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Notícias distópicas da guerra entre Donald Trump e os aiatolás do Irã

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Durante décadas, mesmo sob tensões, o sistema internacional operou com previsibilidade, instituições, normas e mediação. Esses instrumentos mostram sinais claros de esgotamento

“Distopia” é a representação de uma sociedade imaginária marcada por opressão, caos ou degradação extrema — um “lugar ruim”, no qual a violência, a perda de liberdade e a ruptura das normas civilizatórias se tornam regra. Mais do que coisa da literatura ou do cinema, a distopia é alerta: projeta no futuro tendências já presentes no mundo real. É aí que os acontecimentos no Oriente Médio, com a escalada retórica e militar envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã assombram as chancelarias das grandes potências mundiais e impactam a vida das pessoas em todo mundo.

O episódio mais recente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas — com o veto de Rússia e China a uma resolução sobre o Estreito de Ormuz — mostra o esgotamento das possibilidades de solução do conflito pelas vias do direito internacional e da diplomacia. A ONU já não é capaz de produzir consensos mínimos entre as potências nos momentos de crise como essa. Nesse vácuo diplomático, a lógica da força bruta ganha centralidade, sobretudo na política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tenta reverter o declínio da hegemonia econômica norte-americana pela via da supremacia militar.

No terreno das ameaças, até essa terça-feira à noite, Trump havia posicionado os Estados Unidos num patamar raramente visto, mesmo em contextos de guerra: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, ameaçou. E advertiu que poderia “eliminar o Irã em uma noite”, caso suas exigências não fossem atendidas. Era a noite dessa terça-feira, mas o Irã pagou para ver. Trump recuou e anunciou uma trefgua de duas semanas. Mesmo admitindo que tudo não passou de blefe, recurso que o presidente norte-americano utiliza com frequência, esse tipo de ameaça desloca o conflito para um terreno muito perigoso.

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A resposta do Irã, controlado pelos aiatolás xiitas e sua guarda revolucionária islâmica, já demonstrou que as ameaças não estão surtindo efeito. Ataques iranianos com mísseis e drones atingiram ou foram direcionados a países do Golfo, como Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, além de instalações americanas no Iraque. Ao mesmo tempo, o Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial —, epicentro estratégico da crise, continuou fechado, com impactos imediatos sobre o comércio global e os preços da energia.

Mesmo com a reabertrura de Ormuz, o balanço objetivo dos efeitos da guerra mostrará que os prejuízos não serão apenas conjunturais, por causa dos danos à infraestrutura. No plano econômico, houve oscilações do preço do petróleo, com picos recentes que pressionam a inflação global e afetam diretamente economias dependentes de combustíveis fósseis. No plano militar, a ampliação das operações, que já inclui ataques indiretos a aliados regionais e ameaças a outras rotas marítimas, enquanto não houver um acordo de paz duradouro, o risco de o conflito recrudescer e atingir proporções inimagináveis permanece.

Uma nova ordem

Por trás da fragmentação diplomática, dois blocos de países se formam nessa guerra, cada qual com suas próprias contradições: os Estados Unidos, as potências europeias e as monarquias árabes de um lado; Rússia, China e parte do chamado Sul Global de outro. Qual será a arquitetura da nova ordem mundial que emergirá dessa guerra? Aquela do pós-Segunda Guerra Mundial, inspirada na Paz de Westfália, está morrendo. Firmada em Münster e Osnabrück, em 1648, estabeleceu as bases da diplomacia moderna: o princípio da soberania territorial, a não ingerência em assuntos internos e a igualdade jurídica entre nações, consolidando a separação entre religião e política.

Com suas ameaças, Trump trouxe à crise uma dimensão histórica e existencial preocupante. Herdeiro de uma civilização milenar que remonta ao Império Persa, o Irã não é apenas um ator geopolítico contemporâneo, mas um polo cultural cuja trajetória já foi marcada, em diferentes momentos, por estratégias de integração e tolerância. A evocação da destruição de uma “civilização” nos remetes aos piores momentos da História. Tais declarações podem ser enquadradas, ao menos em tese, como incitação a crimes de guerra.

A sensação é de ruptura de paradigma. Durante décadas, mesmo sob tensões, o sistema internacional operou com algum grau de previsibilidade, ancorado em instituições, normas e mecanismos de mediação. Hoje, esses instrumentos mostram sinais claros de esgotamento. A incapacidade de o Conselho de Segurança produzir uma resposta efetiva não apenas reflete a divisão entre as grandes potências, mas também a consolidação de um mundo multipolar, no qual não há mais árbitros inconteste.

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A transição de um sistema baseado em regras para um ambiente dominado pela correlação de forças é o tipo de inflexão que sugere os cenários distópicos, como em “Aqui não pode acontecer” (Editora Martin Claret, em inglês It Can’t Happen Here), de Sinclair Lewis, que narra a ascensão de um populista autoritário nos EUA, frequentemente associado ao estilo de governo de Trump. Não se trata, porém, de uma distopia literária, há uma realidade que incorpora alguns de seus elementos centrais: a banalização da violência, a erosão das normas, a substituição da negociação pela imposição e a crescente incerteza sobre o futuro.

O risco maior, nesse contexto, não é apenas a continuidade da guerra, mas a ausência de limites claros para sua escalada. Quando as estruturas que organizam a vida coletiva colapsam, o que se impõe não é uma nova ordem estável, mas um período prolongado de instabilidade, no qual a força, e não a lei, passa a ditar os rumos da história.

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