A decisão não será apenas sobre quem tem mais potenciais, o que pode se aferir com pesquisas, mas também sobre o projeto de centro-direita que o PSD quer representar
A filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, ao PSD de Gilberto Kassab introduziu um fato novo no tabuleiro eleitoral de 2026. Ao deixar o União Brasil por falta de legenda para disputar a Presidência, Caiado reforçou a disposição do PSD de apresentar uma candidatura própria ao Planalto, colocando o partido no centro do debate sobre a chamada “terceira via”, em oposição tanto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Com isso, o PSD passa a reunir três governadores presidenciáveis que estão no segundo mandato, ou seja, que não podem concorrer à reeleição: Caiado; Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul; Ratinho Junior, do Paraná, cujos perfis políticos e trajetórias eleitorais são bastante distintos.
A entrada de Caiado sinaliza a tentativa mais consistente, até agora, de organizar uma alternativa de centro-direita à polarização que domina a política brasileira desde 2018. Trata-se de uma articulação com eixo no Sul e no Centro-Oeste, regiões onde Lula enfrenta maiores dificuldades eleitorais e onde se concentram setores estratégicos como o agronegócio, o empresariado exportador e parte expressiva da classe média urbana descontente com o governo. O problema central dessa construção é a resiliência da base bolsonarista popular, ainda fortemente identificada com Jair Bolsonaro e potencialmente transferível ao filho Flávio Bolsonaro. Soma-se a isso um risco histórico conhecido: a ambiguidade do próprio PSD, partido que tradicionalmente tem “um pé em cada canoa” e evita apostas irreversíveis.
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Não é por acaso que o fantasma da “cristianização” ronda o futuro candidato da terceira via. Em 1950, o PSD lançou Cristiano Machado à Presidência, mas parte significativa de sua base migrou informalmente para Getúlio Vargas, esvaziando o próprio candidato. Desde então, o termo passou a designar candidaturas que existem formalmente, mas são abandonadas na prática. A pergunta que se impõe é se o PSD, desta vez, está disposto a sustentar até o fim um nome próprio ou se manterá sua ambiguidade existencial: tem uma ala no governo e outra na oposição.
Entre os três pré-candidatos, Caiado representa a direita tradicional organizada. Médico, ex-deputado e senador, governador reeleito de Goiás, ele construiu sua imagem como liderança do agronegócio, defensor da lei e da ordem e crítico contundente do lulismo. Seu discurso é claro, ideológico e coerente com uma agenda conservadora nos costumes e liberal na economia. Ele dialoga bem com produtores rurais, setores empresariais e parte do eleitorado bolsonarista que busca uma alternativa menos radical. O problema é seu alcance nacional limitado: fora do Centro-Oeste, Caiado ainda é pouco conhecido e carrega resistência em setores urbanos e no Nordeste. Seu perfil agrega densidade ideológica, mas também tende a estreitar suas alianças.
Risco de fragmentação
Eduardo Leite, por sua vez, encarna a nova direita reformista e democrática. Jovem, urbano, liberal nos costumes e defensor explícito das instituições democráticas, o governador do Rio Grande do Sul dialoga com o eleitorado de centro, com setores progressistas moderados e com parcelas da classe média que rejeitam tanto o bolsonarismo quanto o petismo. Leite tem boa aceitação no debate público, trânsito internacional e discurso afinado com pautas contemporâneas, como sustentabilidade e diversidade. Seu principal desafio é a baixa penetração fora dos grandes centros e a dificuldade de conquistar eleitores populares, especialmente em regiões onde o conservadorismo social é mais forte. Além disso, sua base eleitoral no Sul é sólida, mas não decisiva em uma eleição nacional.
Já Ratinho Junior surge como o perfil mais pragmático e, eleitoralmente, tem a preferência de Kassab. Governador de um estado economicamente forte, com alto índice de aprovação e gestão bem avaliada, Ratinho tem a vantagem de um estilo discreto, pouco ideológico e focado em resultados administrativos. Ele dialoga com empresários, com o agronegócio e com setores do Centrão, sem provocar rejeições intensas. Seu nome é visto como o mais competitivo internamente justamente por essa capacidade de agregar apoios e reduzir resistências. Em contrapartida, carece de uma narrativa nacional clara e de identidade política forte, essenciais em uma disputa polarizada.
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O desafio do PSD será transformar essa diversidade em força real e evitar a fragmentação. A promessa de que os derrotados apoiarão o escolhido é importante, mas insuficiente diante da história do partido. Sem um compromisso inequívoco com a candidatura que emergir, o risco de cristianização permanece. A terceira via só ganhará consistência se o PSD conseguir fazer aquilo que historicamente evitou: escolher, sustentar e apostar até o fim. Tradicionalmente, Kassab libera as bases regionais do partido para apoiar quem quiser no primeiro turno e tenta unificar o partido no segundo turno, para apoiar quem tem mais chances de vencer.
Entre Caiado, Leite e Ratinho, a decisão não será apenas sobre quem tem mais votos potenciais, o que pode se aferir com pesquisas, mas sobre o projeto de centro-direita que o partido quer representar: o conservadorismo organizado (Caiado), o liberalismo democrático (Leite) ou o pragmatismo gestor (Ratinho). Se essa escolha não for clara, a terceira via corre o risco de ser abduzida pela polarização e desaparecer na urna.
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