{"id":8466,"date":"2017-01-20T10:38:16","date_gmt":"2017-01-20T12:38:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=8466"},"modified":"2017-02-06T10:39:10","modified_gmt":"2017-02-06T12:39:10","slug":"penitenciarias-escritorios-de-quadrilhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/penitenciarias-escritorios-de-quadrilhas\/","title":{"rendered":"Penitenci\u00e1rias, escrit\u00f3rios de quadrilhas"},"content":{"rendered":"<p>Do ponto de vista do marketing, \u00e9 certo que as rebeli\u00f5es em v\u00e1rios pres\u00eddios do pa\u00eds resultaram num sucesso estrondoso sem igual. As organiza\u00e7\u00f5es criminosas obtiveram exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia nacional e estrangeira que mesmo aquelas empresas mais famosas do planeta n\u00e3o conseguiriam, ainda que investissem centenas de milh\u00f5es de reais. Para o crime organizado, a divulga\u00e7\u00e3o de suas a\u00e7\u00f5es e poderio foi feita sem gastar um s\u00f3 centavo. Para isso, recorreram ao capital que tinham \u00e0 m\u00e3o, no caso, a vida de uma centena de presos que foram  sacrificados com a degola no altar da impunidade. Nesse caso, pode-se afirmar, com certeza, que a miss\u00e3o foi cumprida \u00e0 risca.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da exposi\u00e7\u00e3o de seu poder intimidat\u00f3rio, as organiza\u00e7\u00f5es obtiveram o que esperavam do Estado: a transfer\u00eancia dos l\u00edderes da rebeli\u00e3o e de fac\u00e7\u00f5es para pres\u00eddios federais, onde as condi\u00e7\u00f5es carcer\u00e1rias s\u00e3o bem melhores e onde se encontram tamb\u00e9m seus comparsas. Para organiza\u00e7\u00f5es de qualquer esp\u00e9cie \u2014 exceto, claro, aquelas de cunho secreto \u2014, imagem \u00e9 tudo, mesmo as mais tenebrosas. Sem a propaganda dos feitos criminosos, n\u00e3o h\u00e1 como causar o efeito desejado de incutir o medo em uns e provocar o respeito e a admira\u00e7\u00e3o em outros, principalmente perante os novos integrantes e futuros pretendentes.<\/p>\n<p>Pertencer a esses grupos do crime, que ganham manchetes aqui e alhures, \u00e9 tudo que os ne\u00f3fitos desejam. Nesse sentido, \u00e9 bom observar o que alguns pa\u00edses, como Portugal, procedem em rela\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es semelhantes. Naquele pa\u00eds, considerado hoje um dos mais seguros de toda a Europa, quando um criminoso cai nas malhas da Justi\u00e7a e \u00e9 condenado, praticamente ele some do horizonte e \u00e9 deletado da sociedade at\u00e9 o \u00faltimo dia de sua condena\u00e7\u00e3o. Nem mesmo a impressa sensacionalista tem acesso ao seu paradeiro. Trata-se de um morto-vivo, cujo destino s\u00f3 interessa \u00e0 Justi\u00e7a que o condenou.<\/p>\n<p>No Brasil, as penitenci\u00e1rias, no entanto, transformadas em escrit\u00f3rios centrais do crime, toda a divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida. Para isso, retardam, ao m\u00e1ximo, a simples instala\u00e7\u00e3o de bloqueadores de celulares. Ali\u00e1s, nesse ponto, \u00e9 bom destacar que os sinais de celulares funcionam bem melhor intramuros do que fora das pris\u00f5es, onde os consumidores s\u00e3o tosquiados pelas operadoras omissas.<\/p>\n<p>Vivemos uma contradi\u00e7\u00e3o: prendemos, mas queremos permitir mordomias, como visitas \u00edntimas, churrascos, bebidas, drogas, e um entra e sai de pessoas das mais diversas, que, em parte, fazem o papel de pombos-correio. Em democracias muito mais justas do que a nossa, os presos n\u00e3o t\u00eam direito a conversas particulares e outras regalias comuns em nossas cadeias.<\/p>\n<p>Qualquer pesquisa feita entre as classes menos favorecidas, justamente as mais prejudicadas pela criminalidade, mostrar\u00e1 que elas desejam uma atitude mais dura por parte das autoridades. Teorias como a humaniza\u00e7\u00e3o de pres\u00eddios \u00e9 coisa de discurso de pessoas situadas no alto da pir\u00e2mide social. O pov\u00e3o quer mesmo \u00e9 que bandido pague sua pena, de prefer\u00eancia trabalhando enquanto cumpre a condena\u00e7\u00e3o, at\u00e9 para reparar o mal causado. Que trabalhe para pagar pelo que come e pelo abrigo.<\/p>\n<p>Neste m\u00eas, as revoltas nas penitenci\u00e1rias empurraram das manchetes dos jornais a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e colocaram em seu lugar o mortic\u00ednio de presos. Para n\u00e3o ser acusado de omisso e sob forte press\u00e3o dos governadores, a maioria da base pol\u00edtica, o presidente Temer resolveu colocar as For\u00e7as Armadas para garantir a seguran\u00e7a nos pres\u00eddios.<\/p>\n<p>Especialistas alertam para o perigo de lan\u00e7ar as FA em miss\u00f5es que n\u00e3o dizem respeito a seu papel constitucional. Muito mais proveitoso do que colocar mil homens das FA, seria utilizar essa for\u00e7a especial\u00edssima para formar um forte cord\u00e3o de seguran\u00e7a ao longo dos milhares de quil\u00f4metros de nossas fronteiras com os pa\u00edses produtores de drogas e vendedores de armamentos.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria hoje \u00e9 de 600 mil presos, outros 400 mil condenados e com mandado de pris\u00e3o aguardam na fila. Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 controle do tempo de interna\u00e7\u00e3o, o que, com a tecnologia dispon\u00edvel, deveria ser autom\u00e1tico. Cumpriu a pena, liberdade imediata. Infelizmente, at\u00e9 hoje um problema simples como esse n\u00e3o foi resolvido. A impress\u00e3o do cidad\u00e3o comum \u00e9 que estamos enxugando gelo sob o Sol. A situa\u00e7\u00e3o amea\u00e7a sair dos muros fr\u00e1geis das pris\u00f5es e ganhar as ruas, j\u00e1 excessivamente violentas do pa\u00eds. Solu\u00e7\u00f5es extremas n\u00e3o chegariam \u00e0 origem do problema, que est\u00e1 nas escolas abandonadas, sem equipamentos, com professores desprestigiados e mal pagos.<\/p>\n<p>&gt;&gt;A frase que foi pronunciada<br \/>\n\u201cO car\u00e1ter de alguns homens p\u00fablicos \u00e9 como o pr\u00f3prio cheiro de corpo. S\u00f3 incomoda os outros. \u201d<\/p>\n<p>Dona Dita, lendo jornal<\/p>\n<p>&gt;&gt;Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nO minist\u00e9rio do Trabalho est\u00e1 dano comida de gra\u00e7a aos candangos, \u00e0 custa do Saps. Mas n\u00e3o tem nenhum controle, e muita gente est\u00e1 mandando chamar parente para viver \u00e0 custa do governo. (Publicado em 21\/9\/1961)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do ponto de vista do marketing, \u00e9 certo que as rebeli\u00f5es em v\u00e1rios pres\u00eddios do pa\u00eds resultaram num sucesso estrondoso sem igual. As organiza\u00e7\u00f5es criminosas obtiveram exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia nacional e estrangeira que mesmo aquelas empresas mais famosas do planeta n\u00e3o conseguiriam, ainda que investissem centenas de milh\u00f5es de reais. 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