Nas entrelinhas: A chuva dourada

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“A postagem de um vídeo obsceno postado por Bolsonaro virou chacota na imprensa mundial, porém, mobilizou os partidários do presidente”

Desde “Pelo telefone” (Donga), composta em 1916, no quintal da casa da Tia Ciata, na Praça Onze, a relação do samba e do carnaval com os bons costumes e a ordem instituída foi tensa. A letra original do primeiro samba, “O chefe da folia/ Pelo telefone / Mandou me avisar / Que com alegria / Não se questione / Para se brincar”, foi alterada para a versão mais conhecida hoje em dia, “O Chefe da Polícia / Pelo telefone/ Manda me avisar/ Que na Carioca / Tem uma roleta/ Para se jogar”. Composto por Sinhô e gravada em 1928 pelo seu aluno de violão, Mário Reis, e depois por Aracy Cortes e Noel Rosa, o samba “Jura”, mais recentemente gravado por Zeca Pagodinho, nasceu no teatro de revista, com uma letra que insinua o sexo não-convencional: “Jura. Jura de coração/ Para que um dia/ Eu possa dar-te o meu amor/ Sem mais pensar na ilusão/ Daí então dar-te eu irei/ Um beijo puro na catedral do amor.”

No começo dos anos 1970, uma professora primária escandalizou o país ao exibir os seios num baile do Clube Sírio e Libanês, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Era uma época em que as grandes sociedades, como o Clube dos Democráticos e os Tenentes do Diabo, estavam em absoluta decadência, o desfile de escola de samba ainda era na Avenida Presidente Vargas e os blocos de massa, apenas dois, Cacique de Ramos e Bafo da Onça. Quem quisesse brincar na rua os quatro dias de carnaval no Rio de Janeiro teria de ir à Avenida Rio Branco e correr atrás dos chamados blocos de sujo, que se formavam quase espontaneamente.

A Banda de Ipanema, que desfilara a primeira vez em 1965, inspirando o surgimento de dezenas de bandas pela cidade, fez renascer das cinzas o carnaval de rua. Sua musa inspiradora, a atriz Leila Diniz, com seu biquíni bem-comportado, escandalizara a cidade ao exibir na praia o barrigão da gravidez. Criada por Ferdy Carneiro, Albino Pinheiro, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, o pai, e demais integrantes de O Pasquim, a banda reunia os protagonistas do cinema novo e da bossa nova, era um contraponto satírico a inúmeras proibições à cultura feitas pelo regime militar.

Com o tempo, os bailes nos clubes foram ficando cada vez mais permissivos; os desfiles de escolas de samba mais luxuosos e glamourizados; a folia de rua, mais popular e democrática. O gigantismo da Banda de Ipanema levou ao surgimento de outros blocos na Zona Sul carioca, como o Simpatia é Quase Amor, inspirado num personagem de Aldir Blanc. O carnaval, com sua força transgressora, foi a vanguarda da revolução dos costumes, em curso no mundo ocidental, desde as manifestações de 1968.

Naquela época, tudo acabava a zero hora de Quarta-feira de Cinzas. Apenas dois blocos desfilavam no Rio de Janeiro depois disso: “O que é que eu vou dizer em casa”, que reunia os foliões mais exaltados, que saiam do xadrez da antiga Delegacia de Averiguações, na Avenida Presidente Vargas; e o “Chave de Ouro”, liderado por playboys do Cine Imperator, na Avenida Dias da Cruz, no Meier, subúrbio carioca da Central do Brasil, que promoviam um jogo de gato e rato com os policiais mobilizados para impedir a folia.

Pornografia

Em mais de 100 anos, ninguém conseguiu conter os foliões, a liberação dos costumes nem os excessos dos mais exaltados. O vídeo divulgado pelo presidente Jair Bolsonaro, a partir de sua conta no Twitter, condenando a festa popular, é o flagrante de um fato isolado, num bloco da Bela Vista, bairro boêmio de São Paulo. As cenas obscenas de um homem urinando na cabeça de um travesti, que havia se masturbado, sobre um ponto de ônibus, porém, não poderiam ser generalizadas, por mais permissivo e erotizado que esteja o carnaval. Muito menos compartilhadas. Pornográfico, o vídeo viralizou nas redes sociais e espantou o mundo, literalmente.

Ontem, Bolsonaro se fez de desentendido e perguntou no Twitter: “O que é golden shower?”. A tradução significa “chuva dourada”, uma prática sexual escatológica. Não se sabe se a autoria foi do próprio presidente ou de seu filho caçula, o vereador carioca Carlos Bolsonaro, que opera suas redes sociais. A postagem virou chacota na imprensa mundial, porém, mobilizou os partidários do presidente da República, que lidera uma campanha moralista e ganhou as eleições com uma agenda pautada pela defesa da família. A rigor, deveria estar mais preocupado com a reforma da Previdência e a articulação da base governista na Câmara do que com o carnaval.

Viva a Mangueira!!!

Luiz Carlos Azedo

Jornalista

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