Jungmann deixa legado nas políticas de Defesa, segurança e agrária

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Da militância no PCB clandestino à liderança no PPS e ao campo político que desembocaria no Cidadania, Jungmann representou a esquerda democrática e republicana

A morte de Raul Jungmann, aos 73 anos, em Brasília, devido às complicações de um câncer de pâncreas, contra o qual lutou dois anos, encerra a trajetória de um dos mais completos homens públicos de sua geração. O político pernambucano atravessou a clandestinidade da resistência democrática e, na democracia, assumiu responsabilidades de Estado em diferentes governos e momentos da vida nacional. Era muito respeitado até por adversários, pela capacidade de diálogo, pela integridade e pelo compromisso republicano.

No ambiente político e intelectual do Recife, Jungmann iniciou sua militância no PCB ainda na clandestinidade, quando a política era também risco pessoal. Mais tarde, ajudou a fundar o PPS e se tornou uma de suas principais lideranças nacionais, atuando por 26 anos no partido. Exerceu três mandatos de deputado federal e foi vereador. Foi ministro cinco vezes — no governo Fernando Henrique Cardoso, ocupou Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário e Políticas Fundiárias; no governo Michel Temer, chefiou a Defesa; e, em 2018, tornou-se ministro da Segurança Pública do país.

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No Desenvolvimento Agrário e nas políticas fundiárias, Jungmann enfrentou conflitos históricos e tensões permanentes. Soube combinar pragmatismo e visão pública à reforma agrária como política de Estado, não como improviso ou instrumento de pressão circunstancial. Na sua visão, primeiro, reforma agrária não se limita à distribuição de terra: assentamentos precisam ser estruturados com infraestrutura, assistência técnica, crédito e integração produtiva. A regularização fundiária é condição civilizatória, capaz de reduzir violência, insegurança jurídica e conflitos de posse, e de dar racionalidade ao uso do território. Jungmann reconhecia a legitimidade da demanda social sem renunciar à legalidade, do diálogo e da pacificação.

No Ministério da Defesa, Jungmann deixou um projeto de Política Nacional de Defesa como instrumento de planejamento estratégico de longo prazo, fundamental para um país continental, com fronteiras extensas, riquezas naturais e responsabilidades internacionais crescentes. O texto busca reposicionar as Forças Armadas em bases democráticas e associadas ao desenvolvimento do país e está engavetado no Congresso. É um esforço para fortalecer o papel do ministério como comando civil democrático, com profissionalismo, coordenação e modernização foi louvável, sobretudo em tempos de instabilidade.

Jungmann, mesmo fora do governo, atuou nos bastidores das crises militares e de segurança pública, como interlocutor político junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Fazia uma clara distinção entre defesa nacional e segurança interna, que não são a mesma coisa, ainda que se comuniquem. Preservar essa fronteira evita a militarização da política e a politização da caserna. Entretanto, quando foi nomeado ministro da Segurança Pública, acabou substituído na Defesa por um general.

Em 2018, Jungmann assumiu o recém-criado Ministério da Segurança Pública, numa conjuntura de crise política e pressão social diante do avanço do crime organizado e da violência. Sua atuação representou uma tentativa de superar a fragmentação histórica do setor: estados carregam o peso operacional, a União dispõe de recursos e instrumentos federais, e a cooperação entre instituições nem sempre ocorre de modo eficiente.

Cidadania

Sua contribuição foi a criação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), como marco na busca de cooperação e coordenação nacional. Era uma voz respeitada nos debates sobre governança, integração e coordenação federativa entre forças policiais, inteligência e planejamento. Amadureceu essa visão durante a desastrosa intervenção militar no Rio de Janeiro, para a qual foi nomeado o ex-ministro e general de exército Walter Braga Netto, que hoje está preso, condenado por tentativa de golpe de Estado. Segundo Jungmann, a segurança pública não deve ser objeto de punitivismo ou propaganda de ocasião: exige técnica, legitimidade democrática e instituições capazes de funcionar em rede e combater a infiltração do crime organizado.

Da militância no PCB clandestino à liderança no PPS e ao campo político que desembocaria no Cidadania, Jungmann representou a esquerda democrática e republicana, que não abdica de justiça social, mas entende que a democracia é valor, método e limite. Ao se afastar do Cidadania, Jungmann denunciou práticas internas autoritárias e reafirmou o princípio de que democracia não é apenas discurso contra adversários — deve existir em relação a todos, dentro das organizações e nas regras do cotidiano. Deixa um exemplo de que é possível exercer poder com densidade, diálogo e responsabilidade republicana.

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Ao romper com Roberto Freire, em 2018, foi coerente com sua trajetória. Em carta pública, Jungmann afirmou se afastar do “seu único partido” por discordar da forma como o comando partidário em seu estado havia sofrido uma intervenção para ser entregue de maneira “autoritária”, “sem transparência” e em afronta à democracia interna ao ex-deputado Daniel Coelho (PE), por Roberto Freire, sem nenhuma comunicação e prévio entendimento, uma prática recorrente. Mais do que mera disputa interna, o episódio revela um traço central de sua vida pública: a ideia de que partidos e instituições não podem ser tratados como cartórios e propriedade privada.

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Luiz Carlos Azedo

Jornalista

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