{"id":27634,"date":"2026-08-06T00:25:15","date_gmt":"2026-08-06T03:25:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27634"},"modified":"2026-08-14T20:26:22","modified_gmt":"2026-08-14T23:26:22","slug":"escola-sem-arte-a-sociedade-sem-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/escola-sem-arte-a-sociedade-sem-alma\/","title":{"rendered":"Escola sem arte, a sociedade sem alma"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO<br \/>\n*Criada por Ari Cunha DESDE 1960<\/p>\n<p>hoje<\/p>\n<p>Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade<\/p>\n<p>jornalistacircecunha@gmail.com<\/p>\n<p>Roger Scruton (1944-2020), autor de mais de 50 livros sobre est\u00e9tica, filosofia e artes, insistia numa ideia que, em tempos de ensino cada vez mais voltado apenas para indicadores estat\u00edsticos e resultados imediatos, parece soar quase deslocada: a de que o ensino das disciplinas art\u00edsticas constitui um dos alicerces mais essenciais da forma\u00e7\u00e3o humana. Nas escolas brasileiras, por\u00e9m, essa convic\u00e7\u00e3o parece ter sido relegada a um esquecimento progressivo e preocupante, como se a arte fosse um item dispens\u00e1vel numa lista de prioridades cada vez mais estreita. Para o fil\u00f3sofo brit\u00e2nico, a arte n\u00e3o representa um luxo reservado \u00e0s elites, tampouco um passatempo ornamental destinado a preencher hor\u00e1rios vagos dos curr\u00edculos escolares. Trata-se, em sua vis\u00e3o, de um dos instrumentos mais poderosos j\u00e1 desenvolvidos pela civiliza\u00e7\u00e3o para formar seres humanos capazes de distinguir o belo do grotesco, o verdadeiro do falso, o elevado do vulgar. Em outras palavras, a arte n\u00e3o apenas educa o olhar \u2014 ela educa o car\u00e1ter, molda a sensibilidade e amplia a capacidade de julgamento moral.<br \/>\nEssa compreens\u00e3o esteve presente durante s\u00e9culos nas principais tradi\u00e7\u00f5es educacionais do Ocidente. Da Gr\u00e9cia antiga ao Renascimento italiano, passando pelas universidades medievais e pelas grandes escolas europeias dos s\u00e9culos XVIII e XIX, m\u00fasica, pintura, literatura, teatro e arquitetura jamais foram consideradas disciplinas secund\u00e1rias. Naquele per\u00edodo, as artes eram vistas como parte indispens\u00e1vel da forma\u00e7\u00e3o intelectual e moral dos indiv\u00edduos, t\u00e3o relevantes quanto a l\u00f3gica, a ret\u00f3rica ou a geometria. A ideia subjacente era simples e ao mesmo tempo profunda: quem aprende a contemplar a beleza dificilmente permanece indiferente ao caos, \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o que a cercam. No Brasil, ocorreu exatamente o movimento inverso. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o ensino das artes foi sendo lentamente esvaziado, reduzido a uma atividade complementar, frequentemente ministrada sem estrutura adequada, sem professores especializados e sem continuidade pedag\u00f3gica. Em muitas escolas p\u00fablicas, a disciplina praticamente desapareceu do cotidiano dos estudantes, substitu\u00edda por conte\u00fados considerados mais &#8220;\u00fateis&#8221; para avalia\u00e7\u00f5es oficiais e para a prepara\u00e7\u00e3o de provas padronizadas. O resultado \u00e9 que uma gera\u00e7\u00e3o inteira cresce sem qualquer contato sistem\u00e1tico com a m\u00fasica erudita, a pintura cl\u00e1ssica, a escultura, a poesia, a hist\u00f3ria da arte ou mesmo com a rica produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica nacional, um patrim\u00f4nio que deveria ser motivo de orgulho e n\u00e3o de desconhecimento generalizado.<br \/>\nOs n\u00fameros ajudam a compreender esse cen\u00e1rio preocupante. O Brasil figura h\u00e1 anos entre os pa\u00edses com pior desempenho nas avalia\u00e7\u00f5es internacionais do Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Estudantes (PISA), da OCDE, especialmente em leitura, matem\u00e1tica e ci\u00eancias. Embora essas provas n\u00e3o me\u00e7am diretamente a educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, revelam uma dificuldade mais ampla na forma\u00e7\u00e3o cultural e cognitiva dos jovens, um sintoma de algo mais profundo do que meras lacunas t\u00e9cnicas. Paralelamente, estudos mostram que o acesso a museus, concertos, bibliotecas e teatros permanece extremamente restrito para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Em muitos munic\u00edpios brasileiros sequer existe um teatro em funcionamento, enquanto in\u00fameras bibliotecas p\u00fablicas operam de forma prec\u00e1ria, com acervos desatualizados, ou permanecem simplesmente fechadas por falta de recursos e de vontade pol\u00edtica.<br \/>\nScruton chamava aten\u00e7\u00e3o para a experi\u00eancia est\u00e9tica que desperta no indiv\u00edduo um sentimento de pertencimento \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de continuidade hist\u00f3rica que dificilmente pode ser alcan\u00e7ada por outros meios. Ao contemplar uma sinfonia de Bach, uma pintura de Rembrandt, uma catedral g\u00f3tica ou um poema de Cam\u00f5es, o estudante percebe que faz parte de uma longa cadeia de produ\u00e7\u00e3o cultural que o antecede e que continuar\u00e1 ap\u00f3s ele. Desenvolve, assim, respeito pelo legado recebido e compreende que tamb\u00e9m possui responsabilidade diante das futuras gera\u00e7\u00f5es uma esp\u00e9cie de contrato silencioso entre passado, presente e futuro. Esse processo de forma\u00e7\u00e3o parece estar sendo interrompido em ritmo acelerado. O ambiente cultural contempor\u00e2neo, marcado pela velocidade das redes sociais, pela predomin\u00e2ncia da imagem instant\u00e2nea e pela substitui\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o pausada por um entretenimento permanente e fragmentado, reduziu drasticamente o tempo destinado \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. N\u00e3o surpreende, nesse contexto, que aumentem os epis\u00f3dios de viol\u00eancia escolar, intoler\u00e2ncia, incapacidade de di\u00e1logo e dificuldades emocionais entre adolescentes. Evidentemente, tais problemas possuem m\u00faltiplas causas econ\u00f4micas, familiares e sociais, entre outras, e seria simplista atribu\u00ed-los apenas ao esvaziamento das artes. Entretanto, a aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o est\u00e9tica contribui, de maneira silenciosa mas persistente, para empobrecer a vida interior dos jovens. Quem nunca aprendeu a se emocionar diante da beleza frequentemente encontra maior dificuldade para desenvolver empatia, autocontrole e sensibilidade diante do sofrimento alheio.<\/p>\n<p>A frase que foi pronunciada:<br \/>\n\u201cQue aqui se respire sempre liberdade e cria\u00e7\u00e3o, e que a Arte e Cultura, a beleza e a intelig\u00eancia, respeitando integralmente o que somos e o que fomos, abram as portas para os amanh\u00e3s de nossa terra.\u201d<br \/>\nEx- presidente Jos\u00e9 Sarney quando criou a Lei de Incentivo a Cultura<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nMazzola e Sormani somente poder\u00e3o jogar pela It\u00e1lia se forem italianos e \u00e9 nessa qualidade, de ac\u00f4rdo com as leis italianas, que v\u00e3o participar da Copa do Mundo (mesmo porque, se se declararem brasileiros n\u00e3o poder\u00e3o integrar a sele\u00e7\u00e3o de nenhum outro pa\u00eds, a n\u00e3o ser a do Brasil). (Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com Roger Scruton (1944-2020), autor de mais de 50 livros sobre est\u00e9tica, filosofia e artes, insistia numa ideia que, em tempos de ensino cada vez mais voltado apenas para indicadores estat\u00edsticos e resultados imediatos, parece soar quase deslocada: a de que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-27634","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-integra-integra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27634","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27634"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27634\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27670,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27634\/revisions\/27670"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27634"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27634"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27634"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}