Crédito: Caio Gomez
É uma estratégia de risco, que somente tem sentido se houver uma avaliação de que Trump apoiará seu adversário e isso pode ter um impacto eleitoral positivo para Lula
O caso Alexandre Ramagem caiu no colo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pleno ano eleitoral como um episódio em que política interna, diplomacia e disputa de narrativas se entrelaçam. A prisão do ex-deputado e ex-diretor da Abin nos Estados Unidos, seguida da crise envolvendo o descredenciamento do delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, transformou um caso judicial em contencioso diplomático com forte impacto político. Lula vem escalando as críticas ao presidente Donald Trump e parece anabolizar o episódio para criar um incidente diplomático capaz de ser um divisor de águas na disputa eleitoral com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
É uma estratégia de risco, que somente tem sentido se houver uma avaliação de que Trump apoiará seu adversário e isso pode ter um impacto eleitoral positivo para Lula, tendo em vista a grande rejeição ao presidente dos EUA no Brasil. A decisão do governo norte-americano, sob influência do Departamento de Estado e do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, de exigir a saída de Carvalho foi acompanhada de uma acusação grave: a de que o delegado teria tentado “manipular” o sistema de imigração dos EUA para contornar procedimentos formais de extradição e promover perseguição política. A imputação, ainda que sem detalhamento público, desloca o caso do plano técnico para o da disputa política.
O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, rebateu duramente a versão americana. Segundo ele, é “inimaginável” que um policial federal estivesse nos EUA para enganar autoridades locais, classificando essa hipótese como produto de “vilania de rede social”. Rodrigues confirmou que o delegado retornou ao Brasil e adotou como medida de reciprocidade a retirada das credenciais de um agente americano que atuava dentro da PF, em Brasília, restringindo seu acesso a instalações e bases de dados compartilhadas.
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O pano de fundo do episódio é a condenação de Ramagem pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos de prisão, na mesma ação penal que atingiu o ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Foragido, Ramagem deixou o Brasil pela fronteira com a Guiana e seguiu para os EUA, onde passou a pleitear asilo político. Sua prisão em Orlando por agentes do ICE teve natureza migratória e não decorreu diretamente do pedido de extradição feito pelo Ministério da Justiça brasileiro.
A soltura de Ramagem, com autorização para responder ao processo de asilo em liberdade, já sinalizava divergências de interpretação entre os dois países. O agravamento da crise veio com a decisão norte-americana de afastar o delegado brasileiro, interpretada pelo governo Lula como um gesto de desconfiança institucional. Na viagem à Europa, Lula reagiu publicamente ao episódio, com tom cauteloso, mas deu uma no cravo e outra na ferradura. Disse não ter informações completas sobre o ocorrido, mas advertiu: “Se houve um abuso com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil”.
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Lula rechaçou qualquer ingerência da Casa Branca. Em outra declaração, afirmou que o Brasil “não pode aceitar esse abuso de autoridade que alguns personagens americanos querem ter com relação ao nosso país”. Caminha num terreno delicado, no qual precisa preservar canais diplomáticos e, ao mesmo tempo, mostrar firmeza perante a opinião pública doméstica. No plano político, o governo repõe no centro do debate a tentativa de golpe de Estado e a responsabilização de seus protagonistas, reforçando a narrativa de defesa da democracia.
Comunicação verbal
Para a oposição, especialmente aliados de Bolsonaro, o episódio alimenta o discurso de perseguição política, agora com repercussão internacional. O próprio Ramagem, ao agradecer autoridades norte-americanas pela soltura, passou a sustentar que sua permanência nos EUA é regular e amparada por um pedido legítimo de asilo. A crise atinge um dos pilares da cooperação bilateral: o trabalho de oficiais de ligação entre agências de segurança. A presença de delegados brasileiros junto a órgãos, como o ICE, e de agentes norte-americanos no Brasil, é fundamental para o combate ao crime transnacional, sobretudo o tráfico de drogas. O episódio pode comprometer essa engrenagem.
O Ministério das Relações Exteriores (MRE) diz ter informado à Embaixada norte-americana que aplicaria o princípio da reciprocidade contra um funcionário dos EUA. De acordo com o comunicado, o governo Trump descumpriu um trecho do acordo de cooperação entre os dois países. Isso porque adotou a medida contra o delegado brasileiro sem ter pedido esclarecimento sobre a atuação dele, nem tentar um diálogo com o governo daqui.
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“A representante da Embaixada norte-americana foi informada, também verbalmente, que o governo brasileiro aplicará o princípio da reciprocidade diante da decisão sumária contra o agente da Polícia Federal, que não foi precedida de qualquer pedido de esclarecimento ou tentativa de diálogo sobre o caso”, diz o comunicado do MRE.
Mais do que um incidente pontual, o caso revela uma tendência mais ampla: a crescente interseção entre disputas judiciais internas e dinâmicas geopolíticas. A atuação de Trump e o ambiente político polarizado nos EUA também ajudam a explicar a reação norte-americana, na medida em que o tema dialoga com a narrativa conservadora internacional de crítica à judicialização da política.
Para Lula, o episódio é, ao mesmo tempo, um risco e uma oportunidade. Risco, porque pode tensionar relações com Washington e ser explorado pela oposição como sinal de isolamento. Oportunidade, porque reforça seu discurso de soberania e de resistência a pressões externas. O caso Ramagem deixou de ser apenas um processo judicial para se tornar um capítulo da disputa eleitoral de 2026, no qual os fatos importam tanto quanto a narrativa construída a partir deles. Ou até menos.
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