerado pelas deporta\u00e7\u00f5es difunde a inseguran\u00e7a entre milh\u00f5es. Fam\u00edlias evitam hospitais, escolas, igrejas e reparti\u00e7\u00f5es por medo de deten\u00e7\u00f5es. Trabalhadores deixam de denunciar abusos. Crian\u00e7as regressam para casa sem saber se encontrar\u00e3o os pais. Agentes mascarados podem deter as pessoas sem se identificar claramente e lev\u00e1-lo para lugar desconhecido; para eles, j\u00e1 existe um regime de exce\u00e7\u00e3o. Quatro pessoas foram mortas \u00e0 frente de todos por essa milicia de Trump, duas das quais norte-americanas.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/07\/7467969-itamaraty-nega-vistos-de-dois-funcionarios-dos-eua-para-discutir-liberdade-de-expressao-eleitoral.html\"><strong>Itamaraty nega vistos de funcion\u00e1rios dos EUA para discutir sistema eleitoral<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Em \u201cFahrenheit 451\u201d (Biblioteca Azul), de Ray Bradbury, os livros eram queimados porque preservavam a complexidade, estimulavam perguntas e impediam o pensamento uniforme. Trump n\u00e3o precisa organizar fogueiras em pra\u00e7as p\u00fablicas. Mas manda retirar livros de bibliotecas, eliminar refer\u00eancias ao racismo, perseguir programas universit\u00e1rios e condicionar recursos federais \u00e0 ades\u00e3o ideol\u00f3gica. Trump revogou pol\u00edticas de diversidade, equidade e inclus\u00e3o e passou a considerar o combate ao racismo uma forma de discrimina\u00e7\u00e3o contra os brancos.<\/p>\n<p>Jamil Chade demonstra o absurdo dessa opera\u00e7\u00e3o ao percorrer o delta do Mississippi, regi\u00e3o decisiva para a expans\u00e3o econ\u00f4mica dos Estados Unidos e profundamente marcada pela escravid\u00e3o. Em West Helena, no Arkansas, 35% dos cerca de oito mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. No Mississippi, o estado mais pobre do pa\u00eds, 45% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e3o abaixo da linha de pobreza ou integra os segmentos de baixa renda. A paisagem de casas abandonadas, lojas fechadas e servi\u00e7os prec\u00e1rios n\u00e3o corresponde \u00e0 prosperidade prometida pelo movimento Maga (Make America Great Again). \u00c9 o avesso do chamado sonho americano.<\/p>\n<p>Uma fam\u00edlia negra recebe anualmente cerca de US$ 30 mil menos do que uma fam\u00edlia branca. H\u00e1 um desmonte da prote\u00e7\u00e3o social. A lei or\u00e7ament\u00e1ria aprovada em 2025 reduz em mais de US$ 1 trilh\u00e3o os gastos federais previstos com sa\u00fade ao longo de uma d\u00e9cada e 10 milh\u00f5es de pessoas a mais ficar\u00e3o sem seguro-sa\u00fade. Uma guerra cultural fomenta a distopia. Trump produz inimigos simb\u00f3licos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas s\u00e3o transformados em amea\u00e7as aos valores tradicionais. A f\u00e9 tamb\u00e9m \u00e9 instrumentalizada. Deus, p\u00e1tria e governo estariam unidos num mesmo projeto. O dissidente pol\u00edtico passa a ser tratado como inimigo da na\u00e7\u00e3o, da fam\u00edlia e dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p><em>Vale a pena ler de novo:<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-brasil-entre-soberania-democracia-e-seus-velhos-problemas-sociais\/\"><strong>O Brasil entre soberania, democracia e seus velhos problemas<\/strong> sociais<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-sombra-de-monroe-tarifaco-e-declaracao-de-guerra-comercial-ao-brasil\/\"><strong>\u00c0 sombra de Monroe, tarifa\u00e7o \u00e9 declara\u00e7\u00e3o de guerra comercial ao Brasil<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra cultural promovida pelo Maga produz inimigos simb\u00f3licos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas \u201cEstamos vivendo uma distopia\u201d, comentou um velho amigo radicado h\u00e1 d\u00e9cadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. 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