{"id":28957,"date":"2026-10-24T02:55:00","date_gmt":"2026-10-24T05:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=28957"},"modified":"2026-10-27T09:16:58","modified_gmt":"2026-10-27T12:16:58","slug":"o-que-as-escolas-deixaram-de-ensinar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-que-as-escolas-deixaram-de-ensinar\/","title":{"rendered":"O que as escolas deixaram de ensinar na crise da educa\u00e7\u00e3o nacional"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em setembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025. O Brasil marcou 377 pontos em matem\u00e1tica, 408 em leitura e 409 em ci\u00eancias, ficando abaixo da m\u00e9dia da organiza\u00e7\u00e3o nas tr\u00eas \u00e1reas. Ficamos em 71\u00ba lugar em matem\u00e1tica, 67\u00ba em ci\u00eancias e 52\u00ba em leitura entre os pa\u00edses com resultados compar\u00e1veis. Em ci\u00eancias, apenas cerca de 48% dos nossos estudantes de 15 anos alcan\u00e7am o n\u00edvel b\u00e1sico de profici\u00eancia. Na m\u00e9dia da OCDE, por sua vez, esse n\u00famero atinge 74%. Al\u00e9m disso, em leitura, apenas 1% dos alunos chega aos n\u00edveis mais altos, contra 6% da m\u00e9dia dos pa\u00edses ricos. Desse modo, surge inevitavelmente o debate sobre <strong>o que as escolas deixaram de ensinar<\/strong> ao longo dos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>VISTO, LIDO E OUVIDO\nColuna criada em 1960 por Ari Cunha\n(In memoriam) no Correio Braziliense\n\nHoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade\njornalistacircecunha@gmail.com\ninstagram.com\/vistolidoeouvido\nfacebook.com\/vistolidoeouvido\n<\/code><\/pre>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Questionamento de fundo sobre os objetivos da educa\u00e7\u00e3o brasileira<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses dados j\u00e1 s\u00e3o amplamente conhecidos. A cada nova edi\u00e7\u00e3o, produzem o mesmo ritual de lamento, promessas e planos governamentais. Contudo, raramente se faz a pergunta de fundo sobre a real aplica\u00e7\u00e3o das horas letivas. Se o resultado final permanece t\u00e3o baixo, talvez o problema n\u00e3o esteja apenas nos recursos investidos, mas nas metas do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisando o impacto econ\u00f4mico, observa-se que esse atraso possui um custo concreto para o pa\u00eds. Em 2022, a OCDE estimou que estudantes de Singapura estavam at\u00e9 cinco anos de escolaridade \u00e0 frente da m\u00e9dia. Consequentemente, jovens que saem da escola sem dominar leitura e matem\u00e1tica chegam ao mercado com s\u00e9rias limita\u00e7\u00f5es intelectuais. Onde o ensino falha, sobra inevitavelmente a depend\u00eancia individual.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tese de Bernardin sobre Maquiavel Pedagogo e a engenharia social<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa reflex\u00e3o dialoga diretamente com a obra <em>Maquiavel Pedagogo<\/em>, do engenheiro franc\u00eas Pascal Bernardin. Publicado em 1995 e traduzido no Brasil em 2013, o livro sustenta uma mudan\u00e7a discreta nos objetivos educacionais. Segundo o autor, organismos internacionais deslocaram o foco da transmiss\u00e3o do conhecimento para a altera\u00e7\u00e3o de comportamentos. Assim, a crian\u00e7a deixa de ser algu\u00e9m a instruir para se tornar mat\u00e9ria a moldar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisando o m\u00e9todo, Bernardin destaca o uso de um vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico e atraente. Termos como \u201ccompet\u00eancias\u201d, \u201chabilidades\u201d, \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cprotagonismo\u201d dificultam a cr\u00edtica p\u00fablica. Afinal, quem questiona tais conceitos \u00e9 rapidamente rotulado como conservador ou ultrapassado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Conex\u00f5es te\u00f3ricas entre Gramsci e a Escola de Frankfurt<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa transforma\u00e7\u00e3o educacional dialoga com duas correntes te\u00f3ricas marcantes. Primeiramente, refere-se ao pensamento de Antonio Gramsci sobre a conquista da hegemonia cultural antes da tomada do poder. Em segundo lugar, conecta-se \u00e0 Teoria Cr\u00edtica da Escola de Frankfurt, que usou a cultura para desconstruir valores sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa perspectiva, o ensino rigoroso de conte\u00fados perde o protagonismo. Ler com flu\u00eancia, calcular com precis\u00e3o e argumentar logicamente passam a ocupar um papel secund\u00e1rio. Prioriza-se, dessa forma, a tarefa de \u201cconscientizar\u201d ideologicamente os estudantes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Diagn\u00f3stico das falhas estruturais e da pedagogia engajada no Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diversos cr\u00edticos apontam que o Brasil seguiu rigorosamente essa trajet\u00f3ria ideol\u00f3gica. Citam a obra de Paulo Freire como refer\u00eancia quase exclusiva nas faculdades de pedagogia. Al\u00e9m disso, observam que os cursos de licenciatura priorizam teorias educacionais em detrimento do dom\u00ednio da mat\u00e9ria a ser lecionada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto levantado envolve o vi\u00e9s militante presente em materiais did\u00e1ticos e curr\u00edculos. H\u00e1 uma clara desconfian\u00e7a da autoridade do professor, do esfor\u00e7o individual, da repeti\u00e7\u00e3o e das avalia\u00e7\u00f5es externas. Portanto, a estagna\u00e7\u00e3o nas avalia\u00e7\u00f5es do Pisa passa a ser vista n\u00e3o como um acidente, mas como consequ\u00eancia direta de prioridades equivocadas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Aumento da desigualdade social provocado pela falta de conte\u00fado<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importante ressaltar que essa abordagem pedag\u00f3gica gera profundas injusti\u00e7as sociais. Fam\u00edlias de renda mais alta compensam as falhas do ensino p\u00fablico com aulas particulares, col\u00e9gios seletivos e livros. Em contrapartida, os alunos mais pobres dependem exclusivamente da escola p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dados recentes do Pisa mostram que a dist\u00e2ncia em matem\u00e1tica entre as notas mais altas e as mais baixas aumentou entre 2022 e 2025. Desse modo, o abandono do conte\u00fado acad\u00eamico aprofunda a desigualdade em nome de combat\u00ea-la. Quem tem alternativas aprende apesar da escola; os desfavorecidos aprendem apenas o que a sala de aula oferece.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Requisitos fundamentais para a reconstru\u00e7\u00e3o do ensino de qualidade<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Educar consiste em introduzir as novas gera\u00e7\u00f5es no patrim\u00f4nio cultural acumulado pela humanidade. Esse processo exige alfabetiza\u00e7\u00e3o s\u00f3lida nos anos iniciais, matem\u00e1tica ensinada com rigor e amplo dom\u00ednio da l\u00edngua portuguesa. Hist\u00f3ria e ci\u00eancias devem ser tratadas como saber acad\u00eamico, e n\u00e3o como instrumento de milit\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exige-se, da mesma forma, valoriza\u00e7\u00e3o da autoridade intelectual do professor e empenho dos estudantes. Uma institui\u00e7\u00e3o que informa e ensina a pensar forma cidad\u00e3os livres. Por outro lado, um sistema que conduz o aluno a conclus\u00f5es preconcebidas gera apenas militantes.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Compara\u00e7\u00e3o com modelos internacionais de alto desempenho<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Modelos bem-sucedidos em pa\u00edses como a Coreia do Sul demonstraram que reformas reais focam nos meios de ensino. Nesses locais, houve valoriza\u00e7\u00e3o docente, maior tempo de estudo e exig\u00eancia acad\u00eamica, em vez de experimentos ideol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sistemas que lideram o Pisa \u2014 a exemplo de Singapura, Jap\u00e3o e Est\u00f4nia \u2014 compartilham curr\u00edculos exigentes e avalia\u00e7\u00f5es constantes. Nenhum desses pa\u00edses utiliza o estudante como ferramenta para projetos pol\u00edticos alheios ao aprendizado real.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Centralidade do m\u00e9todo f\u00f4nico e da alfabetiza\u00e7\u00e3o baseada em evid\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No tocante ao aprendizado inicial, a alfabetiza\u00e7\u00e3o surge como o teste mais claro dessa divis\u00e3o. Atrasos na leitura nos primeiros anos geram defasagens que acompanham o estudante por toda a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Defensores do ensino estruturado sustentam que a alfabetiza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita e sistem\u00e1tica deve prevalecer sobre teorias construtivistas. A ideia de que a crian\u00e7a \u00e9 autora espont\u00e2nea do pr\u00f3prio aprendizado falhou na pr\u00e1tica. Afinal, ler \u00e9 o direito b\u00e1sico de todo estudante.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Transpar\u00eancia e presta\u00e7\u00e3o de contas na gest\u00e3o educacional<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante do cen\u00e1rio atual, a discuss\u00e3o sobre os rumos da educa\u00e7\u00e3o exige debate p\u00fablico imediato. Fam\u00edlias, professores e pesquisadores precisam analisar abertamente curr\u00edculos, diretrizes e materiais did\u00e1ticos distribu\u00eddos pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caso a escola esteja cumprindo sua miss\u00e3o de ensinar, os indicadores demonstrar\u00e3o os avan\u00e7os. Contudo, se os resultados permanecerem negativos, a sociedade tem o direito de saber a quem esses m\u00e9todos est\u00e3o servindo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ponto de vista oposto sobre os fatores socioecon\u00f4micos do Pisa<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para garantir a honestidade do debate, cumpre apresentar as obje\u00e7\u00f5es formuladas pelos cr\u00edticos dessa tese. Quanto \u00e0 obra de Bernardin, analistas lembram que o texto analisa reformas europeias e norte-americanas, sem provar causalidade direta com as notas do Pisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Argumenta-se tamb\u00e9m que os resultados brasileiros apresentaram avan\u00e7os nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. Desde 2006, a dist\u00e2ncia para a m\u00e9dia da OCDE caiu em matem\u00e1tica, leitura e ci\u00eancias. Entretanto, especialistas ponderam que parte dessa aproxima\u00e7\u00e3o decorreu da queda do desempenho dos pa\u00edses ricos.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Desafios operacionais e varia\u00e7\u00f5es regionais no desempenho escolar<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maioria dos pesquisadores atribui os baixos resultados a fatores estruturais hist\u00f3ricos. Entre eles, destacam-se a desigualdade socioecon\u00f4mica, a forma\u00e7\u00e3o deficiente de docentes, a jornada escolar reduzida e a precariedade das instala\u00e7\u00f5es. Adicionalmente, pontuam que at\u00e9 mesmo os alunos da rede privada brasileira pontuam abaixo da m\u00e9dia da OCDE em matem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, dados regionais dentro do pr\u00f3prio Brasil trazem novos elementos para a reflex\u00e3o. Sob as mesmas diretrizes curriculares nacionais, o estado do Paran\u00e1 obteve 423 pontos em matem\u00e1tica no Pisa 2025 e S\u00e3o Paulo alcan\u00e7ou 404 pontos, resultados bem superiores \u00e0 m\u00e9dia nacional. Isso demonstra que a gest\u00e3o escolar e as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas adotadas em sala de aula exercem um peso decisivo no aprendizado real.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em setembro, a OCDE divulgou os resultados do Pisa 2025. O Brasil marcou 377 pontos em matem\u00e1tica, 408 em leitura e 409 em ci\u00eancias, ficando abaixo da m\u00e9dia da organiza\u00e7\u00e3o nas tr\u00eas \u00e1reas. Ficamos em 71\u00ba lugar em matem\u00e1tica, 67\u00ba em ci\u00eancias e 52\u00ba em leitura entre os pa\u00edses com resultados compar\u00e1veis. Em ci\u00eancias, apenas cerca de 48% dos nossos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":28979,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[4479,4365,2339,3394,4481,154,2340,4480,1637,1474,4478,4379],"class_list":["post-28957","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra-integra","tag-alfabetizacao","tag-ari-cunha-2","tag-circecunha-2","tag-correiobraziliense","tag-desempenhoescolar","tag-educacao","tag-mamfil-2","tag-maquiavelpedagogo","tag-ocde","tag-paulofreire","tag-pisa2025","tag-vistolidoeouvido"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28957"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28957\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28960,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28957\/revisions\/28960"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28979"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}