{"id":27628,"date":"2026-08-08T04:32:00","date_gmt":"2026-08-08T07:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27628"},"modified":"2026-08-14T20:31:35","modified_gmt":"2026-08-14T23:31:35","slug":"a-diplomacia-capturada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/a-diplomacia-capturada\/","title":{"rendered":"A diplomacia capturada"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO<br \/>\n*Criada por Ari Cunha DESDE 1960<\/p>\n<p>hoje<\/p>\n<p>Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade<\/p>\n<p>jornalistacircecunha@gmail.com<\/p>\n<p>Poucas institui\u00e7\u00f5es do Estado brasileiro constru\u00edram, ao longo de sua hist\u00f3ria, um patrim\u00f4nio de credibilidade compar\u00e1vel ao do Itamaraty. Durante mais de um s\u00e9culo, a diplomacia nacional foi reconhecida por uma rara combina\u00e7\u00e3o de profissionalismo, continuidade e capacidade de dialogar com governos de todas as orienta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. Presidentes entravam e sa\u00edam do Pal\u00e1cio do Planalto, crises internacionais surgiam e desapareciam, mas permanecia a percep\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edtica externa brasileira obedecia, acima de tudo, aos interesses permanentes do Estado. Essa tradi\u00e7\u00e3o, constru\u00edda pacientemente por sucessivas gera\u00e7\u00f5es de diplomatas, parece hoje submetida a uma press\u00e3o crescente provocada pela politiza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica extremada que atualmente domina o pa\u00eds. As recentes tens\u00f5es entre Brasil e Estados Unidos ilustram de forma eloquente todo esse processo. Em poucas semanas assistiu-se a uma sucess\u00e3o de declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas incomuns entre dois pa\u00edses que mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas h\u00e1 mais de duzentos anos. Houve cr\u00edticas do secret\u00e1rio de Estado americano Marco Rubio, respostas do governo brasileiro, manifesta\u00e7\u00f5es do ministro Mauro Vieira e um artigo assinado pelo presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva na imprensa americana defendendo uma vis\u00e3o totalmente obtusa sobre o relacionamento bilateral.<br \/>\nA discuss\u00e3o, que tradicionalmente ocorreria nos canais reservados da diplomacia, passou a ocupar manchetes internacionais, transformando diverg\u00eancias pol\u00edticas em espet\u00e1culo p\u00fablico Quem chamou aten\u00e7\u00e3o para esse fen\u00f4meno foi justamente algu\u00e9m que conhece por dentro a m\u00e1quina diplom\u00e1tica brasileira. Ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Com\u00e9rcio Exterior, Rubens Barbosa afirmou que a rela\u00e7\u00e3o bilateral entrou numa escalada in\u00e9dita de confronta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e alertou para os riscos da excessiva politiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es exteriores. Para Barbosa, quando a diplomacia deixa de atuar como pol\u00edtica de Estado e passa a refletir disputas ideol\u00f3gicas dom\u00e9sticas, o pa\u00eds perde capacidade de negocia\u00e7\u00e3o e reduz seu espa\u00e7o de influ\u00eancia internacional. N\u00e3o \u00e9 a submiss\u00e3o que se deseja sobre qualquer pot\u00eancia estrangeira, tampouco de abdicar da soberania nacional. Pa\u00edses soberanos divergem entre si diariamente. A quest\u00e3o central reside na forma como essas diverg\u00eancias s\u00e3o administradas.<br \/>\nOs Estados Unidos continuam sendo uma das maiores economias do planeta, importante destino das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras, fonte de investimentos, tecnologia e coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O Brasil, por sua vez, representa parceiro estrat\u00e9gico na Am\u00e9rica do Sul, pot\u00eancia agr\u00edcola, energ\u00e9tica e mineral. H\u00e1 interesses objetivos suficientes para recomendar prud\u00eancia, equil\u00edbrio e capacidade de di\u00e1logo.<br \/>\nEm meio a esse ambiente conturbado, ganhou repercuss\u00e3o internacional um artigo publicado por Mary Anastasia O&#8217;Grady, colunista do Wall Street Journal. Em sua an\u00e1lise, a jornalista apresentou uma interpreta\u00e7\u00e3o profundamente cr\u00edtica sobre a situa\u00e7\u00e3o institucional brasileira, argumentando que decis\u00f5es recentes representariam riscos ao Estado de Direito e \u00e0s liberdades civis. \u00c9 a opini\u00e3o da autora, n\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o oficial do governo americano nem do pr\u00f3prio jornal, mas o fato de avalia\u00e7\u00f5es dessa natureza encontrarem espa\u00e7o em um dos mais influentes ve\u00edculos econ\u00f4micos do mundo revela como a imagem internacional do Brasil tornou-se objeto de cr\u00edticas intensas. Investidores internacionais acompanham atentamente a estabilidade institucional dos pa\u00edses onde aplicam seus recursos. Empresas avaliam previsibilidade jur\u00eddica antes de instalar f\u00e1bricas ou ampliar opera\u00e7\u00f5es. Ag\u00eancias de classifica\u00e7\u00e3o de risco observam o ambiente pol\u00edtico com a mesma aten\u00e7\u00e3o dedicada aos indicadores econ\u00f4micos. Em economia internacional, percep\u00e7\u00e3o frequentemente produz efeitos concretos. A hist\u00f3ria demonstra que diplomacias excessivamente identificadas com governos espec\u00edficos costumam perder efici\u00eancia quando esses governos deixam o poder. Foi exatamente para evitar esse problema que o Itamaraty construiu, ao longo de d\u00e9cadas, uma cultura institucional baseada na continuidade administrativa e na defesa permanente dos interesses nacionais. Essa tradi\u00e7\u00e3o permitiu ao Brasil dialogar simultaneamente com democracias liberais, monarquias constitucionais, rep\u00fablicas presidencialistas e governos de diferentes orienta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas sem comprometer sua credibilidade.<br \/>\nO risco agora \u00e9 transformar diverg\u00eancias naturais entre governos em crises duradouras entre Estados. O com\u00e9rcio exterior oferece in\u00fameros exemplos do custo dessa estrat\u00e9gia. Barreiras tarif\u00e1rias, dificuldades regulat\u00f3rias, atrasos em acordos comerciais e redu\u00e7\u00e3o de investimentos raramente atingem governos espec\u00edficos. Seus efeitos recaem sobre empresas, trabalhadores e consumidores. Quando exporta\u00e7\u00f5es diminuem, quem perde mercado \u00e9 o produtor nacional. Quando investimentos s\u00e3o adiados, empregos deixam de ser criados. Quando aumenta a inseguran\u00e7a diplom\u00e1tica, cresce o custo de fazer neg\u00f3cios. E olha que n\u00e3o est\u00e1 sendo discutido aqui a quest\u00e3o das tarifas sobre os produtos brasileiros, que est\u00e3o pagando o pato pela postura do atual governo. Ao longo de sua hist\u00f3ria, o Brasil conquistou respeito internacional justamente por evitar alinhamentos autom\u00e1ticos e confrontos desnecess\u00e1rios.<br \/>\nA frase que foi pronunciada<br \/>\n\u201cA hist\u00f3ria ser\u00e1 gentil comigo, pois pretendo escrev\u00ea-la.\u201d<br \/>\nWinston S. Churchill<br \/>\nHist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nJogar futebol na It\u00e1lia, na Fran\u00e7a, no Congo ou na China, n\u00e3o acarreta a perda da nacionalidade. Mas se um brasileiro, voluntariamente, sem nenhuma coa\u00e7\u00e3o de pa\u00eds estrangeiro, pratica um ato, qualquer que seja, demonstrando a sua prefer\u00eancia por outra nacionalidade, est\u00e1 dando causa expressa para que seja declarada a perda da sua nacionalidade brasileira. A nossa Constitui\u00e7\u00e3o (art. 130) estabelece que perde a nacionalidade brasileira o brasileiro (n. I) \u201cque, por naturaliza\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, adquirir outra nacionalidade\u201d. (Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com Poucas institui\u00e7\u00f5es do Estado brasileiro constru\u00edram, ao longo de sua hist\u00f3ria, um patrim\u00f4nio de credibilidade compar\u00e1vel ao do Itamaraty. 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