{"id":11446,"date":"2026-06-21T08:53:30","date_gmt":"2026-06-21T11:53:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=11446"},"modified":"2026-06-21T09:20:20","modified_gmt":"2026-06-21T12:20:20","slug":"a-patria-em-chuteiras-e-o-desafio-de-ancelotti-no-comando-da-selecao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-patria-em-chuteiras-e-o-desafio-de-ancelotti-no-comando-da-selecao\/","title":{"rendered":"A p\u00e1tria em chuteiras e o desafio de Ancelotti no comando da sele\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>N\u00e3o \u00e9 apenas escolher os melhores jogadores e definir o esquema t\u00e1tico mais eficiente. A tarefa \u00e9 transformar talentos dispersos num for\u00e7a coletiva que emocione os brasileiros<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A mem\u00f3ria \u00e9 trai\u00e7oeira, ainda mais do nosso futebol. Com o passar do tempo, vit\u00f3rias parecem inevit\u00e1veis e derrotas s\u00e3o acidentes de percurso. \u00c9 o caso da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de 1970, lembrada hoje como a maior equipe de futebol de todos os tempos, liderada por Pel\u00e9, que encantou o mundo e conquistou definitivamente a Ta\u00e7a Jules Rimet. Entretanto, quando desembarcou no M\u00e9xico, aquela sele\u00e7\u00e3o estava desacreditada.<\/p>\n<p>A recente s\u00e9rie da Netflix sobre a campanha de 1970, embora misture fatos e fic\u00e7\u00e3o, recupera essa verdade esquecida: o Brasil chegou \u00e0 Copa cercado por d\u00favidas, como acontece agora com o time do t\u00e9cnico italiano Carlo Ancelotti. O trauma da elimina\u00e7\u00e3o na Inglaterra, em 1966, ainda estava vivo. A substitui\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Saldanha por Zagallo provocara enorme pol\u00eamica. Havia interfer\u00eancia pol\u00edtica do regime militar. E d\u00favidas sobre a condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica de Pel\u00e9 e Tost\u00e3o e a capacidade do supersticioso t\u00e9cnico Mario Jorge Zagallo.<\/p>\n<p>Mas houve uma converg\u00eancia de astros. O grupo encontrou equil\u00edbrio raro entre orienta\u00e7\u00e3o t\u00e1tica, disciplina coletiva e liberdade criativa. Com Pel\u00e9, Tost\u00e3o, Jairzinho, Rivellino, G\u00e9rson, Clodoaldo, Carlos Alberto, o futebol brasileiro mostrou uma caracter\u00edstica singular: fundir o talento individual ao esp\u00edrito coletivo. Mais do que vencedora, aquela sele\u00e7\u00e3o tornou-se uma representa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. \u00c9 o que ainda n\u00e3o acontece agora.<\/p>\n<p>Carlo Ancelotti assumiu a Sele\u00e7\u00e3o Brasileira em circunst\u00e2ncias diferentes. Est\u00e1 diante de um desafio complexo. N\u00e3o \u00e9 a falta de talento. O Brasil conta com jogadores extraordin\u00e1rios. Mas ainda falta uma identidade coletiva capaz de reconectar a Sele\u00e7\u00e3o ao imagin\u00e1rio popular. Em 1970, os brasileiros conheciam seus craques. Pel\u00e9 jogava no Santos. Rivellino era o \u00eddolo corintiano. Jairzinho brilhava no Botafogo. Tost\u00e3o encantava os mineiros no Cruzeiro. O torcedor acompanhava seus \u00eddolos nos est\u00e1dios, nos jornais e pelo r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Havia uma rela\u00e7\u00e3o afetiva entre os jogadores e o p\u00fablico. Eram pessoas comuns capazes de feitos extraordin\u00e1rios. Hoje, a realidade \u00e9 outra. Muitos jogadores deixam o pa\u00eds ainda adolescentes. Constroem suas carreiras na Espanha, Inglaterra, Fran\u00e7a, Alemanha ou Ar\u00e1bia Saudita. S\u00e3o admirados pelo que fazem em clubes internacionais, mas est\u00e3o distantes do cotidiano do torcedor brasileiro. Alguns jogam em equipes desconhecidas. Outros se destacam em campeonatos acompanhados apenas por bolhas de torcedores.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/esportes\/2026\/06\/7445380-endrick-vira-sensacao-na-copa-e-ganha-apoio-da-torcida.html\"><strong>Endrick vira sensa\u00e7\u00e3o na Copa e ganha apoio da torcida<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Existe ainda um distanciamento emocional. Vinicius J\u00fanior \u00e9 um dos melhores jogadores do mundo. Temos Rodrygo, Raphinha, Bruno Guimar\u00e3es e tantos outros. Mas o afeto n\u00e3o \u00e9 a mesmo que existia com os her\u00f3is de gera\u00e7\u00f5es anteriores. Neymar ainda mal tem condi\u00e7\u00f5es de jogar; o garoto Endrick, novo xod\u00f3 da torcida, n\u00e3o caiu nas gra\u00e7as do t\u00e9cnico. Pedro, centroavante sortudo e oportunista do Flamengo, apesar de artilheiro do campeonato brasileiro, n\u00e3o foi convocado.<\/p>\n<p><strong>Globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Houve uma mudan\u00e7a de paradigma na montagem da sele\u00e7\u00e3o cuja maior refer\u00eancia \u00e9 a contrata\u00e7\u00e3o de um t\u00e9cnico italiano para conduzir a equipe. Esse fen\u00f4meno transcende o futebol, \u00e9 fruto tamb\u00e9m da globaliza\u00e7\u00e3o, da glamouriza\u00e7\u00e3o da vida privada dos grandes craques, que ganham mais dinheiro fora do que dentro dos campos e se tornam bilion\u00e1rios. Houve uma transforma\u00e7\u00e3o cultural produzida pela globaliza\u00e7\u00e3o. Era preciso um t\u00e9cnico respeitado pelos \u201cestrangeiros\u201d.<\/p>\n<p>Ancelotti conhece bem esse contexto. Italiano, vem de um pa\u00eds em que o futebol tamb\u00e9m ocupa lugar privilegiado na vida nacional. Na It\u00e1lia, como no Brasil, clubes e sele\u00e7\u00f5es mobilizam paix\u00f5es coletivas, identidades regionais e sentimentos patri\u00f3ticos. Entretanto, existe uma diferen\u00e7a fundamental. Na It\u00e1lia, o futebol \u00e9 uma paix\u00e3o nacional. No Brasil, tornou-se parte da pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de brasilidade.<\/p>\n<p>Poucos compreenderam isso quanto Nelson Rodrigues. Em suas cr\u00f4nicas reunidas em obras como A P\u00e1tria em Chuteiras e \u00c0 Sombra das Chuteiras Imortais, a Sele\u00e7\u00e3o \u00e9 mais do que uma equipe esportiva. Ela representa a na\u00e7\u00e3o em sua dimens\u00e3o simb\u00f3lica. Foi Nelson quem cunhou a express\u00e3o &#8220;complexo de vira-latas&#8221; para descrever o sentimento de inferioridade que, segundo ele, acompanhava os brasileiros ap\u00f3s a derrota para o Uruguai na Copa de 1950.<\/p>\n<p>As conquistas de 1958, 1962 e 1970 representariam justamente a supera\u00e7\u00e3o desse trauma coletivo. Quando a Sele\u00e7\u00e3o entrava em campo, era o pr\u00f3prio Brasil que se apresentava ao mundo, era a &#8220;p\u00e1tria em chuteiras&#8221;. Nosso futebol \u00e9 uma forma de representa\u00e7\u00e3o nacional de ra\u00edzes antropol\u00f3gicas, mais poderosa do que discursos pol\u00edticos e campanhas c\u00edvicas. Sintetiza caracter\u00edsticas da nossa sociedade. Nele convivem disciplina e improvisa\u00e7\u00e3o, estrat\u00e9gia e criatividade, ordem e inven\u00e7\u00e3o, o real e o fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>A Sele\u00e7\u00e3o de 1970 foi a express\u00e3o dessa s\u00edntese. Pel\u00e9 era o rei. G\u00e9rson, o c\u00e9rebro. Rivellino, a pontaria infal\u00edvel. Jairzinho, a for\u00e7a avassaladora. Tost\u00e3o, a intelig\u00eancia t\u00e1tica. Nenhum deles anulava o outro. O conjunto alavancava as partes. Essa \u00e9 a grande li\u00e7\u00e3o para Ancelotti.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/revista-do-correio\/2026\/06\/7442917-hexa-um-sonho-que-atravessa-geracoes.html\"><strong>Hexa: um sonho que atravessa gera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas de escolher os melhores jogadores ou definir o esquema t\u00e1tico mais eficiente. A tarefa \u00e9 transformar talentos dispersos num for\u00e7a coletiva capaz de emocionar os brasileiros. O tr\u00eas a zero contra o Haiti mostra o caminho, mas \u00e9 apenas um come\u00e7o. O fantasma da derrota por 7 a 1 para a Alemanha, no Mineir\u00e3o, em 2014, ainda ronda nosso imagin\u00e1rio, como aquele 2 a 1 a favor do Uruguai, no Maracan\u00e3, na Copa de 1950, que assombrava o time de Zagallo.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas diariamente no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 apenas escolher os melhores jogadores e definir o esquema t\u00e1tico mais eficiente. A tarefa \u00e9 transformar talentos dispersos num for\u00e7a coletiva que emocione os brasileiros A mem\u00f3ria \u00e9 trai\u00e7oeira, ainda mais do nosso futebol. 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