O público internacional pode não dominar o português, mas reconhece a atmosfera, o conflito, o trauma, a humanidade ferida, a dignidade e o riso que escapa na sombra,
No seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Ariano Suassuna destacou uma frase de Machado de Assis sobre os maus governos e a má política, que lhe serviu de chave mestra para entender o Brasil: “O ‘país real’, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o ‘país oficial’, esse é caricato e burlesco”. Essa cisão não é apenas política: atravessa também a cultura, a forma como nos vemos e como conseguimos ser vistos pelo mundo.
É nesse ponto que o cinema brasileiro, quando alcança seu novo patamar, deixa de ser apenas arte e passa a ser um momento em que o Brasil real se impõe, sem pedir licença ao Brasil oficial. E é exatamente isso que O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, realiza ao chegar ao Oscar com quatro indicações — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Escalação de Elenco e Melhor Ator, para Wagner Moura — igualando o recorde de Cidade de Deus e, mais importante, disputando as categorias centrais da indústria que decide, ano após ano, quem entra no cânone universal do audiovisual.
Leia também: Cinema brasileiro alcança marca inédita de cinco indicações
Mas, para entender por que esse feito “lava a alma” do Brasil real, é preciso voltar à literatura, porque o desafio comum entre um prêmio Nobel e o Oscar é ultrapassar um obstáculo invisível: a barreira da língua. Do ponto de vista cultural, a língua pode ser uma espécie de Muralha da China, que separa mundos, limita circulações e impõe hierarquias.
Milan Kundera, em A Cortina, um grande ensaio literário, observa como o romance ocidental nasceu para investigar a condição humana, mas como a língua molda o escritor e condiciona o alcance da sua obra. Não é irrelevante que Kundera tenha atravessado a fronteira do reconhecimento internacional por meio do francês, e não pelo tcheco — como se o mundo, para reconhecer um autor, exigisse primeiro um “passaporte linguístico”.
No cinema, essa exigência é ainda mais dura. Porque, diferentemente da literatura — em que a tradução é uma ponte antiga, poderosa e relativamente respeitada —, no audiovisual o idioma funciona muitas vezes como uma triagem: o sotaque vira obstáculo; a legenda vira resistência; o não inglês vira exceção. É por isso que existe uma diferença decisiva entre disputar o “melhor filme internacional” e o “melhor filme”. No primeiro caso, o cinema estrangeiro é reconhecido; no segundo, deixa de ser periférico e vai para a sala principal. O Agente Secreto está na porta da sala principal, como quem diz, sem cerimônia: “Nós também somos o mundo”.
O escritor russo Leon Tolstói (Guerra e Paz, Anna Karenina) aconselhava: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Não se trata de provincianismo; é a verdade. Nas particularidades — no cheiro, no gesto, na rua, no medo, na alegria, na violência banalizada, na música, na “vida banal” — aparece aquilo que é humano o suficiente para ser reconhecido em qualquer latitude.
Recife universal
Kleber Mendonça Filho transforma o Recife, uma cidade emblemática do Nordeste brasileiro, fundada em 1537, em microcosmo do Brasil. De forma “nua e crua”, mostra a fricção permanente entre Brasil oficial e Brasil real como experiência estética sensível. Não “explica” o país; faz aparecer. Pois é aí que a barreira da língua começa a ceder. O público internacional pode não dominar o português, mas reconhece o essencial: a atmosfera, o conflito, o trauma, a humanidade ferida, o riso que escapa mesmo na sombra, a dignidade que insiste. A aldeia está pintada com tal intensidade que se torna universal.
Leia mais: O Agente Secreto mostra a vida banal na ditadura
O Oscar, por décadas, funcionou como uma espécie de “clube linguístico”. A língua inglesa estabelecia a norma estética e moral, como se a condição humana só alcançasse sua forma completa quando pronunciada no idioma anglo-saxão. O cinema de outras línguas era frequentemente empurrado para o “setor internacional”, um território de reconhecimento controlado, de prestígio restrito. Essa barreira está sendo rompida. O mundo se move, os públicos se acostumaram à diversidade linguística graças ao streaming, aos festivais e à circulação global. Os bons filmes não cabem mais no rótulo de estrangeiro e confrontam a onda xenofóbica que varre o mundo.
Ainda Estou Aqui, indicado a Melhor Filme e vencedor como Melhor Filme Internacional, abriu um precedente histórico para o Brasil, que O Agente Secreto agora consolida, ao insistir na sala principal e ampliar a presença brasileira no núcleo simbólico da premiação. O Brasil, por muito tempo, foi visto como paisagem, exotismo ou alegoria. Agora, aparece como personagem do mundo sem pedir tradução da alma.
O cinema americano costuma privilegiar uma ideia muito específica de carisma, dicção, presença e “centralidade cultural”. Em outras palavras: o ator precisa ser percebido como protagonista do imaginário do mundo. E, tradicionalmente, o imaginário do mundo — no Oscar — fala inglês. É por isso que a indicação de Wagner Moura tem um peso que vai além do feito individual: ela é um gesto de ruptura no lugar mais difícil.
Leia ainda: Duelo de atores gigantes: Moura e Chalamet
Não se trata apenas de “um brasileiro indicado”. Trata-se de um brasileiro indicado sem apagar sua marca, com seu corpo, seu ritmo, sua assinatura humana e cultural. Seu sotaque, que antes era visto como ruído, passa a ser ouvido como estilo. A “barreira” foi ultrapassada pela identidade. O Agente Secreto fala sem pedir desculpas, transforma a estética local em universal e faz o mundo ler as legendas como nós.
Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo

