{"id":11494,"date":"2026-07-05T07:59:23","date_gmt":"2026-07-05T10:59:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11494"},"modified":"2026-07-05T07:59:47","modified_gmt":"2026-07-05T10:59:47","slug":"uma-historia-do-jazz-a-decadencia-da-politica-e-a-blindagem-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/uma-historia-do-jazz-a-decadencia-da-politica-e-a-blindagem-eleitoral\/","title":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria do jazz, a decad\u00eancia da pol\u00edtica e a blindagem eleitoral"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Poucos cidad\u00e3os sabem citar o nome de um parlamentar, h\u00e1 um profundo div\u00f3rcio entre representantes e representados. Mas as emendas garantem a reelei\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No fim dos anos 50, Dale Turner, um saxofonista negro americano, toca todas as noites no Blue Note, em Saint-Germain. \u00c9 um alco\u00f3latra. Basta que escape \u00e0 vigil\u00e2ncia dos amigos e ele vai parar no hospital. Como \u00e9 comum nesses casos, num determinado momento entra em colapso. Francis, apaixonado admirador do m\u00fasico de vanguarda, assume plena responsabilidade sobre ele e Dale aos poucos volta a tocar. Mas as ra\u00edzes, a sua solid\u00e3o e seus medos o levam de volta a Nova York, onde morre.<\/p>\n<p>O filme por Por Volta da Meia-noite (Round Midnight\/Autour de minuit, 1986), de Bertrand Tavernier, conta essa hist\u00f3ria. \u00c9 inspirado nas vidas de Bud Powell (e Lester Young), interpretado por Dexter Gordon em pessoa, e Francis Paudras, vivido pelo ator franc\u00eas Fran\u00e7ois Cluzet. Jazz raiz, destaca-se o trabalho de grandes m\u00fasicos, como Herbie Hancock, que atua no filme como Martin Scorsese. \u00c9 um filme de decad\u00eancia, e n\u00e3o de ascens\u00e3o. Os grandes m\u00fasicos de jazz dessa era, quase todos negros, a despeito do talento at\u00e9 hoje reconhecido, viveram em condi\u00e7\u00f5es por vezes degradantes.<\/p>\n<p>Parece que viajei na batatinha. O que isso tem a ver com a nossa pol\u00edtica? Na d\u00e9cada de 1950, a vida norte-americana foi marcada por graves crises internas de valores e liberdades. O macarthismo promoveu uma &#8220;ca\u00e7a \u00e0s bruxas&#8221; que sufocou o debate democr\u00e1tico, enquanto o conservadorismo emergente combateu o liberalismo tradicional. A profunda segrega\u00e7\u00e3o racial marginalizou milh\u00f5es de cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Liderada pelo senador republicano Joseph McCarthy, a pol\u00edtica externa de conten\u00e7\u00e3o ao comunismo transformou-se em histeria interna. O medo da &#8220;amea\u00e7a vermelha&#8221; levou \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, intelectuais e artistas, minou o respeito \u00e0s liberdades civis e \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. A imagem de uma democracia exemplar esmaecia no racismo institucionalizado. Apenas na segunda metade da d\u00e9cada, com o boicote aos \u00f4nibus de Montgomery em 1955 liderado por Rosa Parks, o movimento por direitos civis emergiu.<\/p>\n<p>O sistema bipartid\u00e1rio norte-americano fora reconfigurado com o fortalecimento de alas conservadoras, focadas no combate ao comunismo e na subvers\u00e3o do liberalismo do New Deal. Essa polariza\u00e7\u00e3o limitou reformas sociais mais amplas. A Doutrina Truman e a Guerra da Coreia (1950-1953) exigiram grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de recursos e expandiram a influ\u00eancia do complexo militar-industrial, o que gerou contesta\u00e7\u00f5es sobre o papel dos EUA como &#8220;pol\u00edcia do mundo&#8221;. Mais ou menos como agora.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2026\/07\/7455020-eua-celebra-seus-250-anos-em-meio-ao-calor-extremo-e-a-divisao-politica.html\"><strong>EUA celebra seus 250 anos em meio ao calor extremo e \u00e0 divis\u00e3o pol\u00edtica<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Aqui no Brasil, uma pesquisa Datafolha divulgada h\u00e1 poucos dias revelou um cen\u00e1rio alarmante para a democracia brasileira: 68% dos eleitores n\u00e3o conseguem citar o nome de um \u00fanico deputado federal em exerc\u00edcio, e 75% n\u00e3o se lembram de nenhum senador. Quase 70% dos entrevistados tamb\u00e9m n\u00e3o se recordam em quem votaram para cargos do Poder Legislativo federal nas elei\u00e7\u00f5es de 2022. Por que isso acontece?<\/p>\n<p><strong>Falta de sintonia<\/strong><\/p>\n<p>A pol\u00edtica institucional, como os Poderes republicanos, nunca foi muito popular. Os partidos e os pol\u00edticos parecem habitar um planeta distante, descolado da realidade brasileira. Com as sess\u00f5es virtuais, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 debates acalorados nos plen\u00e1rios da C\u00e3mara e do Senado, tudo \u00e9 decidido na base da transa, no col\u00e9gio de l\u00edderes e em vota\u00e7\u00f5es rel\u00e2mpagos, \u00e0s vezes por volta da meia-noite (eis a batatinha).<\/p>\n<p>Os tratos e acordos feitos nos corredores do Congresso, dos gabinetes dos ministros e governantes e, \u00e0s vezes, dos tribunais visam somente o atendimento de interesses privados de quem det\u00e9m o poder pol\u00edtico e\/ou econ\u00f4mico. O Congresso virou um balc\u00e3o de neg\u00f3cios, o para\u00edso do patrimonialismo. O caso Master e as rela\u00e7\u00f5es perigosas com o banqueiro Daniel Vorcaro espantam pelos bilh\u00f5es envolvidos, mas n\u00e3o pelo modus operandi que hoje predomina na C\u00e2mara e no Senado, que foram naturalizados.<\/p>\n<p>A maioria dos pol\u00edticos s\u00f3 se sente vinculada aos cidad\u00e3os quando h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es. Hoje, n\u00e3o se debate mais nada, tudo parece decidido pelas lideran\u00e7as do Congresso antes de chegar ao plen\u00e1rio, abruptamente, ap\u00f3s articula\u00e7\u00f5es em reuni\u00f5es fechadas. Salvo algumas exce\u00e7\u00f5es, os parlamentares comparecem ao plen\u00e1rio raramente, votam conforme a orienta\u00e7\u00e3o de l\u00edderes ou de interesses pontuais e usam o tempo de fala n\u00e3o para formular ideias capazes de mobilizar o eleitorado, mas para produzir \u201ccortes\u201d para as m\u00eddias sociais. Os cidad\u00e3os s\u00e3o deixados de fora da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Leia mais:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/com-trocas-de-partidos-camara-confirma-hegemonia-conservadora\/\"><strong>Com trocas de partidos, C\u00e2mara confirma hegemonia conservadora<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O Datafolha mostrou que apenas meia d\u00fazia de deputados, entre 513, foram citados por ao menos 1% dos entrevistados \u2013 e, mesmo assim, em geral por sua capacidade de \u201cengajamento\u201d no ambiente digital. Poucos cidad\u00e3os sabem citar o nome de um parlamentar, h\u00e1 um profundo div\u00f3rcio entre representantes e representados. Mas os fundos partid\u00e1rio e eleitoral e as emendas parlamentares garantem a reelei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe \u201cparidade de armas\u201d entre quem tem e n\u00e3o tem mandato. O Congresso est\u00e1 blindado contra a renova\u00e7\u00e3o. A democracia de massas no Brasil s\u00f3 sobrevive por causa do voto direto nas elei\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias e da urna eletr\u00f4nica.<\/p>\n<p><em>Fica a dica de um bom filme na Apple TV Store. Mas, antes, vamos torcer pelo Brasil.<\/em><\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: <\/em>todas as colunas diariamente no\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos cidad\u00e3os sabem citar o nome de um parlamentar, h\u00e1 um profundo div\u00f3rcio entre representantes e representados. Mas as emendas garantem a reelei\u00e7\u00e3o No fim dos anos 50, Dale Turner, um saxofonista negro americano, toca todas as noites no Blue Note, em Saint-Germain. \u00c9 um alco\u00f3latra. Basta que escape \u00e0 vigil\u00e2ncia dos amigos e ele vai parar no hospital. 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