Riscos jurídicos e passivos podem transformar a peça que deveria agregar em problema: investigações, processos ou escândalos potencializam a necessidade de substituição do vice
A escolha do vice tem se revelado um dos nós mais espinhosos da atual pré-campanha, porque combina necessidades de costura partidária, cálculo eleitoral e gestão de riscos. Hoje, quem sai na frente é Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD, com a indicação de Gilberto Kassab como vice. A antecipação da decisão tem muito a ver com as dificuldades enfrentadas pelo ex-governador de Goiás, cuja campanha está estagnada.
A entrada de Kassab na chapa, tudo indica, tem por objetivo evitar a cristianização de Caiado, que enfrenta dificuldades internas no PSD para unificar a legenda e mobilizar a máquina partidária. Caiado oscila em torno de 3% nas pesquisas e precisa alavancar sua candidatura, cujo patrono é Kassab, depois da desistência do governador do Paraná, Ratinho Junior, e do fato de ter sido descartado o nome de Eduardo Leite, o governador do Rio Grande do Sul, que poderia atrair para vice um nome do PSDB.
Figura de centro e dirigente partidário, Kassab tentou encontrar alternativas que ampliassem o apoio a Caiado, como o ex-governador capixaba Paulo Hartung, mas não obteve sucesso. A escolha mostra também o voo curto de candidatos que migram de legendas maiores, porque sair do União Brasil reduziu o espaço de negociação nacional de Caiado com o Centrão, tornando o apoio do PSD mais necessário e, ao mesmo tempo, insuficiente para viabilizar uma terceira via competitiva.
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No campo bolsonarista, a escolha do vice de Flávio Bolsonaro (PL) continua um ponto de interrogação. Havia uma hipótese de aliança com o ex-governador de Minas Romeu Zema, mas o envolvimento do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro com o caso Master afastou o candidato do Novo de uma possibilidade de coligação. Para qualquer estrategista de campanha, diante das circunstâncias, o nome ideal para vice de Flávio seria Michelle Bolsonaro, a ex-primeira-dama, mas é aí que vida se mostra mais complicada do que supõem as soluções simples.
Michelle
A relação entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro virou um incêndio no parquinho do bolsonarismo, que mostra a falta de coesão familiar e diferenças de projeto pessoal. Flávio mantém o respaldo formal do PL, mas o atrito com Michelle abriu possibilidade de rearranjos que, nos bastidores, chegam a considerar a ex-primeira-dama como alternativa, caso a candidatura de Flávio venha a se complicar ainda mais devido às relações perigosas com o banqueiro Daniel Vorcaro. Ninguém sabe o nível de comprometimento que existia entre ambos, mas os dois sabem.
O descontentamento público de Michelle com o tratamento que recebe de Flávio e dos demais filhos do ex-presidente da República é mais um sinal de fragilidade do candidato do PL. Mostra um núcleo partidário dividido e uma campanha descolada de seu próprio partido. Michelle tem luz própria, montou uma ala feminina combativa e numerosa, com uma agenda transversal antimachista que descontenta o bolsonarismo raiz naquilo que é uma de suas características: a misoginia. Além disso, é candidata favorita a uma das vagas do Distrito Federal (DF) no Senado.
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A prioridade do comando do PL tem sido preservar Flávio como cabeça de chapa e evitar substituições que provoquem fissuras internas; ainda assim, a escolha do vice precisará neutralizar tensões pessoais e articular apoios regionais sem se transformar em foco de novos conflitos. O bombeiro na crise é o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, raposão da política de bastidor.
Alckmin
A chapa de Luiz Inácio Lula da Silva com Geraldo Alckmin é hoje a exceção à regra de incerteza: a manutenção da dobradinha reduz os custos estratégicos ligados à escolha do vice. Alckmin acrescenta legitimidade institucional, apelo moderado e sinal de governabilidade para setores empresariais e centristas; para Lula, a sua continuidade significa poder concentrar recursos na agenda de campanha e na defesa do legado do governo, em vez de gastar capital político com negociações internas.
Essa estabilidade também evita que o tema vice seja usado como munição por adversários; ao contrário de candidaturas que precisam definir o nome às vésperas da convenção eleitoral, a coalizão governista já integrou o vice nas estruturas administrativas e de comunicação, tira a campanha da incerteza logística e narrativa. Grande surpresa da montagem da chapa de 2022, a presença de Geraldo Alckmin (PSB) na Vice-Presidência foi uma mão na roda para Lula. Discreto, afirmativo, pronto para as missões impossíveis, como negociar o tarifaço, não foi figura decorativa no governo, tendo grande desempenho como ministro do Desenvolvimento, Comércio, Indústria e Serviços.
A temporada de caça ao vice ideal tem prazo para terminar: 15 de agosto. Até lá, nada é definitivo, tudo é perigoso. Além das diferenças entre candidaturas, existem fatores que complicam a tomada de decisão. Riscos jurídicos e passivos de nomes escolhidos podem transformar o vice que deveria agregar em um problema existencial: investigações, processos ou escândalos potencializam a necessidade de substituição durante a campanha, o que gera custos de imagem e de mobilização.
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