{"id":28953,"date":"2026-10-22T02:26:00","date_gmt":"2026-10-22T05:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=28953"},"modified":"2026-10-27T09:25:07","modified_gmt":"2026-10-27T12:25:07","slug":"ideologias-politicas-inconsciente-psicologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/ideologias-politicas-inconsciente-psicologia\/","title":{"rendered":"O impacto psicol\u00f3gico das ideologias pol\u00edticas na sociedade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 de hoje que sabemos como as <strong>ideologias pol\u00edticas<\/strong> est\u00e3o ligadas diretamente ao nosso inconsciente coletivo. H\u00e1, de fato, elementos muito al\u00e9m da l\u00f3gica e da raz\u00e3o que orientam nossas escolhas cotidianas. Nossos traumas individuais e coletivos n\u00e3o desaparecem com o tempo. A fome, a guerra, a ditadura, a humilha\u00e7\u00e3o e a perda transformam-se em medos e lealdades. Esses sentimentos atravessam gera\u00e7\u00f5es e aparecem na urna ou na mesa de jantar. A pergunta que se imp\u00f5e \u00e9 inc\u00f4moda. Afinal, estamos agindo de forma consciente ou apenas repetindo padr\u00f5es herdados do passado? Ademais, podemos nos libertar dessa influ\u00eancia inconsciente ou estamos presos numa esp\u00e9cie de <em>matrix<\/em> preestabelecida?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a>VISTO, LIDO E OUVIDO<\/a><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) no Correio Braziliense<br>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">jornalistacircecunha@gmail.com<br><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vistolidoeouvid\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido\"><em>facebook.com\/vistolidoeouvido<\/em><\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">ID<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As <strong>ideologias pol\u00edticas<\/strong> t\u00eam o poder de moldar pensamentos e comportamentos. Al\u00e9m disso, muitas vezes elas fazem isso de modo extremamente sutil. Elas alimentam cren\u00e7as e esculpem em n\u00f3s uma identidade r\u00edgida. Consequentemente, essa identidade funciona como uma programa\u00e7\u00e3o para agir de uma forma ou de outra.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O indiv\u00edduo, ao se fundir a um grupo, entrega ao l\u00edder e \u00e0 bandeira o lugar de seu ideal de eu, e passa a sentir, pensar e odiar em coro.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 <strong>Sigmund Freud<\/strong>, m\u00e9dico neurologista e fundador da psican\u00e1lise, em <em>Psicologia das Massas e An\u00e1lise do Eu<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da mesma forma, em <em>O Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, Freud descreveu o \u201cnarcisismo das pequenas diferen\u00e7as\u201d. Quanto mais pr\u00f3ximos somos de algu\u00e9m, mais necessitamos de um inimigo que confirme quem somos. Portanto, a polariza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9, em boa medida, a encena\u00e7\u00e3o p\u00fablica desse mecanismo ps\u00edquico.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A proje\u00e7\u00e3o da sombra e as ideologias pol\u00edticas contempor\u00e2neas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carl Jung acrescentou a essa leitura a no\u00e7\u00e3o de sombra. Aquilo que n\u00e3o suportamos reconhecer em n\u00f3s mesmos n\u00e3o deixa de existir. Por exemplo, a agressividade, a inveja, a covardia e o desejo de poder continuam ativos. Assim, esses sentimentos s\u00e3o projetados diretamente no outro. O advers\u00e1rio passa a carregar o que h\u00e1 de pior em n\u00f3s. Por conseguinte, combat\u00ea-lo torna-se uma forma de nunca olhar para dentro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O maior risco das sociedades modernas n\u00e3o \u00e9 uma ideologia espec\u00edfica, mas a perda da capacidade de cada pessoa de se perceber como indiv\u00edduo.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 <strong>Carl Gustav Jung<\/strong>, psiquiatra e fundador da psicologia anal\u00edtica, em <em>Presente e Futuro<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os complexos funcionam como pequenas personalidades aut\u00f4nomas. Quando um debate nos faz ferver, raramente \u00e9 a discuss\u00e3o presente que fala. Pelo contr\u00e1rio, trata-se de uma ferida antiga que foi tocada. Em <em>O Eu e o Inconsciente<\/em>, Jung alertava para o perigo da mentalidade de massa. Nesse estado, o indiv\u00edduo se dissolve em slogans e abdica da pr\u00f3pria responsabilidade moral.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A individua\u00e7\u00e3o como resposta \u00e0s amarras das ideologias pol\u00edticas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que o processo de individua\u00e7\u00e3o se torna politicamente relevante. Individuar-se n\u00e3o significa isolar-se nem tornar-se apol\u00edtico. Trata-se, contudo, de tornar-se consciente dos pr\u00f3prios conte\u00fados inconscientes. Desse modo, integramos esses conte\u00fados para que eles deixem de nos governar \u00e0s cegas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jung acreditava que a religi\u00e3o era parte essencial desse processo. Trata-se da fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que nos liga ao sentido e ao transcendente. Quando essa dimens\u00e3o simb\u00f3lica \u00e9 negada, ela n\u00e3o desaparece simplesmente. Em vez disso, ela migra diretamente para a pol\u00edtica. Assim, partidos, l\u00edderes e causas passam a ocupar o lugar do sagrado. Da\u00ed surge o car\u00e1ter fan\u00e1tico de tantas disputas atuais. De certa forma, a individua\u00e7\u00e3o permite ao ser humano se libertar das amarras e da hipnose proporcionada pelas <strong>ideologias pol\u00edticas<\/strong>. Afinal, ela devolve aos s\u00edmbolos o seu lugar interior e retira das figuras p\u00fablicas um peso excessivo.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O m\u00e9todo da psican\u00e1lise diante da polariza\u00e7\u00e3o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A psican\u00e1lise oferece o m\u00e9todo adequado para essa travessia. Em an\u00e1lise, aprendemos a suspeitar da pr\u00f3pria certeza. Igualmente, aprendemos a perguntar de onde vem a intensidade de uma rea\u00e7\u00e3o e a que hist\u00f3ria ela pertence. Esse gesto, aparentemente pequeno, \u00e9 profundamente subversivo. Quem consegue dizer &#8220;sinto raiva, e preciso entender o que ela quer me dizer&#8221; j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 inteiramente capturado por ela.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Onde estava o Id, deve advir o Eu.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 <strong>Sigmund Freud<\/strong>, sobre a tomada de consci\u00eancia no processo anal\u00edtico.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aten\u00e7\u00e3o flutuante do analista e a associa\u00e7\u00e3o livre do paciente ajudam nesse processo. Al\u00e9m disso, a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos e a elabora\u00e7\u00e3o do luto transformam a repeti\u00e7\u00e3o em mem\u00f3ria. Trazido ao campo pr\u00e1tico, isso significa que onde havia reflexo condicionado pode haver decis\u00e3o consciente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O respeito \u00e0s diferen\u00e7as nas escolhas e ideologias pol\u00edticas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A recompensa dessa abertura mental \u00e9 o respeito real \u00e0s diferen\u00e7as. Quem reconhece a pr\u00f3pria sombra deixa de precisar de um bode expiat\u00f3rio. Do mesmo modo, quem conhece os pr\u00f3prios complexos desconfia do prazer de odiar. Quem integrou o medo j\u00e1 n\u00e3o o terceiriza a um salvador. Passa-se, ent\u00e3o, a enxergar no outro um ser humano com feridas e esperan\u00e7as parecidas com as nossas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o elimina o conflito, que \u00e9 inerente \u00e0 democracia. Elimina, contudo, a sua vers\u00e3o mais t\u00f3xica. Trata-se daquela em que a diverg\u00eancia de ideias \u00e9 vivida como amea\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia. \u00c9 dessa maturidade que nasce a harmonia poss\u00edvel numa sociedade plural. Essa harmonia n\u00e3o surge da uniformidade de opini\u00f5es, mas da capacidade de sustentar a tens\u00e3o sem destruir o outro.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>+-------------------------------------------------------------------------+\n| PASSO A PASSO PARA A LIBERTA\u00c7\u00c3O DAS MANIPULA\u00c7\u00d5ES IDEOL\u00d3GICAS          |\n+-------------------------------------------------------------------------+\n| 1. An\u00e1lise pessoal para examinar convic\u00e7\u00f5es e origens afetivas.         |\n| 2. Autoconhecimento atrav\u00e9s de sonhos, escrita e contato com a arte.   |\n| 3. Reflex\u00e3o pr\u00e9via sobre o que a indigna\u00e7\u00e3o revela sobre n\u00f3s mesmos.    |\n| 4. Escuta ativa do advers\u00e1rio sem preparar respostas defensivas.        |\n+-------------------------------------------------------------------------+\n<\/code><\/pre>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Como praticar a liberta\u00e7\u00e3o consciente no dia a dia<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas como se d\u00e1, na pr\u00e1tica, essa liberta\u00e7\u00e3o? Em primeiro lugar, ela ocorre pela an\u00e1lise pessoal. Ela oferece um espa\u00e7o seguro para examinar as origens afetivas de nossas convic\u00e7\u00f5es. Em segundo lugar, ocorre por pr\u00e1ticas de autoconhecimento valorizadas pela tradi\u00e7\u00e3o junguiana. Entre elas est\u00e3o o registro dos sonhos, a imagina\u00e7\u00e3o ativa, a escrita simb\u00f3lica e o contato com a arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em terceiro lugar, d\u00e1-se pelo h\u00e1bito de perguntar o que a indigna\u00e7\u00e3o revela sobre n\u00f3s antes de acusar o outro. H\u00e1 ainda um exerc\u00edcio simples e raramente praticado: escutar um advers\u00e1rio sem preparar a resposta. Trata-se de ouvir com a curiosidade de quem tenta compreender de qual medo aquela posi\u00e7\u00e3o foi feita. Quem faz isso descobre que muitos desacordos pol\u00edticos s\u00e3o desacordos sobre o que cada grupo teme perder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse movimento tem uma dimens\u00e3o coletiva que n\u00e3o deve ser subestimada. Povos que viveram viol\u00eancia pol\u00edtica carregam mem\u00f3rias n\u00e3o elaboradas. Por conseguinte, o que n\u00e3o \u00e9 elaborado tende a ser repetido. Sociedades tamb\u00e9m precisam de seus processos de luto e mem\u00f3ria. Cada indiv\u00edduo que se torna mais consciente contribui para que a hist\u00f3ria seja contada com menos idealiza\u00e7\u00e3o. Assim, as gera\u00e7\u00f5es seguintes herdam menos ressentimento.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O papel do ambiente digital na reprodu\u00e7\u00e3o de ideologias pol\u00edticas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ambiente digital agrava consideravelmente esse problema. Os algoritmos premiam a indigna\u00e7\u00e3o e aproximam apenas quem pensa igual. Al\u00e9m disso, eles exp\u00f5em cada pessoa a est\u00edmulos desenhados para ativar medo e raiva. Em termos junguianos, trata-se de uma m\u00e1quina de produzir proje\u00e7\u00f5es. A sombra de cada grupo \u00e9 continuamente exibida no outro. Consequentemente, o complexo \u00e9 acionado antes que a reflex\u00e3o possa intervir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhecer esse mecanismo \u00e9 o primeiro passo de liberdade. Quem percebe que o impulso de atacar nasce de um afeto ganha um intervalo vital. Nesse pequeno espa\u00e7o entre o est\u00edmulo e a resposta, a consci\u00eancia finalmente pode agir.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A \u00e9tica do di\u00e1logo frente \u00e0s ideologias pol\u00edticas<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta travessia tamb\u00e9m pede uma \u00e9tica rigorosa do di\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;O encontro de duas personalidades \u00e9 como o contato de duas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas: se houver alguma rea\u00e7\u00e3o, ambas transformam-se.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 <strong>Carl Gustav Jung<\/strong>, psic\u00f3logo e ensa\u00edsta.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dialogar de verdade \u00e9 aceitar o risco de ser alterado pelo outro. Isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel para quem n\u00e3o depende da vit\u00f3ria para se sentir inteiro. A polariza\u00e7\u00e3o prospera onde a identidade \u00e9 fr\u00e1gil e precisa de inimigos. Por outro lado, o di\u00e1logo prospera onde a identidade \u00e9 s\u00f3lida para tolerar a d\u00favida. A educa\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ganhariam muito se incorporassem esse aprendizado emocional aos seus conte\u00fados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda um conceito junguiano essencial: a fun\u00e7\u00e3o transcendente. Quando duas posi\u00e7\u00f5es opostas s\u00e3o mantidas em tens\u00e3o consciente, a psique produz um terceiro elemento. Trata-se de um s\u00edmbolo novo que reconcilia o que parecia irreconcili\u00e1vel. Politicamente, isso equivale a reconhecer que cada polo guarda uma verdade parcial. Seja o cuidado com a ordem, seja o anseio por mudan\u00e7a, ambas s\u00e3o necessidades leg\u00edtimas. Quem suporta essa tens\u00e3o deixa de ver o debate como guerra. N\u00e3o se trata de relativismo, mas de saber que nenhuma ideologia esgota a complexidade da vida.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Autoconhecimento e cidadania ativa<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conv\u00e9m, no entanto, evitar um otimismo ing\u00eanuo. A liberta\u00e7\u00e3o do inconsciente n\u00e3o \u00e9 um estado definitivo que se conserva para sempre. Jung falava de um processo que dura a vida inteira e jamais se completa. O pr\u00f3prio inconsciente continuar\u00e1 a produzir complexos e atra\u00e7\u00e3o coletiva. Tampouco se trata de um privil\u00e9gio individual dissociado das condi\u00e7\u00f5es concretas. Pobreza, viol\u00eancia e desinforma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m moldam escolhas. Portanto, nenhuma psicologia dispensa institui\u00e7\u00f5es justas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A individua\u00e7\u00e3o n\u00e3o substitui a pol\u00edtica; ela apenas qualifica quem a pratica. Um cidad\u00e3o consciente continuar\u00e1 tendo posi\u00e7\u00f5es e valores. Ele sustentar\u00e1 suas ideias por convic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o por compuls\u00e3o. Assim, poder\u00e1 rev\u00ea-las sem sentir que perde a si mesmo. Os <em>insights<\/em> que possibilitam a liberta\u00e7\u00e3o s\u00e3o dados pelo desenvolvimento da mente. Nenhum poder se sustenta apenas pela for\u00e7a. Ele depende da ades\u00e3o emocional de quem o obedece e de medos manipulados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;A paz social come\u00e7a, silenciosamente, na paz que cada um constr\u00f3i com as pr\u00f3prias sombras.&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 <strong>S\u00edntese da Psicologia Anal\u00edtica sobre a Vida P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma popula\u00e7\u00e3o que aprende a reconhecer essas engrenagens torna-se bem menos manipul\u00e1vel. Por isso, o trabalho interior \u00e9 tamb\u00e9m um ato c\u00edvico relevante. Cada pessoa que atravessa a pr\u00f3pria sombra reduz a quantidade de \u00f3dio dispon\u00edvel para mobiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel ao indiv\u00edduo se libertar das polariza\u00e7\u00f5es, entendendo liberta\u00e7\u00e3o como o fim da servid\u00e3o inconsciente. A psicologia anal\u00edtica n\u00e3o promete uma sociedade sem conflitos. Ela prop\u00f5e algo mais realista: pessoas capazes de olhar para dentro antes de apontar para fora. Num tempo em que tudo nos convida ao \u00f3dio, o gesto mais radical \u00e9 parar e perguntar quem em n\u00f3s est\u00e1 falando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que sabemos como as ideologias pol\u00edticas est\u00e3o ligadas diretamente ao nosso inconsciente coletivo. H\u00e1, de fato, elementos muito al\u00e9m da l\u00f3gica e da raz\u00e3o que orientam nossas escolhas cotidianas. Nossos traumas individuais e coletivos n\u00e3o desaparecem com o tempo. A fome, a guerra, a ditadura, a humilha\u00e7\u00e3o e a perda transformam-se em medos e lealdades. 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