{"id":66,"date":"2015-01-31T01:40:00","date_gmt":"2015-01-31T03:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/visto_lido_e_ouvido-28\/"},"modified":"2015-01-31T01:40:00","modified_gmt":"2015-01-31T03:40:00","slug":"visto_lido_e_ouvido-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/visto_lido_e_ouvido-28\/","title":{"rendered":"VISTO, LIDO E OUVIDO"},"content":{"rendered":"\n<p>    circecunha@gmail.com; arigcunha@ig.com.br <\/p>\n<p>Outro homem <\/p>\n<p>Simp\u00e1tico, o  papa Francisco disse a que veio. Sem discursos vazios, prefere mostrar  com a pr\u00f3pria vida a sugest\u00e3o que oferece para o rebanho que segue Jesus  Cristo. Deixa bem claro que o que ensina n\u00e3o \u00e9 dele e quem o ouvir \u00e9 a  Cristo que deve responder. Trata de temas modernos, como meio ambiente,  consumismo, homoafetividade. O papa surpreendeu quando, com o apoio da  m\u00eddia, disse que a juventude fosse contra a mar\u00e9 e n\u00e3o tivesse medo  disso. Contra a mar\u00e9 exatamente do que os meios de comunica\u00e7\u00e3o pregam.  Viol\u00eancia, desaven\u00e7a, orgulho, vaidade, trai\u00e7\u00e3o, gan\u00e2ncia. Basta ligar a  TV dois minutos e ver o que acontece. E o Ibope n\u00e3o tem como negar. <\/p>\n<p>O  \u00edndice de popularidade do papa \u00e9 alto. Estamos em um pa\u00eds onde a  descren\u00e7a \u00e9 generalizada tanto nos dirigentes quanto nas institui\u00e7\u00f5es. A  cada dia, a f\u00faria pelos lucros e o desespero pelo ter v\u00e3o deixando o  planeta mais in\u00f3spito ao pr\u00f3prio homem. A entrevista do papa Francisco  dada \u00e0 Civilt\u00e0 Cattolica se apresenta como o\u00e1sis em meio a um deserto de  incertezas e ang\u00fastias que vive a humanidade neste come\u00e7o de s\u00e9culo. <\/p>\n<p>Ele  fez diferente. \u00c9 normal p\u00f4r uma igreja contra a outra, desde a escola  dominical ou o catecismo at\u00e9 os serm\u00f5es. Um precisa dizer que \u00e9 melhor  que o outro. Uma firma de m\u00e3os juntas em que est\u00e1 no livro quem vai ou  quem fica. Uma igreja n\u00e3o aceita a presen\u00e7a de outras religi\u00f5es no seu  templo. Quando aceita, quer fazer o imposs\u00edvel para arrebanhar o  visitante. Mais uma vez, o papa vai contra a mar\u00e9. <\/p>\n<p>A fala do sumo  pont\u00edfice soa como chamamento do indiv\u00edduo para al\u00e9m das miudezas  humanas, num mergulho no mais profundo de si mesmo, capaz de fazer  emergir num mundo \u00e0 altura dos sonhos. Ao se definir como \u201cpecador para  quem o Senhor olhou\u201d, o papa se iguala ao homem comum de p\u00e9s descal\u00e7os  sobre a terra e olhar fixo no c\u00e9u \u201cmisericordiando\u201d. Quando afirma que  \u201cprecisa viver a vida junto dos outros\u201d, p\u00f5e \u00e0s claras um ecumenismo que  n\u00e3o \u00e9 somente religioso, mas, acima de tudo, humanista. <\/p>\n<p>Esse sentido lembra as reflex\u00f5es do sacerdote, paleont\u00f3logo e fil\u00f3sofo  jesu\u00edta Teilhard de Chardin, que, ao buscar conciliar a teoria da  evolu\u00e7\u00e3o deDarwin com a doutrina cat\u00f3lica, mostrava a s\u00edntese do que  acreditava ser o verdadeiro humanismo, em que o esp\u00edrito e a dignidade  humana ultrapassam a mat\u00e9ria. Como jesu\u00edta, Francisco, eleito papa, \u201cfoi  chamado a exercer\u201d, \u201cNon coerceri a Maximo, sem contineri a minimo  divinum est\u201d (N\u00e3o estar constrangido pelo m\u00e1ximo, e, no entanto, estar  inteiramente contido no m\u00ednimo, isso \u00e9 divino). \u00c9 como algu\u00e9m que est\u00e1  no luxuoso pal\u00e1cio e v\u00ea, atrav\u00e9s de uma pequena janela, todo o horizonte  pela frente, maior e mais significativo. <\/p>\n<p>Desse mesmo modo, a  cada um \u00e9 dada a possibilidade de ver a Deus a partir do pr\u00f3prio ponto  de vista. Com essa vis\u00e3o \u00e9 que o papa pretende reformar a Igreja. \u201cSer\u00e1  sempre necess\u00e1rio tempo do discernimento para lan\u00e7ar as bases de uma  mudan\u00e7a verdadeira e eficaz.\u201d Na \u201cleitura dos sinais dos tempos\u201d,  Francisco deixa claro que, ao posicionar hoje Cristo e a Igreja como  centro, \u00e9 poss\u00edvel adquirir o equil\u00edbrio fundamental que torna poss\u00edvel  viver na periferia, certo de que a Igreja n\u00e3o \u00e9 uma entidade  autossuficiente e distante do mundo. <\/p>\n<p>Nesse sentido, Igreja \u00e9  miss\u00e3o. No apostolado renovado, ao mission\u00e1rio \u00e9 exigido que tenha o  \u201cpensamento aberto\u201d, sem que as regras abafem o esp\u00edrito. Entre as  figuras jesu\u00edtas que mais chamaram a aten\u00e7\u00e3o do papa est\u00e1 o beato Pedro  Fabro (1506-1646), pela capacidade de \u201cdi\u00e1logo com todos, mesmo os mais  afastados e os advers\u00e1rios\u201d. <\/p>\n<p>Na administra\u00e7\u00e3o da Igreja, diz, \u00e9 preciso fazer consultas (consist\u00f3rios  e s\u00ednodos) antes de decidir. \u201cQuero consultas reais, n\u00e3o formais\u201d,  prega. Ampliando a cren\u00e7a, afirma que \u201cn\u00e3o existe plena identidade sem  que se perten\u00e7a a um povo\u201d e que a Igreja, no seu sentir, deve, antes de  tudo, estar no povo, que \u00e9 sujeito e \u201cinfal\u00edvel no crer\u201d. Para ele a  Igreja \u00e9 a \u201ctotalidade do povo de Deus.\u201d E continua: \u201cVejo a santidade  no povo de Deus paciente: uma mulher que cria os filhos, um homem que  trabalha para levar o p\u00e3o para casa, os doentes, os sacerdotes idosos  com tantas feridas, mas com um sorriso por terem servido ao Senhor, as  irm\u00e3s que trabalham tanto e que vivem uma santidade escondida. Essa \u00e9,  para mim, a santidade comum.\u201d <\/p>\n<p>Para os ministros da Igreja, Francisco  recomenda: \u201cOs ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o  cora\u00e7\u00e3o das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e,  mesmo, de descer \u00e0s suas noites, na sua escurid\u00e3o, sem perder-se. O  povo de Deus quer pastores, n\u00e3o funcion\u00e1rios.\u201d Muitos se afastam das  igrejas porque at\u00e9 nelas impera uma burocracia desumana. <\/p>\n<p>Na  an\u00e1lise, a Igreja deve n\u00e3o apenas acolher, mas encontrar novos caminhos,  saindo de si mesma, e ir ao encontro dos que, por qualquer raz\u00e3o, a  abandonaram. Abrindo, portanto, um espa\u00e7o para a reconcilia\u00e7\u00e3o de todos.  Nesse caso espec\u00edfico, Francisco admite que a inger\u00eancia espiritual na  vida pessoal n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. \u201cSe uma pessoa homossexual \u00e9 de boa vontade  e est\u00e1 \u00e0 procura de Deus, eu n\u00e3o sou ningu\u00e9m para julg\u00e1-la\u201d. Desse  modo, em sua vis\u00e3o, \u00e9 preciso considerar a pessoa a partir de sua  condi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.  <\/p>\n<p>Francisco reconhece com realismo que, nestes  tempos de agora, \u201cmesmo o edif\u00edcio moral da Igreja corre o risco de cair  como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do  Evangelho\u201d. <\/p>\n<p>(Coluna originalmente publicada em 9\/9\/2013) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>circecunha@gmail.com; arigcunha@ig.com.br Outro homem Simp\u00e1tico, o papa Francisco disse a que veio. Sem discursos vazios, prefere mostrar com a pr\u00f3pria vida a sugest\u00e3o que oferece para o rebanho que segue Jesus Cristo. Deixa bem claro que o que ensina n\u00e3o \u00e9 dele e quem o ouvir \u00e9 a Cristo que deve responder. 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