{"id":8217,"date":"2016-10-08T06:39:08","date_gmt":"2016-10-08T09:39:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=8217"},"modified":"2016-10-10T06:42:09","modified_gmt":"2016-10-10T09:42:09","slug":"uma-cidade-que-vai-se-desmanchando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/uma-cidade-que-vai-se-desmanchando\/","title":{"rendered":"Uma cidade que vai se desmanchando"},"content":{"rendered":"<p>DESDE 1960 \u00bb<\/p>\n<p>aricunha@dabr.com.br<\/p>\n<p>com Circe Cunha com MAMFIL<\/p>\n<p>\u201cMenos \u00e9 mais\u201d \u00e9 , talvez, a frase mais ic\u00f4nica dentro do mundo da arquitetura. Atribu\u00edda ao arquiteto e professor da escola alem\u00e3 da Bauhaus, Mies van der Rohe (1886-1969), para traduzir e sintetizar, como um haicai enxuto, tudo o que buscava a arquitetura moderna e o design em seu per\u00edodo \u00e1ureo. Em seu sentido mais amplo, a frase traduz o pensamento da \u00e9poca que buscava despir o objeto de seus ornamentos e outros adere\u00e7os triviais, conferindo a eles sentido e racionalidade funcionais. As formas puras, a geometria limpa, a valoriza\u00e7\u00e3o dos materiais e do design, al\u00e9m, \u00e9 claro, da planta e da fachada livres entre outros importantes elementos construtivos, passaram a merecer mais aten\u00e7\u00e3o por parte de artistas e arquitetos. Foi justamente dentro desse esp\u00edrito vanguardista que foi pensado o projeto da nova e revolucion\u00e1ria capital dos brasileiros por Lucio Costa.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es como a setoriza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, a divis\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, mesmo os espa\u00e7os vazios, foram desenhados para unir beleza e harmonia \u00e0 funcionalidade e \u00e0 racionalidade de uma cidade, de modo a qualificar adequadamente os espa\u00e7os urbanos. Essa, na vis\u00e3o de Lucio Costa e esbo\u00e7ado em seu Relat\u00f3rio de 1957, deveria ser uma \u201ccidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas, ao mesmo tempo, cidade viva e apraz\u00edvel, pr\u00f3pria ao devaneio e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o intelectual, capaz de se tornar, com o tempo, al\u00e9m de centro de governo e administra\u00e7\u00e3o, foco de cultura dos mais l\u00facidos e sens\u00edveis do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o dessa vis\u00e3o da urbe moderna com a plasticidade de Niemeyer fez brotar \u201ca flor do deserto\u201d. Assim, lembra Niemeyer, em As curvas do tempo, \u201co velho cerrado cobriu-se de pr\u00e9dios e de gente, ru\u00eddo, tristezas e alegrias. O tempo cuidou de fazer com que muitos brasileiros, cr\u00edticos da transfer\u00eancia da capital, acabassem por aceitar uma realidade consolidada com engenho e arte. O mesmo tempo que serenou os \u00e2nimos, cuidou, a seu modo, de conduzir a cidade ao seu processo natural de desfazimento lento. A democracia interrompida abruptamente por duas d\u00e9cadas, o ex\u00edlio e a persegui\u00e7\u00e3o a seus idealizadores e o fim do modernismo como ideia libertadora do passado cuidaram de p\u00f4r um fim \u201ca um movimento e a um tempo de otimismo que visava apenas projetar o pa\u00eds e os brasileiros rumo ao futuro\u201d.<\/p>\n<p>O que veio a seguir, se distanciou l\u00e9guas da ideia original. O incha\u00e7o da capital, provocado pela forma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de cidades dormit\u00f3rios ao redor, bem como a especula\u00e7\u00e3o criminosa das terras p\u00fablicas, sob a b\u00ean\u00e7\u00e3o de pol\u00edticos inescrupulosos aliados a empreiteiros oportunistas, cuidaram de abreviar a decad\u00eancia da cidade.<\/p>\n<p>O que se v\u00ea hoje, com exce\u00e7\u00e3o de algumas \u00e1reas j\u00e1 consolidadas, \u00e9 uma cidade em franco processo de envelhecimento precoce. Suas duas avenidas principais de com\u00e9rcio (W3 Norte e Sul) s\u00e3o um retrato acabado do terceiro mundo. Picha\u00e7\u00f5es, polui\u00e7\u00e3o urbana, descontinuidade de cal\u00e7adas, sujeira, puxadinhos medonhos e remendos feitos aleatoriamente por diversos propriet\u00e1rios inspirados d\u00e3o uma mostra do pouco caso que fazemos dos espa\u00e7os p\u00fablicos, tratados como \u00e1reas totalmente descontinuadas e alheias de nossas pr\u00f3prias casas.<\/p>\n<p>\u00c0 explos\u00e3o de barracos de lata, com com\u00e9rcio improvisado se somaram os food trucks espalhados por toda Bras\u00edlia, potencializando o caos urbano. Em um ambiente em decad\u00eancia, obviamente se multiplicaram tamb\u00e9m os problemas sociais. A viol\u00eancia e o aumento da criminalidade, constatados hoje, encontram o espa\u00e7o ideal para se proliferar e se firmar justamente em espa\u00e7os esquecidos pelo poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>A frase que n\u00e3o foi pronunciada<br \/>\n\u201cO Brasil precisa de uma nova hist\u00f3ria de presente. De passado e de futuro tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Algu\u00e9m \u00e0 beira da depress\u00e3o, ao associar o pr\u00f3prio suor do trabalho com a \u00e1gua fresca da eterna corrup\u00e7\u00e3o de autoridades<\/p>\n<p>Constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00bb Depois da greve, na manh\u00e3 de sexta-feira, uma fila no Banco do Brasil do Senado acumulou terceirizados por mais de meia hora. A funcion\u00e1ria entrou e os seguran\u00e7as acompanhavam a fila aumentar. \u00c0s 11h, pontualmente ,a porta do Banco abriu e a sensa\u00e7\u00e3o de problema resolvido logo se dissipou. O guarda avisou. \u201cEssa ag\u00eancia n\u00e3o vai atender ningu\u00e9m porque n\u00e3o tem funcion\u00e1rio.\u201d Algu\u00e9m comentou alto que viu uma funcion\u00e1ria entrar. Sem jeito, o guarda foi e voltou dizendo: \u201cS\u00f3 quem tem conta estilo ser\u00e1 atendido aqui\u201d. Resignadamente, cada um seguiu o seu caminho sem perguntas. Regra n\u00famero 1: todos s\u00e3o diferentes perante os bancos.<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nA pedra fundamental foi lan\u00e7ada \u00e0 margem do asfalto, porque o local onde hoje trabalhamos estava dentro do mato. Todos presentes, veio helic\u00f3ptero, saltaram Juscelino e Israel, houve uma solenidade r\u00e1pida, poucos discursos, e estava sendo iniciada, ent\u00e3o, uma luta que poucos poderiam prever. (Publicado em 15\/9\/1961)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DESDE 1960 \u00bb aricunha@dabr.com.br com Circe Cunha com MAMFIL \u201cMenos \u00e9 mais\u201d \u00e9 , talvez, a frase mais ic\u00f4nica dentro do mundo da arquitetura. 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