{"id":27638,"date":"2026-08-05T01:44:14","date_gmt":"2026-08-05T04:44:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27638"},"modified":"2026-08-05T14:11:22","modified_gmt":"2026-08-05T17:11:22","slug":"saudades-do-filosofo-de-mondubim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/saudades-do-filosofo-de-mondubim\/","title":{"rendered":"Saudades do fil\u00f3sofo de Mondubim"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO<br \/>\n*Criada por Ari Cunha DESDE 1960<\/p>\n<p>hoje<\/p>\n<p>Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade<\/p>\n<p>jornalistacircecunha@gmail.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ser fil\u00f3sofo, hoje, \u00e9 um ato de resist\u00eancia. Num mundo polarizado, ruidoso e saturado de opini\u00f5es instant\u00e2neas, o exerc\u00edcio do pensamento filos\u00f3fico tornou-se uma atividade quase subversiva. A reflex\u00e3o, que exige sil\u00eancio, tempo e profundidade, parece incompat\u00edvel com a velocidade dos dias modernos e com a superficialidade que domina o debate p\u00fablico. O fil\u00f3sofo contempor\u00e2neo, portanto, encontra-se numa encruzilhada: se cede \u00e0 press\u00e3o ideol\u00f3gica, perde sua autonomia; se se isola completamente, corre o risco de ser ignorado. A filosofia, desde suas origens, sempre foi uma arte de desconfiar de duvidar das verdades prontas e de questionar o que parece evidente. O verdadeiro fil\u00f3sofo n\u00e3o busca aplauso nem pertencimento: busca a verdade, mesmo que ela doa, mesmo que ela o condene ao sil\u00eancio ou ao ex\u00edlio moral. O Brasil, em sua breve tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, conheceu pensadores que enfrentaram esse desafio. Benedito Nunes, por exemplo, soube pensar a partir da Amaz\u00f4nia, elaborando uma filosofia enraizada na realidade brasileira, mas aberta ao di\u00e1logo universal. Gerd Bornheim, com sua cr\u00edtica \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e pol\u00edtica, mostrou como o pensamento pode ser ferramenta de liberta\u00e7\u00e3o. Vil\u00e9m Flusser, em seu ex\u00edlio, antecipou as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e o poder das imagens na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia contempor\u00e2nea um pensador \u00e0 frente de seu tempo, que jamais se deixou capturar por dogmas. H\u00e1 tamb\u00e9m o exemplo de Marilena Chau\u00ed, que, embora marcada por sua proximidade com a vida pol\u00edtica, sempre defendeu a autonomia da filosofia como espa\u00e7o de cr\u00edtica e n\u00e3o de propaganda. Rubem Alves, fil\u00f3sofo-poeta, mostrou que pensar \u00e9 tamb\u00e9m um ato de amor e coragem: pensar \u00e9 desobedecer suavemente, \u00e9 abrir janelas num mundo de muros.<br \/>\nEsses nomes, t\u00e3o distintos, t\u00eam algo em comum: n\u00e3o se deixaram prender pela moda intelectual ou pela conveni\u00eancia pol\u00edtica. Em tempos em que a filosofia \u00e9 tratada como ornamento acad\u00eamico ou mero discurso moral, lembrar-se da coragem desses pensadores \u00e9 um gesto de lucidez. O verdadeiro fil\u00f3sofo, como um eremita do pensamento, vive no limite entre o isolamento e o engajamento, entre o sil\u00eancio e a palavra. Ele fala ao mundo sem ser do mundo. A filosofia continua sendo indispens\u00e1vel. \u00c9 ela que ensina o homem a compreender a si mesmo, a reconhecer seus limites e a transformar a realidade sem ser tragado por ela. Em meio ao barulho das redes, \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o das verdades e ao dom\u00ednio das emo\u00e7\u00f5es sobre a raz\u00e3o, o pensamento filos\u00f3fico \u00e9 o \u00faltimo reduto da liberdade interior. Que o fil\u00f3sofo, mesmo solit\u00e1rio, continue a ser o guardi\u00e3o da lucidez humana esse bem raro e essencial, sem o qual a civiliza\u00e7\u00e3o se torna apenas um reflexo de suas pr\u00f3prias sombras.<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o entre filosofia e pol\u00edtica \u00e9 antiga, profunda e, ao mesmo tempo, marcada por tens\u00f5es inevit\u00e1veis. Se a filosofia \u00e9 o espa\u00e7o do pensamento e da reflex\u00e3o, a pol\u00edtica \u00e9 o espa\u00e7o da a\u00e7\u00e3o e uma n\u00e3o sobrevive sem a outra. A filosofia, ao longo da hist\u00f3ria, ofereceu \u00e0 pol\u00edtica os fundamentos \u00e9ticos e racionais para o exerc\u00edcio do poder. Foi ela que ensinou que governar n\u00e3o \u00e9 apenas administrar, mas buscar o bem comum. Plat\u00e3o imaginou o governante ideal como o \u201crei-fil\u00f3sofo\u201d, aquele capaz de enxergar al\u00e9m das apar\u00eancias e conduzir o povo pela luz da raz\u00e3o. Arist\u00f3teles, por sua vez, mostrou que a pol\u00edtica \u00e9 uma extens\u00e3o da \u00e9tica: o homem \u00e9 um ser pol\u00edtico porque s\u00f3 se realiza plenamente na vida coletiva. Mas se a filosofia oferece \u00e0 pol\u00edtica o senso de justi\u00e7a, a pol\u00edtica devolve \u00e0 filosofia a experi\u00eancia concreta do real. \u00c9 no confronto com as desigualdades, com as paix\u00f5es humanas e com os conflitos de poder que o pensamento filos\u00f3fico \u00e9 testado.<br \/>\nSem o contato com a vida p\u00fablica, a filosofia corre o risco de se tornar est\u00e9ril, confinada \u00e0 torre de marfim das universidades. Essa troca \u00e9 vital: a pol\u00edtica precisa da filosofia para n\u00e3o se transformar em puro pragmatismo, e a filosofia precisa da pol\u00edtica para n\u00e3o se perder em abstra\u00e7\u00f5es. No Brasil, pensadores como Miguel Reale procuraram unir esses dois campos, desenvolvendo uma filosofia do direito e da sociedade fundada na ideia de pessoa e de valor. Paulo Arantes e Marilena Chau\u00ed, cada um \u00e0 sua maneira, refletem sobre como o pensamento cr\u00edtico pode revelar as contradi\u00e7\u00f5es da vida pol\u00edtica e social. E, antes deles, Alceu Amoroso Lima j\u00e1 advertia que toda pol\u00edtica sem base filos\u00f3fica tende ao despotismo ou \u00e0 demagogia. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a filosofia d\u00e1 \u00e0 pol\u00edtica a b\u00fassola moral; a pol\u00edtica d\u00e1 \u00e0 filosofia o ch\u00e3o da realidade. Ambas se educam mutuamente, e \u00e9 nesse di\u00e1logo tenso, mas fecundo que a humanidade encontra o caminho da sabedoria e da liberdade.<\/p>\n<p>A frase que foi pronunciada:<\/p>\n<p>\u201cA liberdade \u00e9 o \u00fanico objetivo que vale a pena na vida. Ela \u00e9 conquistada ao ignorarmos as coisas que est\u00e3o al\u00e9m do nosso controle.\u201d<br \/>\n\u2015 Epicteto<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nJogar futebol na It\u00e1lia, na Fran\u00e7a, no Congo ou na China, n\u00e3o acarreta a perda da nacionalidade. Mas se um brasileiro, volunt\u00e0riamente, sem nenhuma coa\u00e7\u00e3o de pa\u00eds estrangeiro, pratica um ato, qualquer que seja, demonstrando a sua prefer\u00eancia por outra nacionalidade, est\u00e1 dando causa expressa para que seja declarada a perda da sua nacionalidade brasileira. (Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com &nbsp; Ser fil\u00f3sofo, hoje, \u00e9 um ato de resist\u00eancia. 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