Kleber Sales

Lula perde favoritismo e Flávio consolida a candidatura da oposição

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Cenários reforçam essa percepção. Em três simulações contra Flávio Bolsonaro, Lula oscila entre 45% e 45,3%, enquanto o senador varia entre 39,1% e 39,5%

A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada nesta quarta-feira (25), confirma aquilo que já vinha se desenhando nos levantamentos mais recentes: a eleição presidencial de 2026 está aberta, o favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva deixou de ser confortável e Flávio Bolsonaro consolida-se como o polo da direita na disputa, cristalizando novamente uma polarização dura, de alta rejeição dos dois lados.

Os números falam por si. No principal cenário testado, Lula aparece com 45% das intenções de voto, contra 37,9% de Flávio. O importante é o movimento: em relação à rodada anterior, Lula perdeu 3,8 pontos percentuais, enquanto Flávio cresceu 2,9. No segundo turno, Flávio Bolsonaro alcança 46,3% das intenções de voto, e Lula registra 46,2%, dentro da margem de erro de um ponto percentual. Em comparação ao levantamento anterior, o presidente recuou três pontos, enquanto o senador avançou 1,4 ponto.

Trata-se de uma inflexão relevante, sobretudo porque ocorre em um momento em que o governo ainda colhe indicadores econômicos menos negativos e mantém políticas populares, como a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil e a proposta de redução da jornada de trabalho. A oposição já sentiu o cheiro de animal ferido na floresta: Lula segue liderando, mas já não transmite a sensação de vitória antecipada. O “prêmio de incumbência”, isto é, a expectativa natural de poder associada ao exercício da Presidência, começa a se dissipar. A eleição deixa de ser percebida como um referendo confortável sobre o governo e passa a ser vista como uma disputa real, competitiva, em que cada erro de comunicação, cada tropeço simbólico e cada ruído institucional contam muito.

Os cenários alternativos reforçam essa percepção. Em três simulações diferentes contra Flávio Bolsonaro, Lula oscila entre 45% e 45,3%, enquanto o senador varia entre 39,1% e 39,5%. A distância permanece, mas é estável e estreita, dentro de um ambiente de polarização máxima. Já no cenário em que entra Tarcísio de Freitas, Lula cai para 43,3%, e o governador paulista aparece com 36,2%, acompanhado de um crescimento expressivo de Romeu Zema. Esse quadro indica que a direita, quando consegue apresentar nomes competitivos, reduz ainda mais a margem do presidente.

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O quinto cenário, no qual Lula amplia a vantagem para 47,1% contra 33,1% de Flávio, mostra que a base lulista permanece sólida, graças à “economia do afeto”, mas também revela a volatilidade do eleitorado intermediário, aquele que decide eleições apertadas, refratário à “cultura de rechaço” do PT. No sexto cenário, com a substituição de Lula, Haddad aparece com 39,1%, tecnicamente empatado com Flávio, que marca 37,1%. Esse empate revela que Haddad se tornou eleitoralmente viável, algo impensável poucos anos atrás; e mostra que Lula continua sendo o grande fiador eleitoral do campo governista. Sem ele, a disputa fica ainda mais imprevisível.

“Nós com nós”

Flávio Bolsonaro alcançou seu objetivo central: herdou o antipetismo, bloqueou o surgimento de uma terceira via robusta e se tornou o nome natural da direita. É impressionante a sua capacidade de “absunção” do capital eleitoral do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Mesmo sem o carisma do pai, o sobrenome, o apoio do núcleo duro bolsonarista e a convergência quase automática da direita não lulista em torno de sua candidatura fazem de sua candidatura a expressão de um movimento orgânico na sociedade.

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A pesquisa mostra também que governadores como Caiado, Zema, Ratinho Júnior ou Eduardo Leite terão que comer muito feijão com arroz para saírem da condição periférica no primeiro turno, incapazes, até aqui, de romper a lógica binária. Nesse escalão, destaca-se a resiliência do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), que tem mais gana de ser candidato do que os governadores do Paraná, Ratinho Jr, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, apesar das simpatias da Faria Lima e dos que sonham com a “terceira via”.

Lula continua competitivo, lidera todos os cenários e dispõe da máquina federal, de políticas públicas populares e de uma economia que dá sinais de melhora marginal. Mas está entrando numa faixa muito perigosa, que pode lhe custar a aura de invencibilidade natural em quem concorre à reeleição. De agora em diante, cada gesto passa a ser escrutinado. O PT precisa tirar o boizinho da sombra e ir à luta, buscar mais protagonismo no Congresso e tecer alianças amplas nos estados.

Em um país dividido quase ao meio, como indicam reiteradamente as pesquisas, a vitória em 2026 dependerá menos de ampliar bases já consolidadas e mais da capacidade de dialogar com um eleitorado cético, volátil e cansado da política. Nesse contexto, não há margem para erros nem para soberba. Episódios do tipo “nós com nós”, como desfile da Acadêmicos de Niterói, por exemplo, que mexeram com a autoestima de Lula e seu partido, e ao mesmo tempo seguiram a lógica da narrativa do “nós contra eles”, têm o outro lado da moeda: não ampliam a base política e dão munição aos adversários.

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