{"id":28396,"date":"2026-09-10T07:07:29","date_gmt":"2026-09-10T10:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=28396"},"modified":"2026-09-10T07:07:30","modified_gmt":"2026-09-10T10:07:30","slug":"o-deserto-da-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-deserto-da-republica\/","title":{"rendered":"O Deserto da Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VISTO, LIDO E OUVIDO<br>Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) <br>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade <br><br>jornalistacircecunha@gmail.com <br><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vistolidoeouvid\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido\"><em>facebook.com\/vistolidoeouvido<\/em><\/a><br><br>\/<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-09-122017.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"669\" height=\"392\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-09-122017.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-28400\" style=\"aspect-ratio:1.7066608203451987;width:773px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-09-122017.png 669w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-09-122017-300x176.png 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-09-122017-550x322.png 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-09-122017-230x135.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 669px) 100vw, 669px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe um som caracter\u00edstico que precede o desmoronamento das rep\u00fablicas. \u00c9 o mesmo estalo surdo que podemos ouvir quando se aproxima o colapso final de uma constru\u00e7\u00e3o, momento em que a base e os pilares, por n\u00e3o suportarem mais a sobrecarga, desabam sobre si mesmos, soterrando primeiro os andares de baixo. Nos notici\u00e1rios, multiplicam-se express\u00f5es como a liquefa\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Falam tamb\u00e9m em anomia e rumo a uma desobedi\u00eancia civil, como se fossem categorias abstratas de um manual de ci\u00eancia pol\u00edtica. Na realidade, descrevem com precis\u00e3o desconfort\u00e1vel o retrato em preto e branco de um Estado que se afastou das leis e da \u00e9tica p\u00fablica , como se isso fosse poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Costume de casa vai \u00e0 pra\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos dias, o pa\u00eds assistiu a um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) determinar o afastamento preventivo da c\u00fapula da Pol\u00edcia Federal, sob a alega\u00e7\u00e3o de ter sido alvo de monitoramento sistem\u00e1tico pela pr\u00f3pria intelig\u00eancia policial. Esse monitoramento, segundo o relato do pr\u00f3prio ministro, teria sido encaminhado a um colega de Corte no \u00e2mbito de um inqu\u00e9rito em curso. Se verdadeira, a suspeita n\u00e3o \u00e9 um detalhe: \u00e9 o retrato acabado de um Estado cuja engrenagem de investiga\u00e7\u00e3o deixou de mirar o crime para mirar o pr\u00f3prio poder que deveria fiscaliz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Muralha ideol\u00f3gica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucos dias antes, outra decis\u00e3o monocr\u00e1tica alterava as regras para o julgamento de ministros da Corte, endurecendo qu\u00f3runs e restringindo legitimados \u2014 movimento que setores da advocacia e da pol\u00edtica leram como blindagem institucional. Em paralelo, cogitou-se a convoca\u00e7\u00e3o de um conselho constitucional adormecido havia d\u00e9cadas, mecanismo que, em tese, poderia abrir caminho ao estado de s\u00edtio ou de defesa. Nenhum desses fatos, isoladamente, destr\u00f3i uma rep\u00fablica. Juntos, contudo, formam um sobrepeso insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A perda da l\u00f3gica e a crise entre os Poderes<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A l\u00f3gica perdeu a pr\u00f3pria l\u00f3gica, e essa \u00e9 talvez a caracter\u00edstica mais desorientadora do momento atual. \u00c9 certo que o Judici\u00e1rio acumulou compet\u00eancias muito acima do que previa nossa Carta Magna de 1988. O Legislativo, entre a omiss\u00e3o e rea\u00e7\u00f5es tardias, observa tudo sem a responsabilidade que lhe \u00e9 exigida. N\u00e3o h\u00e1, na ger\u00eancia do Estado, uma resposta institucional capaz de reequilibrar o sistema de freios e contrapesos. O que se observa \u00e9 o &#8220;salve-se quem puder&#8221; diante de um pr\u00e9dio prestes a ruir. Para o Executivo, a sa\u00edda mais r\u00e1pida dessa crise tem sido via instrumentos de exce\u00e7\u00e3o, censura e diversionismo. Em uma realidade de normalidade, a reforma do Estado seria a primeira medida; na aus\u00eancia dela, sobrevive quem acha que possui mais poder<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Liberdade \u00e0 prova<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <strong>liquefa\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<\/strong> \u00e9 a perda progressiva da legitimidade institucional, transformada em areia l\u00edquida a escorrer entre os dedos. A descren\u00e7a e o desgaste da confian\u00e7a p\u00fablica avan\u00e7am, refletidos em pesquisas com recordes de desaprova\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea nos Tr\u00eas Poderes. Cria-se um deserto de incertezas alimentado por miragens enganosas e narrativas sobre golpes de todas as categorias, do cl\u00e1ssico uso da for\u00e7a \u00e0 eros\u00e3o silenciosa das liberdades.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Anomia institucional e desobedi\u00eancia civil<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A anomia de que tanto se fala n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de leis num pa\u00eds marcado pelo excesso regulat\u00f3rio, mas a n\u00e3o observ\u00e2ncia das normas por aqueles que ocupam o topo da pir\u00e2mide. Anomia \u00e9 a aus\u00eancia de um sentido comum sobre o que essas leis significam e a quem elas obrigam. \u00c9 o momento em que as regras deixam de ser b\u00fassola e passam a ser arma usada seletivamente. Nesse ambiente, a desobedi\u00eancia civil deixa de ser o gesto extremo de quem esgotou os canais institucionais e passa a ser tenta\u00e7\u00e3o cotidiana de cidad\u00e3os e autoridades que escolhem a leitura da lei que melhor lhes conv\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Excepcionalidades<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00faltima d\u00e9cada brasileira consolidou-se como uma sucess\u00e3o de excepcionalidades: cada crise resolvida com a derrubada de garantias, cada inc\u00eandio apagado \u00e0 custa da estrutura necess\u00e1ria no inc\u00eandio seguinte. A opera\u00e7\u00e3o anticorrup\u00e7\u00e3o que se tornou hegem\u00f4nica fragilizou a pol\u00edtica em nome da moralidade; a perman\u00eancia no poder a qualquer custo fragilizou as institui\u00e7\u00f5es em nome da governabilidade; e a resposta judicial a essa fragiliza\u00e7\u00e3o acumulou poderes em nome da defesa democr\u00e1tica. Tratar o excepcional como m\u00e9todo impede o retorno ao espa\u00e7o institucional original.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O mito do salvador e o papel da sociedade civil<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse quadro, a tenta\u00e7\u00e3o mais perigosa \u00e9 esperar por um salvador. A hist\u00f3ria recente do pa\u00eds \u00e9 a sucess\u00e3o de apostas messi\u00e2nicas: o juiz, o general, o presidente ou o ministro que resolveria o problema sozinho. Cada aposta produziu um al\u00edvio tempor\u00e1rio e um novo desequil\u00edbrio a corrigir. Uma rep\u00fablica recomp\u00f5e-se pela reconstru\u00e7\u00e3o paciente dos mecanismos de controle e pela transpar\u00eancia, trabalho que n\u00e3o rende manchetes imediatas, mas det\u00e9m o avan\u00e7o ao deserto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Impr\u00f3prio \u00e0 paz<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 absolvi\u00e7\u00e3o para nenhum dos lados, pois a crise \u00e9 estrutural. Institui\u00e7\u00f5es que se protegem mutuamente da fiscaliza\u00e7\u00e3o deixam de ser republicanas e passam a ser centros de poder administrando a pr\u00f3pria impunidade. Essa eros\u00e3o atravessa a economia na forma de pr\u00eamio de risco, atinge a vida cotidiana do cidad\u00e3o e empobrece a linguagem p\u00fablica com um vocabul\u00e1rio de guerra como &#8220;inimigo&#8221;, &#8220;trai\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;golpe&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nosso papel<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cabe destacar o papel da sociedade civil, da imprensa livre e de institui\u00e7\u00f5es como a OAB, universidades e ordens profissionais. Em democracias saud\u00e1veis, atuam como amortecedores entre o cidad\u00e3o e o embate dos Poderes. Quando parte dessas entidades \u00e9 capturada pela polariza\u00e7\u00e3o e outra parte assiste paralisada, sobra a elas um papel de media\u00e7\u00e3o emergencial enquanto as inst\u00e2ncias constitu\u00eddas redefinem sua pr\u00f3pria raz\u00e3o de existir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A frase que foi pronunciada<\/h2>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Votar em Lula n\u00e3o significa ser de esquerda, de direita, de baixo, de tr\u00e1s ou de cima. Significa uma toler\u00e2ncia moralmente insustent\u00e1vel com o crime e o criminoso.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ives Gandra Martins<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a\u00ed que a reuni\u00e3o transformou-se numa solenidade usando da palavra o advogado da defesa Newton Antunes, e, a seguir, o promotor Sebasti\u00e3o Barbosa. Foi uma solenidade de grande civismo. Publicada em 26.05.1962<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDOColuna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com instagram.com\/vistolidoeouvidofacebook.com\/vistolidoeouvido \/ Existe um som caracter\u00edstico que precede o desmoronamento das rep\u00fablicas. \u00c9 o mesmo estalo surdo que podemos ouvir quando se aproxima o colapso final de uma constru\u00e7\u00e3o, momento em que a base e os pilares, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[4320,2337,2338,2339,4322,4321,114,4323,2340,4319,4324],"class_list":["post-28396","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-integra-integra","tag-anomia","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-crise-entre-os-poderes","tag-desobediencia-civil","tag-historiadebrasilia","tag-liquefacao-da-republica","tag-mamfil-2","tag-reforma-do-estado","tag-freios-e-contrapesos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28396","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28396"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28396\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28401,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28396\/revisions\/28401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28396"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28396"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28396"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}