{"id":7591,"date":"2016-03-08T04:27:13","date_gmt":"2016-03-08T07:27:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=7591"},"modified":"2016-03-08T07:58:07","modified_gmt":"2016-03-08T10:58:07","slug":"poeira-e-batom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/poeira-e-batom\/","title":{"rendered":"Poeira e batom"},"content":{"rendered":"<p>O que tinham de discretas, as mulheres pioneiras tinham de fortes. O que tinham de simples, completavam com a solidariedade. No ambiente hostil do Planalto Central, elas entraram de corpo e alma. O esp\u00edrito inovador constru\u00eda a Capital da Esperan\u00e7a. Copacabana deu lugar a apartamento t\u00e3o pequeno que o piano, ferramenta de trabalho, n\u00e3o entrava. Assim foi com a autora do Hino de Bras\u00edlia. Neusa Fran\u00e7a veio do Rio de Janeiro e teve sua m\u00fasica aprovada em concurso p\u00fablico. Palmerinda Donato, toda garbosa, chegou com sapato aveludado para a inaugura\u00e7\u00e3o da cidade. Caprichou no visual. Logo no primeiro passo, atolou o p\u00e9 no barro. Era press\u00e1gio de que nada seria f\u00e1cil. Mas tamb\u00e9m venceu.<\/p>\n<p>]Muitas dessas mulheres estariam cobertas pelo manto do anonimato n\u00e3o fosse a garra de T\u00e2nia Fontenele, nossa homenageada hoje. No ambiente dom\u00e9stico, nascida e crescida em Bras\u00edlia, T\u00e2nia percebeu que, quando o assunto era a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, os nomes que vinham eram sempre de Juscelino, Lucio Costa, Niemeyer. Dona J\u00falia e Sarah Kubitsheck eram citadas tamb\u00e9m, mas com pouca \u00eanfase. Inquieta, T\u00e2nia resolveu buscar informa\u00e7\u00f5es com dona In\u00eas Fontenele Mour\u00e3o, a m\u00e3e, que tinha participado da cria\u00e7\u00e3o da primeira associa\u00e7\u00e3o de mulheres empres\u00e1rias da nova capital. Ela era fonte rica sobre as batalhadoras da cidade.<\/p>\n<p>Em 1985, o primeiro filme de T\u00e2nia Fontenele foi Corrida das 5.300 mulheres. O fato de ter sido, na d\u00e9cada de 1990, professora da Enap tamb\u00e9m contribuiu para os valiosos contatos que iam aparecendo. Ela participava de programas de capacita\u00e7\u00e3o de ordem t\u00e9cnica e gerencial para mulheres que ocupavam cargos importantes no setor p\u00fablico. Desenvolveu, at\u00e9 no mestrado, o tema mulheres no topo da carreira \u2014 flexibilidade e persist\u00eancia. O estudo foi marco na aten\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. A Secretaria da Mulher, na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, publicou 3 mil exemplares que foram espalhados por todo o pa\u00eds. \u00c9 poss\u00edvel acessar o trabalho no seguinte endere\u00e7o eletr\u00f4nico: http:\/\/www.spm.gov.br\/arquivos-diversos\/publicacoes\/publicacoes\/topo-carreira-fim.pdf .<\/p>\n<p>Em 2007, T\u00e2nia participou da cria\u00e7\u00e3o do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam), onde hoje \u00e9 coordenadora. Em 2009, no anivers\u00e1rio de Bras\u00edlia, pesquisa patrocinada pela Petrobras e GDF mostrou a invisibilidade das mulheres que participaram ativamente da constru\u00e7\u00e3o da cidade. Para T\u00e2nia elas eram invis\u00edveis, mas, nas entrevistas, ela p\u00f4de perceber que estavam satisfeitas pelo trabalho que realizaram, e mais ainda naquele momento em que teriam a mem\u00f3ria oral registrada para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. A cultura da \u00e9poca foi desafio para T\u00e2nia. Com fotos lindas nas m\u00e3os, o registro dizia sr. Manoel d\u2019Andrade e esposa. Nunca, ou quase nunca, a mulher tinha nome e sobrenome.<\/p>\n<p>As pioneiras sabem a import\u00e2ncia do trabalho de T\u00e2nia Fontenele e colaboram como podem. Cedem ou emprestam fotos, objetos, textos, o que t\u00eam em casa desde os anos 1960. Assim, como um cerrado em pequenas pe\u00e7as, as fam\u00edlias pioneiras v\u00e3o ocupando o espa\u00e7o na Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia. Isoladas, longe da cidade em que viviam, a rela\u00e7\u00e3o humana que deu in\u00edcio \u00e0 nova capital era diferente de qualquer lugar no Brasil. As pessoas se ajudavam mutuamente, um grupo que tinha carro aguardava os novos moradores no aeroporto para o deslocamento, m\u00e9dicos atendiam as emerg\u00eancias em qualquer hora ou lugar. O esp\u00edrito de solidariedade era a regra. Todos se cumprimentavam, se conheciam, conversavam.<\/p>\n<p>Poeira e batom \u00e9 um filme de T\u00e2nia que mostra a saga da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Uma decis\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica de grande envergadura que chamou para si o esfor\u00e7o de cada brasileiro. Bras\u00edlia \u00e9 vista como cidade arquitetonicamente moderna, com espa\u00e7os livres, mas \u00e9 importante que os jovens saibam que o cen\u00e1rio de desenvolvimento era muito diferente do que se v\u00ea hoje. T\u00e2nia discorda dos que dizem que Bras\u00edlia nasceu no meio do nada. Tribos ind\u00edgenas, pessoas que j\u00e1 estavam aqui desde o s\u00e9culo 18 tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o parte da hist\u00f3ria da capital por falta de conhecimento.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia tem muito mais do que a arquitetura para mostrar. Acreditando na capacidade da educa\u00e7\u00e3o em promover o ser humano, um projeto social e pol\u00edtico, com os educadores mais modernos do pa\u00eds, implementou o melhor sistema educacional do Brasil. Educa\u00e7\u00e3o em tempo integral, a nata da intelectualidade participou dos projetos inovadores. A Escola Parque, que deveria estar espalhada pela cidade, a Escola de M\u00fasica, que deveria ter dezenas espalhadas pelas quadras. A base era uma cidade humanizada. Arte, conhecimento, conviv\u00eancia. O investimento de alto n\u00edvel em termos de propostas e inova\u00e7\u00e3o. Alto n\u00edvel, explica T\u00e2nia, n\u00e3o quer dizer muito dinheiro. Ningu\u00e9m ostentava nada.<\/p>\n<p>Tudo o que era de alta qualidade tinha o toque da simplicidade. Assim como os tra\u00e7os de Niemeyer. As escolas eram simples e aconchegantes. A cria\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as era mais socialista do que nunca. Na mesma sala de aula, filhos de ministros e filhos de oper\u00e1rios brincavam sem dar import\u00e2ncia para status. A cidade vai al\u00e9m do que \u00e9 visto. A cidade foi criada com conceitos de cordialidade. Aqui n\u00e3o se buzina. As tesourinhas foram criadas para dar oportunidade de os motoristas cederem a vez, os porteiros moravam nos pr\u00e9dios. As pessoas que chegam e dizem que Bras\u00edlia \u00e9 uma cidade fria \u00e9 porque nunca experimentaram dar um sorriso com um bom-dia.<\/p>\n<p>T\u00e2nia prepara o doutorado sobre as mem\u00f3rias femininas de Bras\u00edlia e j\u00e1 arruma a bagagem para se mudar para o Arquivo P\u00fablico, que sempre a recebeu de portas abertas. Faltam mesmo para completar o projeto de registro da hist\u00f3ria da capital apoio institucional e financeiro do GDF ou do governo federal para a constru\u00e7\u00e3o da sede da mem\u00f3ria feminina na constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. A autoestima das pioneiras \u00e9 visivelmente valorizada com esse projeto. As pr\u00f3prias fam\u00edlias descobriram as av\u00f3s e bisav\u00f3s, vendo o valor daquelas mulheres tantas vezes sozinhas, mal ouvidas e at\u00e9 deprimidas.<\/p>\n<p>Venham conhecer T\u00e2nia Fontenele na proje\u00e7\u00e3o do filme Poeira e batom. De 8 a 15 de mar\u00e7o a partir das 18h30. Document\u00e1rio e exposi\u00e7\u00e3o homenageiam pioneiras no Dia Internacional da Mulher. Pela primeira vez o filme Poeira e batom vai ser exibido com legenda em franc\u00eas, e a mostra Mem\u00f3rias Femininas da Constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia ganha nova configura\u00e7\u00e3o. Entrada franca, na Alian\u00e7a Francesa, SEPS 708\/908. O nosso muito obrigado a essa brasiliense. Que o governo reconhe\u00e7a o trabalho providenciando sede fixa para um centro de pesquisa, de exibi\u00e7\u00e3o e exposi\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria feminina que contribuiu para a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/b><\/p>\n<p>As casas de armas de Goi\u00e2nia e Bras\u00edlia venderam, nestes \u00faltimos dias, todos os estoques de balas de todos os calibres.(Publicado em 1\/9\/1961)<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1333\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BYsEgFAxjNA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"1333\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/16fwVNp7Cxw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que tinham de discretas, as mulheres pioneiras tinham de fortes. 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