{"id":11536,"date":"2026-07-17T07:16:16","date_gmt":"2026-07-17T10:16:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11536"},"modified":"2026-07-17T07:17:23","modified_gmt":"2026-07-17T10:17:23","slug":"a-sombra-de-monroe-tarifaco-e-declaracao-de-guerra-comercial-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-sombra-de-monroe-tarifaco-e-declaracao-de-guerra-comercial-ao-brasil\/","title":{"rendered":"\u00c0 sombra de Monroe, tarifa\u00e7o \u00e9 declara\u00e7\u00e3o de guerra comercial ao Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A rela\u00e7\u00e3o entre o governo Lula e a Casa Branca foi subordinada \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica norte-americana. A derrota do presidente brasileiro em 2026 passou a ser vista como objetivo por Trump<\/strong><\/em><\/p>\n<p>James Monroe nasceu no condado de Westmoreland, na Virg\u00ednia, ent\u00e3o uma das 13 col\u00f4nias da Inglaterra, no dia 28 de abril de 1758. Filho de um juiz, cresceu num clima de agita\u00e7\u00e3o por uma p\u00e1tria livre. Com 16 anos, interrompeu os estudos para lutar pela independ\u00eancia do pa\u00eds. Recebeu de George Washington o posto de capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Formado em direito e apadrinhado por Thomas Jefferson, em 1782, com 24 anos, foi eleito deputado na Virg\u00ednia. Fez parte do Congresso Continental, sendo um dos respons\u00e1veis pela aprova\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o americana. Em 1790, elegeu-se senador. Em 1794, foi nomeado embaixador na Fran\u00e7a por George Washington.<\/p>\n<p>De volta aos Estados Unidos, James Monroe foi eleito governador da Virg\u00ednia, em 1779, deixando o mandato em 1802. Nesse mesmo ano, designado pelo presidente Thomas Jefferson, negociou a compra dos territ\u00f3rios da foz do Rio Mississippi com a Fran\u00e7a e a Espanha. A seguir, foi eleito o quinto presidente dos Estados Unidos, o \u00faltimo da &#8220;Dinastia da Virg\u00ednia&#8221;. Seu mandato ficou conhecido como a &#8220;Era dos Bons Sentimentos&#8221;: o pa\u00eds prosperou, a Fl\u00f3rida foi adquirida da Espanha, e o Brasil teve sua independ\u00eancia reconhecida pelos EUA em 1824.<\/p>\n<p>Declarada em 1823, a chamada Doutrina Monroe repudiava a interven\u00e7\u00e3o ou a recoloniza\u00e7\u00e3o europeia no continente americano, expressa na m\u00e1xima &#8220;A Am\u00e9rica para os americanos&#8221;. Originalmente, era um alerta \u00e0s pot\u00eancias europeias para que n\u00e3o tentassem restaurar seus imp\u00e9rios coloniais no continente americano. Com o passar das d\u00e9cadas, a doutrina foi reinterpretada, ampliada e transformada em instrumento da hegemonia norte-americana.<\/p>\n<p>Diferentes governos norte-americanos ampliaram seu alcance para justificar interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas e militares. Dois s\u00e9culos depois, agora rebatizada de &#8220;Doutrina Trump&#8221;, Monroe continua projetando sua sombra sobre as rela\u00e7\u00f5es entre Washington e a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m<strong><em>:<\/em><\/strong><em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/07\/7462781-trump-acusa-a-china-de-comprar-dados-de-eleitores-e-ataca-o-voto.html\"><strong>Trump acusa a China de comprar dados de eleitores e ataca o voto<\/strong><\/a><\/p>\n<p>No artigo A Longa Sombra de Monroe: o Trumpismo e a Restaura\u00e7\u00e3o da Primazia Hemisf\u00e9rica, Fl\u00e1vio Contrera e Paulo Cesar Gregorio (Lua Nova, 126) sustentam que o movimento pol\u00edtico liderado por Donald Trump resgatou essa tradi\u00e7\u00e3o, adaptada \u00e0 rivalidade contempor\u00e2nea com a China e \u00e0 disputa pelo controle da Am\u00e9rica Latina. O trumpismo seria uma tentativa de reafirmar sua primazia regional por meio de press\u00e3o econ\u00f4mica, alinhamentos pol\u00edticos seletivos e conten\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e militar.<\/p>\n<p><strong>Autonomia relativa<\/strong><\/p>\n<p>A tens\u00e3o com o governo Lula ocorre nessa perspectiva. A guerra comercial, as chantagens tarif\u00e1rias e a politiza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o bilateral n\u00e3o s\u00e3o apenas ocasionais. Fazem parte de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica do movimento Maga e de lideran\u00e7as republicanas como Marco Rubio, secret\u00e1rio de Estado, segundo a qual a Am\u00e9rica Latina deve ocupar posi\u00e7\u00e3o subordinada \u00e0 geopol\u00edtica de Washington.<\/p>\n<p>A causa \u00e9 a ascens\u00e3o da China. Na Am\u00e9rica do Sul, Pequim tornou-se grande parceiro comercial, financiador de infraestrutura e investidor em setores estrat\u00e9gicos. Para os nacionalistas na Casa Branca, essa expans\u00e3o representa uma amea\u00e7a direta aos Estados Unidos. Como maior economia da Am\u00e9rica Latina, integrante do Brics, o Brasil ocupa posi\u00e7\u00e3o central nessa disputa ao manter rela\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas com Estados Unidos, China, Uni\u00e3o Europeia, Oriente M\u00e9dio e \u00c1frica.<\/p>\n<p>A autonomia relativa do Brasil incomoda \u00e0queles que sonham com a volta ao s\u00e9culo XIX. N\u00e3o por acaso, ocorre a converg\u00eancia entre press\u00f5es comerciais e disputas pol\u00edticas dom\u00e9sticas. A rela\u00e7\u00e3o entre o governo Lula e a Casa Branca foi subordinada \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que marca o cen\u00e1rio norte-americano. A derrota de Lula em 2026 passou a ser vista como parte de um reposicionamento geopol\u00edtico mais amplo da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o ajuda a explicar a aproxima\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de setores conservadores norte-americanos com o cl\u00e3 Bolsonaro e outras lideran\u00e7as da direita brasileira. A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas influenciar o debate interno do pa\u00eds, mas fortalecer atores considerados mais alinhados \u00e0 estrat\u00e9gia hemisf\u00e9rica do movimento Maga.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2026\/07\/7462270-governo-ve-marco-lastimavel-em-novas-taxas-e-aponta-atuacao-do-cla-bolsonaro.html\"><strong>Planalto v\u00ea &#8220;marco lastim\u00e1vel&#8221; em tarifa\u00e7o dos EUA e mira cl\u00e3 Bolsonaro<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Entretanto, o Brasil n\u00e3o \u00e9 mais o pa\u00eds vulner\u00e1vel do passado. Possui uma economia diversificada, o setor agr\u00edcola mais competitivo do mundo, reservas internacionais robustas e uma ampla rede de parceiros comerciais. Evidentemente, press\u00f5es econ\u00f4micas vindas dos Estados Unidos podem produzir custos relevantes. Mas a capacidade brasileira de resistir \u00e9 muito maior do que em outros momentos hist\u00f3ricos. O com\u00e9rcio com os Estados Unidos representa apenas 2% do nosso PIB.<\/p>\n<p>Entretanto, isso n\u00e3o significa que uma guerra comercial prolongada seja desej\u00e1vel. Pelo contr\u00e1rio. A escalada das retalia\u00e7\u00f5es produziria perdas significativas, reduziria investimentos, aumentaria incertezas e comprometeria d\u00e9cadas de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Nenhum dos dois pa\u00edses tem interesse objetivo em ruptura comercial. O desafio do governo brasileiro neste momento \u00e9 equilibrar firmeza e pragmatismo na eventual ado\u00e7\u00e3o da Lei de Reciprocidade.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2026\/07\/7463000-governo-aposta-em-apoio-a-empresas-e-adia-retaliacao-aos-eua.html\"><strong>Governo aposta em apoio a empresas e adia retalia\u00e7\u00e3o aos EUA<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A defesa da soberania nacional tende, sim, a ocupar lugar central na narrativa eleitoral de Lula. Diante das press\u00f5es externas e da associa\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio Bolsonaro ao campo pol\u00edtico alinhado ao trumpismo, o Planalto v\u00ea na defesa da soberania nacional um eixo poderoso de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Entretanto, o governo precisa evitar uma guerra comercial de desfecho imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: <\/em>todas as colunas diariamente no\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o governo Lula e a Casa Branca foi subordinada \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica norte-americana. A derrota do presidente brasileiro em 2026 passou a ser vista como objetivo por Trump James Monroe nasceu no condado de Westmoreland, na Virg\u00ednia, ent\u00e3o uma das 13 col\u00f4nias da Inglaterra, no dia 28 de abril de 1758. 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