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Imagens de enforcamentos, necrotérios improvisados e repressão aberta elevam o custo moral e político de manter relações “normais” com Teerã. O Brasil terá de se reposicionar
A execução do jovem Erfan Soltani, 26 anos, na forca, hoje, sob acusação de terrorismo, pelo regime do aiatolá Ali Khamenei, 86, tem potencial para piorar a mais grave crise enfrentada pela República Islâmica desde 1979. A morte de um manifestante não é novidade na longa história de repressão do Estado teocrático iraniano. Mas há momentos em que um único corpo, pendurado em praça pública, condensa o medo, a indignação e a ruptura moral de uma sociedade que já não aceita ser governada pela combinação da moralidade religiosa, vigilância militar e miséria econômica.
É por isso que a morte de Erfan pode operar como catalisador de mais manifestações populares e, também, de uma reação internacional mais dura, com repercussões econômicas e diplomáticas que ultrapassam o Oriente Médio e atingem diretamente países como o Brasil. Não está descartada uma intervenção militar norte-americana mais letal do que o bombardeio das instalações nucleares iranianas, durante a guerra de Gaza, com apoio dos agentes do Mossad, o serviço secreto de Israel, especialista em execuções de seus inimigos.
O regime iraniano adotou a receita mais vulgar das ditaduras em crise: tenta vencer a rua com o terrorismo de Estado. A execução pública é um ritual de intimidação que busca rebaixar a política ao instinto de sobrevivência. Serve para dizer ao povo que o preço da liberdade é a forca. O problema, historicamente, é o medo virar fúria coletiva, tendo a vítima como mártir e sua execução como a energia social para a derrubada do regime.
Inflação elevada, moeda em colapso, sanções econômicas, corrupção endêmica, revolta popular contra rígidos códigos morais impostos pelo clero. A crise começou com uma greve de comerciantes afetados pela desvalorização da moeda e pela carestia. O governo fez promessas de diálogo, reconhecimento parcial de demandas e até um subsídio modesto. Entretanto, a sociedade concluiu que o problema não é a carestia, mas o regime.
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Entretanto, a República Islâmica está disposta a matar em massa para permanecer viva. O uso do conceito jurídico-religioso de “guerra contra Deus” contra os manifestantes é um dogma do Estado teocrático: o regime tenta retirar dos manifestantes qualquer direito e justifica os assassinatos como missão divina. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, que controla setores estratégicos da economia, da política e da segurança, continua ligado ao regime por interesse, ideologia e autopreservação. Tem força suficiente para manter o controle do país, mas não se houver uma intervenção militar externa.
Quando os custos de manter o sistema superam os benefícios de protegê-lo, surgem divisões e rachas internos. E as negociações secretas com os inimigos começam a ocorrer, como aconteceu na Venezuela, após o sequestro de Nicolás Maduro por forças especiais norte-americanas. Se de fato ocorrer, a execução de Erfan será um divisor de águas: ou intimida a sociedade e esfria os protestos ou inflama ainda mais o país e a mobilização cresce até se tornar irreversível.
Efeito persa
A crise iraniana não é um episódio isolado. A recente guerra de Gaza e as pressões dos Estados Unidos fragilizaram o regime. Com as mobilizações, Donald Trump ganhou uma oportunidade. A antiga Pérsia ocupa um papel estratégico na Ásia Ocidental. Tem fronteiras a norte com Arménia, Azerbaijão e Turcomenistão, e com o Cazaquistão e a Rússia por meio do Mar Cáspio; a leste, com o Afeganistão e o Paquistão; ao sul, com o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã; a oeste com o Iraque; e a noroeste com a Turquia. Com 1, 648 milhão km², é a segunda maior nação do Oriente Médio, com mais de 92 milhões de habitantes.
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Como em outros episódios, Trump promove um espetáculo, no qual o adversário deve ser exposto, cercado, asfixiado e humilhado diante do próprio povo e da comunidade internacional. Pediu que a população iraniana “mantenha as manifestações” e prometeu “ajuda”. Não é um gesto humanitário; é uma declaração de guerra, que serve aos aliados regionais, especialmente Israel, que tem interesse objetivo em reduzir a capacidade militar e a projeção de poder iraniana no Oriente Médio. Uma intervenção externa também pode unificar a elite governante, justificar a repressão como defesa nacional e transformar manifestantes em “agentes estrangeiros” aos olhos de parte da população. A história do Oriente Médio está repleta de revoltas legítimas esmagadas pelo patriotismo.
E o Brasil com isso? Nosso fluxo comercial com o Irã é de aproximadamente US$ 3 bilhões. Está concentrado em setores sensíveis, sobretudo o agronegócio. O anúncio de Trump de impor tarifas de 25% a países que mantenham relações comerciais com o Teerã inaugura sanções secundárias por meio tarifa comercial, em mais uma agressão à institucionalidade do comércio mundial. O “direito de punir” não se limita a quem negocia com os EUA. Atinge quem negocia com o inimigo definido por Washington.
Historicamente, o Brasil busca autonomia na política externa e preserva o princípio do diálogo. Entretanto, cada vez mais Trump quer forçar alinhamentos. Imagens de enforcamentos, necrotérios improvisados e repressão aberta elevam o custo moral e político de manter relações “normais” com Teerã. O Brasil terá de se reposicionar no Oriente Médio. Empresas, bancos, seguradoras e operadores logísticos serão mais cautelosos.
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