{"id":11518,"date":"2026-07-12T08:59:55","date_gmt":"2026-07-12T11:59:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11518"},"modified":"2026-07-12T11:52:25","modified_gmt":"2026-07-12T14:52:25","slug":"a-revolucao-americana-explica-sobrevencia-da-democracia-nos-eua-apesar-de-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-revolucao-americana-explica-sobrevencia-da-democracia-nos-eua-apesar-de-trump\/","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o Americana explica sobrev\u00eancia da democracia nos EUA apesar de Trump"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u00c9 imposs\u00edvel assistir \u00e0 s\u00e9rie da Netflix sem pensar no presente, porque o atual presidente dos EUA colocou em xeque pr\u00e1ticas institucionais consolidadas durante mais de dois s\u00e9culos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Geralmente, quando vivemos uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conseguimos compreender de imediato e para a qual n\u00e3o encontramos uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel no presente, recorremos ao passado. A origem dos problemas e as contradi\u00e7\u00f5es que a produziram costumam oferecer as melhores pistas para melhor compreender o que se passa e projetar o futuro. A hist\u00f3ria n\u00e3o fornece receitas prontas, mas amplia nossa capacidade de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Karl Marx, em O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, de 1852, &#8220;a hist\u00f3ria se repete, a primeira vez como trag\u00e9dia, a segunda como farsa&#8221;. Mas nem sempre. A hist\u00f3ria n\u00e3o avan\u00e7a em c\u00edrculos perfeitos. Ela reapresenta velhos conflitos sob novas circunst\u00e2ncias, modifica seus protagonistas e produz desfechos inesperados. Vivemos um desses momentos. A intelig\u00eancia artificial, a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica, a biotecnologia e a automa\u00e7\u00e3o remodelaram a produ\u00e7\u00e3o, o trabalho e a distribui\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico. Entretanto, enquanto a ci\u00eancia acelera o futuro, a pol\u00edtica parece caminhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Crescem o nacionalismo, o protecionismo, a polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, a desinforma\u00e7\u00e3o organizada e a desconfian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es representativas. Multiplicam-se guerras comerciais, conflitos armados e lideran\u00e7as que desafiam abertamente as regras constitucionais. Esse paradoxo n\u00e3o \u00e9 novo.<\/p>\n<p>Em 1929, imaginou-se que o colapso financeiro decretaria o fim do capitalismo. Em 1989, a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica levaram Francis Fukuyama a anunciar o &#8220;fim da Hist\u00f3ria&#8221;, entendendo que a democracia liberal havia triunfado definitivamente. Nenhuma dessas previs\u00f5es resistiu ao tempo. O capitalismo reinventou-se sucessivas vezes. A China vai de vento em popa. A democracia, por sua vez, revelou-se muito mais fr\u00e1gil do que se imaginava, com a emerg\u00eancia de regimes iliberais. Seria essa crise a antev\u00e9spera do fim?<\/p>\n<p>\u00c9 sobre isso a s\u00e9rie documental O Experimento Americano (The American Experiment), em cinco epis\u00f3dios, dirigida por Brian Knappenberger e produzida por Tom Hanks, Gary Goetzman e Sarah Huisenga para a Netflix, a prop\u00f3sito dos 250 anos da Independ\u00eancia dos Estados Unidos, uma reflex\u00e3o imperd\u00edvel sobre a sobreviv\u00eancia da democracia. \u00c9 um alento no contexto das loucuras pol\u00edticas e ambi\u00e7\u00e3o de poder autocr\u00e1tico do presidente Donald Trump e da plutocracia que se organiza a partir da Casa Branca.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/07\/7458378-a-sangrenta-imagem-de-1770-que-alimentou-a-independencia-dos-eua.html\"><strong>A sangrenta imagem de 1770 que alimentou a Independ\u00eancia dos EUA<\/strong><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que a figura de George Washington emerge como uma esp\u00e9cie de contraponto ou ant\u00eddoto ao modelo de governante que Trump encarna. A d\u00favida que atormentava o l\u00edder revolucion\u00e1rio e primeiro presidente dos Estados Unidos em 1776 ainda inquieta o mundo contempor\u00e2neo: seria realmente poss\u00edvel uma sociedade governar a si mesma sem sucumbir \u00e0s paix\u00f5es pol\u00edticas, aos interesses econ\u00f4micos e \u00e0 permanente disputa pelo poder?<\/p>\n<p><strong>A inven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>A s\u00e9rie n\u00e3o transforma os pais fundadores em her\u00f3is imaculados, nem reduz a revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 escravid\u00e3o, ao patriarcado e \u00e0 exclus\u00e3o social. Brian Knappenberger segue a trilha da melhor historiografia norte-americana: a independ\u00eancia americana foi, simultaneamente, uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e um projeto institucional incompleto at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Americana foi fruto de uma inven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, intelectual, n\u00e3o nasceu nos seus campos de batalha. As col\u00f4nias desenvolveram uma profunda desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao poder concentrado da Coroa brit\u00e2nica e passaram a defender que a liberdade somente poderia sobreviver mediante a limita\u00e7\u00e3o permanente da autoridade estatal. A ruptura promovida pelos revolucion\u00e1rios foi adotar o princ\u00edpio da soberania popular.<\/p>\n<p>Pela primeira vez uma grande na\u00e7\u00e3o afirmava que a autoridade n\u00e3o emanava de Deus nem da tradi\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica, mas do consentimento dos governados. O que problema foi traduzir essa soberania na estrutura e nas a\u00e7\u00f5es do Estado. A s\u00e9rie mostra que essa extraordin\u00e1ria inova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social nasceu com uma contradi\u00e7\u00e3o moral gigantesca. Os mesmos l\u00edderes que escreveram que &#8220;todos os homens s\u00e3o criados iguais&#8221; aceitavam a escravid\u00e3o como parte da ordem econ\u00f4mica e do pacto de poder que fundou a grande na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1787 incorporou o chamado Compromisso dos Tr\u00eas Quintos, que aumentava a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos estados escravistas contabilizando parcialmente a popula\u00e7\u00e3o escravizada, embora ela permanecesse privada de qualquer direito. Essa incoer\u00eancia \u00e9tica era uma bomba-rel\u00f3gio que viria explodir na Guerra Civil (1861-1865), no governo de Abraham Lincoln, que emancipou os escravos e lhes garantiu direito de voto.<\/p>\n<p>A democracia americana sobreviveu n\u00e3o porque tenha resolvido suas contradi\u00e7\u00f5es fundadoras, mas porque construiu institui\u00e7\u00f5es capazes de administr\u00e1-las e, lentamente, corrigi-las. A hist\u00f3ria dos Estados Unidos pode ser lida como um longo processo de amplia\u00e7\u00e3o dos direitos originalmente negados. A aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, as Emendas da Reconstru\u00e7\u00e3o, o sufr\u00e1gio feminino, a legisla\u00e7\u00e3o dos direitos civis e a expans\u00e3o progressiva das garantias individuais representam a sua continuidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/07\/7457814-juizes-negam-pedido-para-recolocar-nome-de-trump-no-kennedy-center.html\"><strong>Ju\u00edzes negam pedido para recolocar nome de Trump no Kennedy Center<\/strong><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel assistir \u00e0 s\u00e9rie sem pensar no presente. Donald Trump \u00e9 o sujeito oculto na s\u00e9rie n\u00e3o apenas por representar uma corrente pol\u00edtica conservadora, mas porque colocou em xeque pr\u00e1ticas institucionais consolidadas durante mais de dois s\u00e9culos. A invas\u00e3o do Capit\u00f3lio, em 6 de janeiro de 2021, simbolizou talvez a maior crise constitucional americana desde a Guerra Civil. Mas a Rep\u00fablica americana foi concebida para sobreviver a maus governantes. Talvez essa seja a mensagem mais poderosa da s\u00e9rie.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: <\/em>todas as colunas diariamente no\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 imposs\u00edvel assistir \u00e0 s\u00e9rie da Netflix sem pensar no presente, porque o atual presidente dos EUA colocou em xeque pr\u00e1ticas institucionais consolidadas durante mais de dois s\u00e9culos Geralmente, quando vivemos uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conseguimos compreender de imediato e para a qual n\u00e3o encontramos uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel no presente, recorremos ao passado. 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