ilustração

Ao sequestrar Maduro, Trump manda um recado ao mundo

Publicado em América, Canadá, China, Cuba, EUA, Geografia, Guiana, Irã, Justiça, Maduro, Memória, México, Militares, Política, Política, Rússia, Violência

Trump vê a Venezuela como cabeça de ponte da China, da Rússia e do Irã para controlar a América Latina. E não esconde o interesse nas reservas petrolíferas e de terras raras venezuelanas

A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, seguida de sua apresentação algemado em um tribunal de Nova York, não é apenas um ato de força na crise venezuelana. O presidente Donald Trump sinaliza que considera o Hemisfério Ocidental sua área de influência direta e o continente americano um ativo econômico e de segurança dos Estados Unidos. A operação — executada sem autorização do Congresso e justificada como ação contra o narcotráfico — foi celebrada publicamente por Trump e por seu secretário de Estado, Marco Rubio, como prova de que Washington está disposto a “sustentar palavras com ação militar”.

A narrativa oficial insiste que os EUA não estão em guerra contra a Venezuela, mas contra organizações criminosas. No entanto, o próprio Trump desmente essa tese ao afirmar que os EUA “governarão” a Venezuela até uma transição “segura, adequada e justa”, e ao falar abertamente em administrar a indústria petrolífera do país como compensação histórica. Esse gesto recoloca no centro do tabuleiro a lógica da Doutrina Monroe, agora rebatizada de forma explícita e provocativa como “Doutrina Donroe”.

Ao afirmar que a dominância norte-americana no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionada”, Trump atualiza uma tradição intervencionista que atravessa dois séculos e reaparece, ciclicamente, sempre que Washington decide substituir a diplomacia pela força. A diferença, agora, é a franqueza: não se trata de promover democracia, mas de impor ordem, controle e acesso a recursos. Mas a crise está longe de terminar com o sequestro de Maduro e a retórica neoimperialista.

A posse de Delcy Rodríguez como presidente interina, conduzida pelo irmão e presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, está em contradição com o status venezuelano anunciado por Trump. Embora afirme ter obtido cooperação de Delcy, o discurso da nova presidente interina denuncia “agressão militar ilegítima” e exalta Maduro e Cília Flores como “heróis”. O regime chavista não colapsou automaticamente. Suas redes militares, civis e econômicas permanecem, em grande medida, intactas.

Leia também: Após prisão de Maduro, Venezuela entra em nova fase política

Entretanto, o recado de Trump não se limita a Caracas. Ao ameaçar o presidente colombiano Gustavo Petro, sugerir que “algo terá de ser feito” com o México e recolocar Cuba no radar, Washington deixa claro que a soberania regional é relativa quando confronta interesses estratégicos americanos. A reação de Petro — ao admitir, ainda que retoricamente, a disposição de “pegar em armas” para defender seu país — evidencia o potencial efeito dominó de uma política que reabilita o uso da força como base para a diplomacia e não a institucionalidade das relações internacionais.

Desestabilização

No plano internacional, a repercussão foi imediata. No Conselho de Segurança da ONU, a maioria dos países rejeitou a intervenção e invocou a Carta das Nações Unidas. Ainda assim, a condenação diplomática pouco altera o fato consumado: os EUA capturaram um chefe de Estado estrangeiro e o submeteram à sua jurisdição. A fragilização das regras internacionais — já abalada antes —, porém, pode servir às potências concorrentes. O senador americano Mark Warner alertou que, se Washington se arroga o direito de sequestrar líderes acusados de crimes, ações semelhantes da China sobre Taiwan ou da Rússia em outros teatros também podem ocorrer.

Leia mais: Reunião de emergência da ONU expõe divisões entre grandes potências

Militarmente, Trump vê a Venezuela como cabeça de ponte da China, da Rússia e do Irã para controlar os recursos estratégicos da América Latina. Não esconde seu interesse nas reservas petrolíferas e de terras raras venezuelanas, nem a intenção de reabrir espaço para empresas americanas. Ao afirmar que a riqueza extraída beneficiará também os EUA “na forma de compensação”, o presidente norte-americano explicita uma visão patrimonial das relações internacionais: territórios instáveis tornam-se ativos a serem administrados por quem detém poder militar. Essa lógica não se restringe ao sul. Trump quer anexar a Groenlândia e ameaça o México e o Canadá.

No curso prazo, Trump ostenta uma força irresistível, porém os ciclos históricos mostram o contrário: no Iraque e no Afeganistão, vitórias militares rápidas produziram derrotas políticas duradouras. Na América Latina, o Haiti permanece como advertência viva: a mudança de regime imposta de fora abriu caminho para décadas de colapso. A Venezuela, com suas milícias, redes criminosas e a presença de grupos armados transnacionais, reúne ingredientes semelhantes para o caos, com fortes repercussões para a Colômbia, o Brasil, a Guiana e o Caribe.

Leia ainda: Depois da Venezuela, Trump vai tentar influenciar eleições no Brasil

Ao final, o julgamento de Maduro é menos sobre justiça e mais sobre demonstração de hegemonia. Trump anuncia que os EUA definem as regras no Hemisfério Ocidental e que estão dispostos a convertê-lo em espaço de segurança e exploração econômica sob tutela norte-americana. O gesto rende ganhos táticos e aplausos domésticos, mas é um erro estratégico: abala o direito internacional, amplia a instabilidade regional e convida outras potências a imitarem o método, para manter e/ou ampliar suas áreas de influência. É como se fosse uma nova divisão do mundo sem Conferência de Yalta. Trump abre um novo ciclo de turbulência, no qual o continente é tratado como propriedade geopolítica. Historicamente, isso nunca deu certo.

Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo