{"id":11456,"date":"2026-06-24T09:28:03","date_gmt":"2026-06-24T12:28:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11456"},"modified":"2026-06-24T09:28:24","modified_gmt":"2026-06-24T12:28:24","slug":"digimais-master-e-a-ameaca-de-um-risco-sistemico-silencioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/digimais-master-e-a-ameaca-de-um-risco-sistemico-silencioso\/","title":{"rendered":"Digimais, Master e a amea\u00e7a de um risco sist\u00eamico silencioso"},"content":{"rendered":"<p><strong>Al\u00e9m das poss\u00edveis infra\u00e7\u00f5es penais, o caso do banco do Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do modelo observado anteriormente no Banco Master<\/strong><\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Miragem, deflagrada pela Pol\u00edcia Federal (PF) contra o Banco Digimais, controlado pelo empres\u00e1rio e chefe religioso Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, vai al\u00e9m do que seria mais um esc\u00e2ndalo financeiro. As suspeitas de manipula\u00e7\u00e3o cont\u00e1bil, oculta\u00e7\u00e3o de preju\u00edzos, superavalia\u00e7\u00e3o de ativos, venda de cr\u00e9ditos sem lastro e transfer\u00eancia de riscos para terceiros revelam um padr\u00e3o recorrente de comportamento em institui\u00e7\u00f5es financeiras de m\u00e9dio porte que trabalham com altas taxas de risco. Isso pode representar uma amea\u00e7a estrutural \u00e0 estabilidade do sistema financeiro nacional.<\/p>\n<p>Em termos de opera\u00e7\u00f5es financeiras, o caso tem muita semelhan\u00e7a com o esc\u00e2ndalo que levou \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o do Banco Master. Em ambos os epis\u00f3dios, as investiga\u00e7\u00f5es apontam para o mesmo mecanismo de engenharia financeira. A utiliza\u00e7\u00e3o de carteiras de cr\u00e9dito de qualidade duvidosa para inflar artificialmente ativos, mascarar a situa\u00e7\u00e3o patrimonial da institui\u00e7\u00e3o e sustentar uma apar\u00eancia de solv\u00eancia perante reguladores, investidores e depositantes, parece ser um modus operandi dessas institui\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o temer\u00e1ria.<\/p>\n<p>Segundo a PF, administradores do Digimais teriam manipulado balan\u00e7os para gerar receitas fict\u00edcias de centenas de milh\u00f5es de reais, ocultando um patrim\u00f4nio l\u00edquido negativo que j\u00e1 alcan\u00e7aria a casa dos bilh\u00f5es. O BC identificou opera\u00e7\u00f5es que teriam permitido registrar ativos sem lastro adequado, al\u00e9m de lan\u00e7amentos cont\u00e1beis destinados a melhorar artificialmente os indicadores financeiros da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2026\/06\/7446734-pf-diz-que-digimais-replicou-modelo-operacional-do-master-em-esquema-investigado.html\">PF diz que Digimais replicou modelo operacional do Master em esquema investigado<\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m das poss\u00edveis infra\u00e7\u00f5es penais, chama aten\u00e7\u00e3o a repeti\u00e7\u00e3o do modelo observado anteriormente no Master. Trata-se de um mecanismo que explora uma caracter\u00edstica fundamental do sistema financeiro brasileiro, exatamente aquele que confere mais credibilidade ao nosso moderno sistema banc\u00e1rio: a prote\u00e7\u00e3o oferecida pelo Fundo Garantidor de Cr\u00e9dito (FGC).<\/p>\n<p>Criado para proteger poupadores e preservar a confian\u00e7a no sistema financeiro, o FGC funciona como uma esp\u00e9cie de seguro coletivo dos dep\u00f3sitos banc\u00e1rios, o que ancora a superestrutura da nossa economia. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 evitar corridas banc\u00e1rias e impedir que a quebra de uma institui\u00e7\u00e3o contamine o restante do mercado. O problema surge quando gestores assumem riscos excessivos ou recorrem a pr\u00e1ticas fraudulentas apostando que, em caso de colapso, parte significativa das perdas acabar\u00e1 absorvida pelo sistema garantidor.<\/p>\n<p>A PF sustenta que esse risco estava presente no caso do Digimais. Segundo a investiga\u00e7\u00e3o, suas opera\u00e7\u00f5es dependeriam de um aporte estimado em R$ 7 bilh\u00f5es do FGC para cobrir deficits acumulados. Na avalia\u00e7\u00e3o dos investigadores, isso significaria socializar preju\u00edzos produzidos por uma gest\u00e3o potencialmente fraudulenta, enquanto controladores e administradores preservariam parcela relevante de seus patrim\u00f4nios.<\/p>\n<p><strong>Faltou controle<\/strong><\/p>\n<p>A l\u00f3gica \u00e9 semelhante \u00e0 observada em crises banc\u00e1rias internacionais, nas quais privatizam-se os lucros durante os per\u00edodos de expans\u00e3o e socializam-se os preju\u00edzos quando o modelo entra em colapso, como aconteceu com a crise do mercado imobili\u00e1rio dos Estados Unidos. H\u00e1 ind\u00edcios de forma\u00e7\u00e3o de uma cadeia de institui\u00e7\u00f5es conectadas por opera\u00e7\u00f5es de cess\u00e3o de cr\u00e9dito, fundos de investimento em direitos credit\u00f3rios (FIDCs) e estruturas de securitiza\u00e7\u00e3o, num ciranda financeira fraudulenta.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a liquida\u00e7\u00e3o do Master, descobriu-se que o Digimais mantinha exposi\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima de R$ 600 milh\u00f5es a ativos vinculados \u00e0quele banco. A qualidade desses cr\u00e9ditos passou a ser questionada pelos \u00f3rg\u00e3os de supervis\u00e3o. Essa interconex\u00e3o aumenta o potencial de cont\u00e1gio. Quando uma institui\u00e7\u00e3o transfere carteiras problem\u00e1ticas para fundos, investidores ou outros bancos, os riscos deixam de permanecer confinados ao seu balan\u00e7o. Espalham-se pelo sistema financeiro como um todo.<\/p>\n<p>Leia mais<em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2026\/06\/7447211-bloqueio-nao-impede-saques-mas-pode-afetar-clientes-do-digimais.html\">Bloqueio de R$ 670 mi n\u00e3o impede saques, mas pode afetar clientes do Digimais<\/a><\/em><\/p>\n<p>Foi exatamente esse tipo de din\u00e2mica que esteve na origem da crise financeira global de 2008. Nos EUA, hipotecas de baixa qualidade foram empacotadas, revendidas e pulverizadas por diversos agentes financeiros. Quando se descobriu que os ativos eram muito menos valiosos do que aparentavam, a confian\u00e7a desapareceu simultaneamente em v\u00e1rios segmentos do mercado.<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 longe dessa escala. O sistema banc\u00e1rio nacional continua s\u00f3lido, capitalizado e submetido a uma das regula\u00e7\u00f5es mais rigorosas do mundo. Entretanto, os epis\u00f3dios envolvendo Master, Digimais e outras institui\u00e7\u00f5es liquidadas nos \u00faltimos anos revelam vulnerabilidades importantes na supervis\u00e3o de bancos m\u00e9dios e de estruturas financeiras menos transparentes.<\/p>\n<p>Preocupante que essas opera\u00e7\u00f5es cont\u00e1beis tenham se acumulado sem que houvesse uma interven\u00e7\u00e3o mais firme do Banco Central (BC), como ocorre agora. Isso engrossa os questionamentos de que a institui\u00e7\u00e3o estava vulner\u00e1vel &#8220;desde dentro&#8221;, como aconteceu no caso Master, com envolvimento de diretores da institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1veis pela fiscaliza\u00e7\u00e3o do sistema. A credibilidade do sistema financeiro depende de supervis\u00e3o eficiente, transpar\u00eancia cont\u00e1bil e responsabiliza\u00e7\u00e3o dos controladores. S\u00e3o pilares da institucionalidade da nossa economia.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas diariamente no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m das poss\u00edveis infra\u00e7\u00f5es penais, o caso do banco do Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do modelo observado anteriormente no Banco Master A Opera\u00e7\u00e3o Miragem, deflagrada pela Pol\u00edcia Federal (PF) contra o Banco Digimais, controlado pelo empres\u00e1rio e chefe religioso Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, vai al\u00e9m do que seria mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":11463,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,36,371,4,7,972,3,894],"tags":[1058,2144,2145,2054,2146],"class_list":["post-11456","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","category-economia","category-etica","category-governo","category-justica","category-memoria","category-politica","category-tecnologia","tag-bc","tag-digimais","tag-macedo","tag-master","tag-universal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11456","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11456"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11456\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11464,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11456\/revisions\/11464"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11463"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11456"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11456"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11456"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}