{"id":28955,"date":"2026-10-25T03:33:00","date_gmt":"2026-10-25T06:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=28955"},"modified":"2026-10-27T09:12:04","modified_gmt":"2026-10-27T12:12:04","slug":"erro-historico-do-intelectual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/erro-historico-do-intelectual\/","title":{"rendered":"Erro hist\u00f3rico do intelectual e a armadilha do porta-voz ideol\u00f3gico"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/10\/erro-historico.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"658\" height=\"351\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/10\/erro-historico.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-28976\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/10\/erro-historico.png 658w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/10\/erro-historico-300x160.png 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/10\/erro-historico-550x293.png 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/10\/erro-historico-230x123.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 658px) 100vw, 658px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 certo que o pensador que abra\u00e7a uma ideologia e passa a combater todos os divergentes comete um <strong>erro hist\u00f3rico do intelectual<\/strong>, pois acerta o alvo central, mas perde o entorno. Afinal, o mundo real \u00e9 sempre mais diverso do que o ponto escolhido. Consequentemente, perde-se a b\u00fassola, a r\u00e9gua e o compasso, isto \u00e9, a orienta\u00e7\u00e3o e a capacidade de tra\u00e7ar o c\u00edrculo de um mundo inteiro. A imagem final mostra um fil\u00f3sofo dividido e cativo, com um muro no meio do universo, enxergando apenas metade de tudo. Essa observa\u00e7\u00e3o \u00e9 menos uma quest\u00e3o de gosto pol\u00edtico e mais uma quest\u00e3o de m\u00e9todo. Portanto, o que est\u00e1 em causa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do pensamento, e n\u00e3o o conte\u00fado da cren\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>VISTO, LIDO E OUVIDO\nColuna criada em 1960 por Ari Cunha\n(In memoriam) no Correio Braziliense\n\nHoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade\njornalistacircecunha@gmail.com\ninstagram.com\/vistolidoeouvido\nfacebook.com\/vistolidoeouvido\n<\/code><\/pre>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Diagn\u00f3sticos cl\u00e1ssicos sobre o erro hist\u00f3rico do intelectual<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa intui\u00e7\u00e3o possui forte pedigree hist\u00f3rico. Em 1927, <a target=\"_blank\" rel=\"noopener\" href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=https%3A%2F%2Fwww.britannica.com%2Ftopic%2FThe-Treason-of-the-Intellectuals\">Julien Benda publicou &#8220;A Trai\u00e7\u00e3o dos Intelectuais&#8221;<\/a> para denunciar exatamente o fen\u00f4meno. Os cl\u00e9rigos, que deveriam servir a valores universais como a verdade, a justi\u00e7a e a raz\u00e3o, entregavam-se \u00e0s paix\u00f5es pol\u00edticas de classe, de na\u00e7\u00e3o e de partido. Para Benda, o intelectual que se faz porta-voz deixa de ser guardi\u00e3o do universal e passa a ser advogado de interesses particulares. Posteriormente, Raymond Aron publicou &#8220;O \u00d3pio dos Intelectuais&#8221; em 1955, acrescentando um diagn\u00f3stico complementar: a f\u00e9 pol\u00edtica dos letrados costuma ser mais dogm\u00e1tica do que a do homem comum, pois dispensa o contato com o custo concreto das decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Exemplos hist\u00f3ricos e as faces do erro hist\u00f3rico do intelectual<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria oferece um acervo doloroso de exemplos que ilustram claramente o <strong>erro hist\u00f3rico do intelectual<\/strong>. \u00c9 fundamental notar que eles v\u00eam de todos os lados, indicando que o problema n\u00e3o est\u00e1 na ideologia escolhida, mas no gesto de se tornar seu porta-voz. Martin Heidegger, profundo fil\u00f3sofo do s\u00e9culo XX, aderiu ao partido nazista e assumiu o reitorado de Friburgo em 1933. Ezra Pound transmitiu propaganda fascista pelo r\u00e1dio italiano durante a guerra. Louis-Ferdinand C\u00e9line escreveu panfletos antissemitas que mancharam sua obra. Na outra margem, Pablo Neruda comp\u00f4s odes a Stalin quando o terror j\u00e1 era not\u00f3rio. Andr\u00e9 Gide viajou \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1936, voltou desiludido e foi tratado como traidor por descrever a realidade. Jean-Paul Sartre relativizou crimes sovi\u00e9ticos e rompeu com Albert Camus quando este recusou a m\u00e1xima de que o fim justifica os meios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O padr\u00e3o se repete com not\u00e1vel regularidade. Primeiro ocorre a escolha do lado, muitas vezes movida por indigna\u00e7\u00e3o leg\u00edtima ou amor pela p\u00e1tria. Em seguida surge a lealdade exigida pela fac\u00e7\u00e3o, for\u00e7ando a leitura favor\u00e1vel de fatos inc\u00f4modos. Por fim, instala-se o sil\u00eancio seletivo: o intelectual deixa de ver os erros do pr\u00f3prio campo. Quem cumpre essa trajet\u00f3ria descobre, tarde demais, que cedeu a credibilidade de quem n\u00e3o precisa dizer o que conv\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Contraponto de pensadores fi\u00e9is aos valores universais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, por\u00e9m, um erro sim\u00e9trico que precisa ser evitado. A honestidade intelectual exige reconhecer que n\u00e3o se prega a neutralidade como virtude nem o sil\u00eancio como prud\u00eancia. \u00c9mile Zola publicou &#8220;J\u2019accuse&#8221; em 1898 escolhendo um lado, mas defendeu um homem, Dreyfus, e um princ\u00edpio de justi\u00e7a, e n\u00e3o um partido. <a target=\"_blank\" rel=\"noopener\" href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=https%3A%2F%2Fwww.theguardian.com%2Fbooks%2F2003%2Ffeb%2F15%2Fclassics.georgeorwell\">George Orwell lutou na Guerra Civil Espanhola<\/a> e denunciou as mentiras da pr\u00f3pria esquerda com absoluta lucidez. V\u00e1clav Havel criticou o regime comunista sem virar propagandista de outra bandeira. A diferen\u00e7a nesses casos reside na dire\u00e7\u00e3o da lealdade: Zola, Orwell e Havel serviram a valores permanentes, enquanto os outros serviram a organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Efeitos nocivos da milit\u00e2ncia e o erro hist\u00f3rico do intelectual<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O custo n\u00e3o recai apenas sobre quem se alista. A esfera p\u00fablica, dependente de vozes justas para arbitrar disputas, sofre graves danos. Quando essas vozes se alinham cegamente, o \u00e1rbitro desaparece. Cada fato ganha uma etiqueta de origem, e o cidad\u00e3o comum aprende a descontar o que vem do advers\u00e1rio e a absorver sem filtro o que vem do seu grupo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A confian\u00e7a social, constru\u00edda ao longo de s\u00e9culos, consome-se em poucas d\u00e9cadas de milit\u00e2ncia partid\u00e1ria. N\u00e3o por acaso, as sociedades mais polarizadas s\u00e3o exatamente aquelas onde o respeito pelos pensadores e pela imprensa mais se deteriora. Como j\u00e1 discutimos em nossa an\u00e1lise sobre <a target=\"_blank\" rel=\"noopener\" href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=https:\/\/vistolidoeouvido.com.br\/o-que-as-escolas-deixaram-de-ensinar\">o que as escolas deixaram de ensinar<\/a>, a perda de refer\u00eancias cr\u00edticas compromete as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Urg\u00eancia como inimiga da lucidez no debate p\u00fablico<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O muro no meio do universo representa o mecanismo mental que classifica as pessoas antes de ouvi-las. O interlocutor vira representante do inimigo, e o debate transforma-se em guerra de trincheiras. O fil\u00f3sofo militante j\u00e1 n\u00e3o investiga a verdade, mas avalia a utilidade pol\u00edtica do argumento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria ingenuidade atribuir esse desvio apenas \u00e0 vaidade. Na maioria das vezes, o intelectual \u00e9 movido por uma sinceridade genu\u00edna, tornando o erro persistente. Contudo, a urg\u00eancia converte-se na grande inimiga da lucidez. Ela convence de que matizar \u00e9 trair e de que a complexidade \u00e9 um luxo desnecess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O papel distorcido de jornalistas e artistas na pol\u00edtica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o jornalista, o cantor e o ator militantes, o problema agrava-se porque a eles se confia a media\u00e7\u00e3o cultural. Quando o jornalista seleciona fatos por causa da ideologia ou o artista transforma o palco em palanque, ambos reduzem seu alcance \u00e0 fac\u00e7\u00e3o. Quem busca informa\u00e7\u00e3o ou beleza no teatro e no jornal descobre que participa de uma assembleia doutrin\u00e1ria. A arte torna-se panfleto, e a causa perde o poder de convencer quem pensa diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos dias atuais, as redes sociais aceleram esse processo. As plataformas premiam a declara\u00e7\u00e3o de pertencimento em detrimento da pondera\u00e7\u00e3o. O pensador que hesita perde seguidores, enquanto o extremista colhe curtidas imediatas. Resistir a esse incentivo perverso constitui, hoje, uma verdadeira forma silenciosa de coragem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o sobre a verdadeira independ\u00eancia do pensador<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conv\u00e9m distinguir o intelectual do cidad\u00e3o comum. Todo pensador tem o direito de votar, filiar-se e debater com paix\u00e3o em sua vida privada. O problema surge quando a obra transforma-se em instrumento permanente de uma fac\u00e7\u00e3o, abandonando o p\u00fablico inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdadeira independ\u00eancia exige dizer a verdade a qualquer poder e preservar o espa\u00e7o de di\u00e1logo entre advers\u00e1rios. Camus resumiu essa postura ao recusar ser v\u00edtima ou carrasco. Trata-se de uma posi\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda, mas indispens\u00e1vel para conservar a b\u00fassola, a r\u00e9gua e o compasso diante da complexidade do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 certo que o pensador que abra\u00e7a uma ideologia e passa a combater todos os divergentes comete um erro hist\u00f3rico do intelectual, pois acerta o alvo central, mas perde o entorno. Afinal, o mundo real \u00e9 sempre mais diverso do que o ponto escolhido. 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