{"id":8889,"date":"2017-07-11T10:14:51","date_gmt":"2017-07-11T13:14:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=8889"},"modified":"2017-07-21T10:15:33","modified_gmt":"2017-07-21T13:15:33","slug":"assedio-moral-no-trabalho-e-o-perigo-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/assedio-moral-no-trabalho-e-o-perigo-do-silencio\/","title":{"rendered":"Ass\u00e9dio moral no trabalho e o perigo do sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p>Desde 1960<\/p>\n<p>com Circe Cunha e MAMFIL<\/p>\n<p>colunadoaricunha@gmail.com<\/p>\n<p>Em reportagem de Talita de Souza publicada no caderno Trabalho e Forma\u00e7\u00e3o Profissional, do Correio Braziliense, dados mostram que 52% dos trabalhadores brasileiros sofreram algum tipo de ass\u00e9dio no ambiente de trabalho, a maioria dos quais, 47,3%, foi claramente alvo de ass\u00e9dio moral. A falta de conhecimento da origem do ass\u00e9dio moral faz que at\u00e9 ju\u00edzes interpretem dano moral como ass\u00e9dio moral. Todo ass\u00e9dio moral traz em si o dano moral, mas nem todo dano moral \u00e9 ass\u00e9dio moral.<\/p>\n<p>Algumas caracter\u00edsticas facilitam a identifica\u00e7\u00e3o do ass\u00e9dio moral. Separar o alvo, isol\u00e1-lo. Outra palavra que resume bem \u00e9 que esse tipo de crime \u00e9 insidioso. T\u00e3o insidioso que a pr\u00f3pria v\u00edtima passa a ter d\u00favidas sobre si. \u00c9 ataque ao direito de personalidade.<\/p>\n<p>Quem primeiro percebeu o ass\u00e9dio moral foi o sueco Heinz Leymann. Ele comparou a ang\u00fastia do trabalhador assediado a um le\u00e3o cercado de hienas. Deu o nome a esse quadro de mobbing, ou terror psicol\u00f3gico. Esse termo foi cunhado por Leymann quando comparava a situa\u00e7\u00e3o da selva com o ambiente de trabalho em uma ind\u00fastria automobil\u00edstica. Fez extensa pesquisa sobre o clima organizacional.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado na Fran\u00e7a pelas \u00c9ditions La D\u00e9couverte et Syros em 1998 sob o t\u00edtulo original \u2014 Le harc\u00e8lement moral, o livro da psiquiatra e psicanalista Marie-France Hirigoyen imediatamente viria a se constituir farol de refer\u00eancia na abordagem e identifica\u00e7\u00e3o de um dos aspectos mais tenebrosos do car\u00e1ter humano, lan\u00e7ando luz pioneira sobre o comportamento patol\u00f3gico do assediador, seu modus operandi, bem como a desmontagem paulatina da psiqu\u00ea da v\u00edtima, que \u00e9 eviscerada psicologicamente diante de todos.<\/p>\n<p>Hirigoyen demonstra que o ato de assediar moralmente o outro se prende de tal forma ao contexto sociocultural de nosso tempo que acaba por nos conduzir a determinado tipo de cegueira e insensibilidade que nos transforma, num \u00e1timo, de insens\u00edveis e indiferentes a complacentes dessa brutalidade, ao mesmo tempo sofisticada e primitiva, que se desenrola silenciosamente bem diante de nossos olhos.<\/p>\n<p>Pela frequ\u00eancia com que ocorre, o ato de destrui\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica nos mais diversos tipos de relacionamentos humanos, em todos os lugares e em todos os tempos, requer, segundo a pesquisadora, que se adotem, o quanto antes e de forma clara e definitiva, as terminologias \u201cagressor\u201d e \u201cagredida\u201d, de modo que fiquem expl\u00edcitas para todos que lidam com o assunto que se trata de um tipo espec\u00edfico de viol\u00eancia que, embora escamoteada, busca, em \u00faltima an\u00e1lise, a destrui\u00e7\u00e3o moral e total da presa.<\/p>\n<p>Hirigoyen salienta em sua obra que, em muitos casos, \u00e9 tamanha a intensidade e as t\u00e1ticas empregadas pelo agressor que, n\u00e3o raro, a parte agredida se v\u00ea incapaz de reagir a contento, o que, em muitos casos, acaba por resultar em s\u00e9rias enfermidades f\u00edsicas e mentais, nos mais variados graus, podendo, em casos extremos e n\u00e3o raros, induzir a presa a atentar contra a pr\u00f3pria vida como \u00fanica forma de se ver livre desse labirinto de opress\u00e3o sufocante e paralisante.<\/p>\n<p>A maior parte dos assediados \u00e9 v\u00edtima de piadas, ironias, chacotas, agress\u00f5es verbais ou gritos constantes. Ou a humilha\u00e7\u00e3o pode ser sorrateira. Expondo a v\u00edtima e tirando-lhe a oportunidade de defender-se. Grande parte dos assediados afirmam que a amarga experi\u00eancia de ser exposto a ofensas e humilha\u00e7\u00f5es acabou por provocar dificuldades de todo tipo na carreira. O pior \u00e9 que, segundo a pesquisa realizada, 87% das pessoas atingidas na alma simplesmente n\u00e3o denunciaram a agress\u00e3o por medo de perder o emprego. O restante desses profissionais n\u00e3o fizeram queixas por causas que v\u00e3o desde o medo de repres\u00e1lias, vergonha, temor de ser culpado pela quest\u00e3o at\u00e9 por inexplic\u00e1vel sentimento de culpa.<\/p>\n<p>Especialistas s\u00e3o un\u00e2nimes em considerar que o ass\u00e9dio moral causa consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas graves, sendo que, em alguns casos, a pessoa tem que se afastar do servi\u00e7o\u00a0 porque j\u00e1 n\u00e3o consegue mais exercer as fun\u00e7\u00f5es. A pr\u00f3pria fam\u00edlia tamb\u00e9m \u00e9 atingida.<\/p>\n<p>Para Fernanda Duarte, pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Psicodin\u00e2mica e Cl\u00ednica do Trabalho da UnB, a viol\u00eancia faz a v\u00edtima ficar retra\u00edda, insegura e desconfort\u00e1vel no ambiente corporativo. At\u00e9 mesmo aqueles que presenciam o ass\u00e9dio sofrem consequ\u00eancias equivalentes por n\u00e3o poderem denunciar.<\/p>\n<p>Em muitos casos, at\u00e9 a empresa pode sofrer preju\u00edzos por deixar de contar com um funcion\u00e1rio competente que foi perseguido diuturnamente e de forma cruel pelos chefes imediatos. Essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova e vem ocorrendo, desde sempre, em muitas organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas espalhadas pelo pa\u00eds afora. De forma silenciosa, vem fazendo uma legi\u00e3o de v\u00edtimas mudas.<\/p>\n<p>Com a possibilidade agora de aprova\u00e7\u00e3o do Projeto de Lei n\u00ba 4.742\/2001, transformando o ass\u00e9dio moral no trabalho em crime, a penalidade que era de tr\u00eas meses a um ano \u00e9 aumentada de um a dois anos de pris\u00e3o, com a puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o da empresa, como era feito, e de onde, n\u00e3o raro, o agressor sa\u00eda livre, mas do pr\u00f3prio assediador, que passa agora a responder pelo crime de forma direta.<\/p>\n<p>Trata-se de avan\u00e7o que poder\u00e1 modernizar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho, substituindo o arca\u00edsmo em que muitos chefes agem mais como feitores ou capatazes do patr\u00e3o do que como profissionais qualificados e humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cO sofrimento do ass\u00e9dio moral passa. Mas a cicatriz fica.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Depoimento de um assediado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Outra coisa: no dia da inaugura\u00e7\u00e3o, as salas estavam cheias de brinquedinhos de pel\u00facia. Assim que dona Maria Nilse e dona Elo\u00e1 sa\u00edram, veio um autom\u00f3vel e recolheu todos os bonequinhos que decoravam as salas. (Publicada em 30\/9\/1961)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 1960 com Circe Cunha e MAMFIL colunadoaricunha@gmail.com Em reportagem de Talita de Souza publicada no caderno Trabalho e Forma\u00e7\u00e3o Profissional, do Correio Braziliense, dados mostram que 52% dos trabalhadores brasileiros sofreram algum tipo de ass\u00e9dio no ambiente de trabalho, a maioria dos quais, 47,3%, foi claramente alvo de ass\u00e9dio moral. 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