A distância entre Lula e Tarcísio diminuiu de 10 pontos (45 x 35) para 5 pontos (44 x 39), mas o governador paulista não tem apoio de Bolsonaro para ser candidato.O nome dele é Flávio
A pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem consolidou o que meses atrás parecia apenas um ruído de pré-campanha: Flávio Bolsonaro (PL) tornou-se o principal nome da oposição no primeiro turno das eleições de 2026. Não é apenas um crescimento linear nas intenções de voto, na verdade, trata-se de um rearranjo do campo adversário ao governo, no qual o bolsonarismo deixa de ser apenas uma memória eleitoral e volta a operar como centro de gravidade político, capaz de organizar o voto antipetista e, ao mesmo tempo, comprimir a direita “não bolsonarista”.
O paradoxo é que Flávio se fortalece como líder da oposição, mas é o adversário ideal para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porque um Bolsonaro “raiz” no segundo turno permitiria a Lula reativar o conflito que lhe é mais favorável: o da defesa do campo democrático contra a promessa de restauração autoritária. Os números da pesquisa revelam um movimento além oscilação circunstancial.
Lula lidera todos os cenários estimulados de primeiro turno, com patamar entre 35% e 40%. Flávio aparece como segundo colocado: 23% no cenário com Tarcísio e outros nomes e 26% sem o governador de São Paulo. Houve um mecanismo de substituição da dispersão oposicionista por um funil. A direita volta a se organizar em torno de um polo identificável. E o efeito colateral dessa concentração é o esvaziamento do discurso da chamada “terceira via”, que passa a parecer menos uma alternativa real de poder e mais uma hipótese retórica contra a polarização.
O caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos) é revelador. Em simulações onde Flávio não aparece, Tarcísio chega a 27%, o que confirma a tese de que seria o adversário mais competitivo contra Lula em um segundo turno. Mas quem consegue se viabilizar como candidato de verdade sem ser atropelado antes é Flávio. Tarcísio tornou-se coadjuvante na disputa presidencial, condenado à condição de “melhor candidato”, porém, inviável.
A Quaest captou isso quando mostrou o avanço da crença pública de que Flávio irá até o fim: passou de 49% para 54% o percentual de brasileiros que acreditam que ele será candidato até o final da campanha. Entre bolsonaristas, essa convicção chega a 83%; na direita, 75%. Ou seja: não é apenas intenção de voto, mas pertencimento orgânico à base eleitoral.
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A consolidação de Flávio está em curso: sua taxa de rejeição caiu de 60% para 55%, enquanto a de Lula permaneceu em 54%. O bolsonarismo segue com alta resistência fora do seu campo raiz, mas a direita “não militante” não o vê como adversário. Na direita não bolsonarista, Flávio já aparece com quase 50% das intenções, superando Tarcísio (16%) e Ratinho (10%) num cenário com todos. O voto da direita busca um candidato com essa identidade.
Sombra de futuro
Em segundo turno, Lula vence todos os adversários, mas com margens variadas: contra Tarcísio, a vantagem é de 5 pontos; contra Flávio ou Ratinho, 7; contra Caiado, 11; contra Zema, 15; contra outros nomes, ainda mais. O dado mais sensível é a tendência. A distância entre Lula e Tarcísio diminuiu de 10 pontos (45 x 35) para 5 pontos (44 x 39), mas o governador paulista não tem apoio de Bolsonaro para ser candidato.
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É aqui que voltamos ao conceito de “sombra de futuro”, formulado por Robert Axelrod e usado por Richard Dawkins para compreender a engrenagem da oposição. A sombra de futuro é a percepção sobre a duração do jogo e sobre as recompensas futuras da cooperação. Quando a sombra é longa, vale sustentar alianças frágeis: ninguém rompe, ninguém precipita um conflito, todos esperam o momento “certo”. Quando a sombra encurta, a cooperação se desfaz, porque o incentivo passa a ser capturar o máximo de espaço no menor tempo possível.
Durante o governo Lula, a estratégia da direita foi “viver e deixar viver” ao redor de Jair Bolsonaro. Mesmo inelegível, ele é capaz de arbitrar candidaturas, transferir votos, manter coeso o PL e conservar a chama ideológica acesa. Isso alongava a sombra de futuro: Tarcísio podia adiar decisões, Ratinho podia flertar com o Planalto e com o Senado, Caiado podia manter a pré-candidatura como instrumento de pressão e Zema podia alimentar o discurso antissistema sem se comprometer com a viabilidade.
Com Flávio consolidado, a lógica muda. A sombra de futuro do clã Bolsonaro se torna mais curta e, por isso, mais agressiva: é preciso ocupar o espaço agora, antes que a direita encontre outro polo. Flávio funciona como o mecanismo de retenção do espólio do pai, e os números indicam esse mecanismo em ação: 73% dos bolsonaristas dizem que votarão no candidato indicado por Bolsonaro e mais 20% considerariam essa hipótese, somam 93%. É a fotografia de uma transferência bem-sucedida. O herdeiro é o guardião do patrimônio eleitoral.
Para Lula, essa configuração é um alívio estratégico e um problema de governo. Alívio porque reforça a polarização com um antagonista que mobiliza medo em parte do eleitorado: 46% dizem temer a volta da família Bolsonaro ao poder, contra 40% que temem a continuidade de Lula. Isso é uma vantagem simbólica. Mas é um problema porque o governo ainda não conseguiu produzir uma sensação positiva de continuidade: a aprovação está estável, em empate técnico (47% aprovam; 49% desaprovam); a avaliação segue negativa (39% ruim/péssimo; 32% ótimo/bom; 27% regular); e 56% acham que Lula não merece mais um mandato. Ou seja: Lula lidera, mas não encanta. Vence, mas não empolga. O petista é mais defensivo do que afirmativo.
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