{"id":28179,"date":"2026-09-05T00:24:00","date_gmt":"2026-09-05T03:24:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=28179"},"modified":"2026-09-06T13:10:03","modified_gmt":"2026-09-06T16:10:03","slug":"provas-digitais-no-processo-penal-o-celular-como-testemunha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/provas-digitais-no-processo-penal-o-celular-como-testemunha\/","title":{"rendered":"Provas Digitais no Processo Penal: O Celular como Testemunha"},"content":{"rendered":"\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">VISTO, LIDO E OUVIDO<br>Coluna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) <br>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade <br><br>jornalistacircecunha@gmail.com <br><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/vistolidoeouvid\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><br><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido\"><em>facebook.com\/vistolidoeouvido<\/em><\/a><\/pre>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-06-100726.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"418\" height=\"619\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-06-100726.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-28184\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-06-100726.png 418w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-06-100726-203x300.png 203w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/09\/Captura-de-tela-2026-09-06-100726-230x341.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 418px) 100vw, 418px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">CIArce<\/h6>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um fen\u00f4meno silencioso que, nos \u00faltimos anos, mudou a engrenagem da Justi\u00e7a brasileira mais do que qualquer reforma legislativa: o telefone celular deixou de ser um simples instrumento de comunica\u00e7\u00e3o para se tornar o principal reposit\u00f3rio de provas contra&nbsp; ou a favor&nbsp; de quem o carrega no bolso. O que antes se dizia baixinho, ao p\u00e9 do ouvido, sem deixar vest\u00edgio, hoje \u00e9 digitado, fotografado, gravado em \u00e1udio, sincronizado em nuvem e replicado em m\u00faltiplos dispositivos. A conversa que um dia se perdia no ar agora fica registrada, com data, hora, geolocaliza\u00e7\u00e3o e, n\u00e3o raro, com a identidade de quem apertou &#8220;enviar&#8221;. Estamos, de fato, diante de uma nova esp\u00e9cie de personagem processual: o rastro digital, essa testemunha muda que n\u00e3o erra o depoimento porque n\u00e3o depende de mem\u00f3ria, apenas de per\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TELEM\u00c1TICA<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A criptografia, apontada por muitos como escudo intranspon\u00edvel, revelou-se antes um obst\u00e1culo tempor\u00e1rio do que uma barreira definitiva. Backups autom\u00e1ticos em nuvem, metadados de aplicativos, c\u00f3pias sincronizadas entre aparelhos, extra\u00e7\u00f5es periciais de chips e mem\u00f3rias internas: a tecnologia que promete sigilo ao usu\u00e1rio comum \u00e9, paradoxalmente, a mesma que abastece bancos de dados forenses cada vez mais sofisticados. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a per\u00edcia digital se tornou, neste ano, um dos temas mais discutidos no direito processual penal brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PRINT<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levantamentos recentes mostram que decis\u00f5es colegiadas do Superior Tribunal de Justi\u00e7a envolvendo quebra da cadeia de cust\u00f3dia de provas digitais saltaram de um caso isolado, em 2017, para mais de cento e sessenta em 2025 hoje, cerca de um quarto de todas as decis\u00f5es sobre cadeia de cust\u00f3dia trata exatamente desse tipo de evid\u00eancia. O dado \u00e9 o retrato de um pa\u00eds cuja litig\u00e2ncia penal migrou, em poucos anos, do papel para o print de tela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BIT BYTES<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o Brasil de hoje oferece exemplos concretos, n\u00e3o hipot\u00e9ticos, dessa mudan\u00e7a de paradigma. A Opera\u00e7\u00e3o Sisamnes, que investiga um suposto esquema de venda de decis\u00f5es e vazamento de informa\u00e7\u00f5es sigilosas dentro do pr\u00f3prio Superior Tribunal de Justi\u00e7a, nasceu e cresceu a partir de mensagens trocadas entre um prefeito, advogados e um lobista que atuava nos bastidores dos tribunais&nbsp; mensagens curtas, muitas vezes codificadas, mas suficientes para a Pol\u00edcia Federal reconstruir, passo a passo, um circuito de influ\u00eancia que teria alcan\u00e7ado gabinetes de ministros. A investiga\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou justamente porque os dados de celulares e de armazenamento em nuvem dos envolvidos puderam ser periciados, revelando contatos, cronogramas e movimenta\u00e7\u00f5es que, sem o registro eletr\u00f4nico, jamais poderiam ser comprovados com o mesmo grau de precis\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que, pela primeira vez em muito tempo, um ministro de tribunal superior se viu formalmente investigado a partir do mesmo tipo de prova que &nbsp;costuma incriminar r\u00e9us comuns: a conversa de telefone.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TESTEMUNHAS MODERNAS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse cen\u00e1rio justifica, em parte, a sensa\u00e7\u00e3o de que a internet nivelou os personagens do poder. Autoridades que por d\u00e9cadas se resguardaram atr\u00e1s do sigilo de suas conversas presenciais hoje enfrentam a mesma vulnerabilidade do cidad\u00e3o comum: a de deixar impress\u00f5es digitais em cada mensagem enviada. Se antes o acesso \u00e0 intimidade de um poderoso dependia de escutas ambientais complexas, autoriza\u00e7\u00f5es judiciais fr\u00e1geis e opera\u00e7\u00f5es arriscadas, hoje basta a apreens\u00e3o de um aparelho e o trabalho paciente de um perito para reconstituir meses, \u00e0s vezes anos, de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 esse potencial equalizador que alimenta a expectativa talvez otimista, mas n\u00e3o infundada de que investiga\u00e7\u00f5es em curso possam, enfim, alcan\u00e7ar n\u00edveis de poder historicamente blindados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">TESTEMUNHAS MODERNAS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil vive, neste exato momento, o teste pr\u00e1tico dessa equa\u00e7\u00e3o. Investiga\u00e7\u00f5es que atingem simultaneamente o sistema financeiro, o Judici\u00e1rio e remanescentes de um plano de golpe t\u00eam em comum o mesmo tipo de lastro probat\u00f3rio: mensagens, metadados, backups. Se a Justi\u00e7a souber usar esse material com t\u00e9cnica e rigor, o pa\u00eds poder\u00e1, de fato, testemunhar algo raro em sua hist\u00f3ria republicana a responsabiliza\u00e7\u00e3o de setores que, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, pareciam inalcan\u00e7\u00e1veis. Se, ao contr\u00e1rio, a pressa e o excesso prevalecerem sobre o m\u00e9todo, o mesmo material que promete revelar a verdade pode se tornar o motivo de sua pr\u00f3pria queda nos tribunais. Entre esses dois caminhos, o Brasil aprende, em tempo real, que a era digital n\u00e3o apenas trouxe novas testemunhas para os processos trouxe tamb\u00e9m novas responsabilidades para quem investiga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREIEM OS CAVALOS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria, no entanto, ing\u00eanuo tratar essa nova era da prova digital como uma solu\u00e7\u00e3o simples e sem custos. Os pr\u00f3prios tribunais brasileiros t\u00eam alertado, com raz\u00e3o, para os riscos de um entusiasmo probat\u00f3rio sem freios. Extra\u00e7\u00f5es feitas sem per\u00edcia t\u00e9cnica adequada, acesso a conte\u00fado de celular antes da preserva\u00e7\u00e3o da cadeia de cust\u00f3dia, relat\u00f3rios de intelig\u00eancia financeira produzidos sem informa\u00e7\u00e3o clara da fonte, den\u00fancias an\u00f4nimas travestidas de prova t\u00e9cnica&nbsp; tudo isso j\u00e1 levou o Superior Tribunal de Justi\u00e7a a anular provas e a exigir rigor redobrado na forma de obten\u00e7\u00e3o desses dados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LIXO DE VALOR<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mesmo padr\u00e3o se repete em outras frentes que hoje ocupam as manchetes. A apura\u00e7\u00e3o de fraudes banc\u00e1rias que atinge o Banco Master, sob a relatoria de um ministro do Supremo Tribunal Federal, avan\u00e7a com sucessivas prorroga\u00e7\u00f5es de inqu\u00e9rito justamente para dar tempo \u00e0 per\u00edcia de dados. A investiga\u00e7\u00e3o sobre o chamado plano de golpe de 2022 tamb\u00e9m se apoiou fortemente em mensagens trocadas entre militares, assessores e pol\u00edticos, extra\u00eddas de aparelhos apreendidos. Em todos esses casos, o enredo se repete: n\u00e3o foi a dela\u00e7\u00e3o, nem a testemunha ocular, mas o hist\u00f3rico de conversas muitas vezes j\u00e1 apagadas pelo usu\u00e1rio, mas recuperadas pela per\u00edcia&nbsp; que deu concretude \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es. O celular, de fato, entrega tudo, ou quase tudo, a quem sabe perguntar da forma tecnicamente correta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">EXPERTS<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, portanto, duas verdades que convivem nesta nova paisagem jur\u00eddica brasileira. A primeira \u00e9 que a onipresen\u00e7a dos dispositivos eletr\u00f4nicos tornou muito mais dif\u00edcil esconder um esquema de corrup\u00e7\u00e3o, um conluio ou um plano de ruptura institucional: o castelo de cartas constru\u00eddo em conversas privadas hoje se sustenta sobre um material que, mais cedo ou mais tarde, tende a se tornar prova nos autos. A segunda \u00e9 que essa mesma prova, por sua complexidade t\u00e9cnica, exige institui\u00e7\u00f5es preparadas, peritos capacitados e um Judici\u00e1rio atento aos limites da lei sob pena de transformar um instrumento poderoso de responsabiliza\u00e7\u00e3o em fonte de nulidades, atrasos e, pior, de persegui\u00e7\u00f5es mal fundamentadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVamos tomar um cafezinho juntos!\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Get\u00falio Vargas quando queria sigilo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mais bela superquadra de Bras\u00edlia, ningu\u00e9m pode negar, \u00e9 a do IAPB. E principalmente por causa dos jardins. Pois bem. Um dos homens que fez aqu\u00eales jardins, depois de nos deliciar com seu trabalho, acaba de ser demitido.(Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDOColuna criada em 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com instagram.com\/vistolidoeouvidofacebook.com\/vistolidoeouvido CIArce H\u00e1 um fen\u00f4meno silencioso que, nos \u00faltimos anos, mudou a engrenagem da Justi\u00e7a brasileira mais do que qualquer reforma legislativa: o telefone celular deixou de ser um simples instrumento de comunica\u00e7\u00e3o para se tornar o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[4309,2337,2338,4308,2339,114,2340,4307,4310],"class_list":["post-28179","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-integra-integra","tag-custodia-de-provas-digitais","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-cadeia","tag-circecunha-2","tag-historiadebrasilia","tag-mamfil-2","tag-pericia-em-celulares","tag-processo-penal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28179"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28179\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28186,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28179\/revisions\/28186"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}