{"id":27576,"date":"2026-07-26T10:35:45","date_gmt":"2026-07-26T13:35:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27576"},"modified":"2026-07-27T10:37:02","modified_gmt":"2026-07-27T13:37:02","slug":"diplomacia-ideologia-e-o-custo-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/diplomacia-ideologia-e-o-custo-das-palavras\/","title":{"rendered":"Diplomacia, ideologia e o custo das palavras"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO<br \/>\n*Criada por Ari Cunha DESDE 1960<\/p>\n<p>hoje<\/p>\n<p>Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade<\/p>\n<p>jornalistacircecunha@gmail.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Constru\u00edda ao longo de d\u00e9cadas, a pol\u00edtica externa de uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser confundida com a pol\u00edtica dom\u00e9stica nem subordinada \u00e0s conveni\u00eancias ideol\u00f3gicas de governos transit\u00f3rios. Sua fun\u00e7\u00e3o primordial consiste em proteger interesses permanentes do Estado, preservar mercados, ampliar oportunidades econ\u00f4micas e reduzir \u00e1reas de conflito capazes de comprometer o desenvolvimento nacional. Quando essa l\u00f3gica \u00e9 invertida, o custo costuma aparecer de forma silenciosa, por\u00e9m concreta: diminui\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a internacional, retra\u00e7\u00e3o de investimentos, perda de competitividade das exporta\u00e7\u00f5es e desgaste das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas. Como observava o diplomata americano George F. Kennan, um dos formuladores da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos no s\u00e9culo XX, &#8220;a diplomacia existe para administrar diferen\u00e7as, n\u00e3o para ampli\u00e1-las&#8221;. A frase sintetiza um princ\u00edpio que permanece atual: pa\u00edses n\u00e3o escolhem seus parceiros por afinidade ideol\u00f3gica, mas pela converg\u00eancia de interesses.<br \/>\nBrasil e Estados Unidos constituem um exemplo eloquente dessa realidade. H\u00e1 mais de duzentos anos, os dois pa\u00edses mant\u00eam uma das rela\u00e7\u00f5es bilaterais mais relevantes do continente americano. Os Estados Unidos figuram entre os principais investidores estrangeiros no Brasil, enquanto milhares de empresas brasileiras mant\u00eam v\u00ednculos comerciais diretos com o mercado norte-americano. Em 2024, o interc\u00e2mbio comercial entre os dois pa\u00edses ultrapassou US$ 80 bilh\u00f5es, consolidando os Estados Unidos como um dos maiores parceiros econ\u00f4micos do Brasil. Al\u00e9m do com\u00e9rcio, a coopera\u00e7\u00e3o estende-se \u00e0s \u00e1reas cient\u00edfica, universit\u00e1ria, tecnol\u00f3gica, energ\u00e9tica, agr\u00edcola e de defesa, formando uma rede de interesses cuja import\u00e2ncia transcende governos e ciclos eleitorais.<br \/>\nNos \u00faltimos anos, entretanto, essa rela\u00e7\u00e3o passou a conviver com um ambiente pol\u00edtico mais tenso. Diverg\u00eancias em torno do com\u00e9rcio internacional, das plataformas digitais, das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, dos organismos multilaterais e de diferentes conflitos internacionais ampliaram o distanciamento entre Bras\u00edlia e Washington. O epis\u00f3dio mais sens\u00edvel foi a ado\u00e7\u00e3o de novas tarifas sobre determinados produtos brasileiros, inseridas em uma pol\u00edtica comercial mais ampla adotada pelos Estados Unidos em rela\u00e7\u00e3o a diversos parceiros. Paralelamente, foram abertas investiga\u00e7\u00f5es comerciais envolvendo alega\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas consideradas desleais pela legisla\u00e7\u00e3o americana. Evidentemente, nenhuma decis\u00e3o dessa natureza decorre de um \u00fanico fator. Tarifas resultam de estrat\u00e9gias econ\u00f4micas, disputas comerciais, press\u00f5es dom\u00e9sticas e c\u00e1lculos geopol\u00edticos. Ignorar, por\u00e9m, a influ\u00eancia do ambiente pol\u00edtico sobre essas decis\u00f5es seria desconhecer o funcionamento da diplomacia contempor\u00e2nea.<br \/>\nAo longo do atual mandato, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva fez sucessivas cr\u00edticas p\u00fablicas ao governo de Donald Trump e aproximou o Brasil de agendas internacionais frequentemente recebidas com reservas pela atual administra\u00e7\u00e3o norte-americana. Em resposta \u00e0s medidas tarif\u00e1rias, o governo brasileiro reafirmou a defesa da soberania nacional, contestou a legalidade das san\u00e7\u00f5es e declarou disposi\u00e7\u00e3o para negociar. A posi\u00e7\u00e3o oficial dos Estados Unidos, por sua vez, fundamentou-se em argumentos relacionados a pr\u00e1ticas comerciais, quest\u00f5es ambientais, com\u00e9rcio digital e procedimentos conduzidos pelo Escrit\u00f3rio do Representante Comercial norte-americano. Independentemente da avalia\u00e7\u00e3o que se fa\u00e7a sobre os m\u00e9ritos de cada argumento, permanece v\u00e1lido um princ\u00edpio elementar das rela\u00e7\u00f5es internacionais: interesses nacionais dificilmente prosperam quando s\u00e3o subordinados ao acirramento pol\u00edtico.<br \/>\nComo escreveu Henry Kissinger, &#8220;n\u00e3o existem amigos permanentes nem inimigos permanentes; existem interesses permanentes&#8221;. Embora a frase seja frequentemente associada a ele, e tenha origem atribu\u00edda anteriormente a Lord Palmerston, ela permanece como uma das defini\u00e7\u00f5es mais precisas da l\u00f3gica que orienta a pol\u00edtica internacional.<br \/>\nNesse contexto, surgem cr\u00edticas formuladas por setores da oposi\u00e7\u00e3o, segundo os quais o governo brasileiro teria elevado desnecessariamente o tom pol\u00edtico das diverg\u00eancias, reduzindo o espa\u00e7o para negocia\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas. O governo, em sentido oposto, sustenta que apenas respondeu de forma firme a medidas consideradas unilaterais e incompat\u00edveis com o direito internacional. Trata-se de um debate leg\u00edtimo em qualquer democracia. O que n\u00e3o deveria admitir controv\u00e9rsia, entretanto, \u00e9 a necessidade de preservar empregos, investimentos, mercados consumidores e oportunidades para empresas brasileiras. Cada aumento tarif\u00e1rio reduz competitividade, pressiona cadeias produtivas, dificulta exporta\u00e7\u00f5es e amplia incertezas para trabalhadores e investidores. Em um cen\u00e1rio internacional marcado pelo avan\u00e7o do protecionismo, a previsibilidade tornou-se um ativo econ\u00f4mico de enorme valor.<br \/>\nAs grandes pot\u00eancias costumam combinar firmeza e confronto porque compreendem que declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas produzem efeitos concretos sobre decis\u00f5es de investimento, contratos internacionais e confian\u00e7a dos mercados. N\u00e3o por acaso, Rui Barbosa, patrono da diplomacia brasileira, advertia que &#8220;a p\u00e1tria n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m; s\u00e3o todos&#8221;. Em mat\u00e9ria de pol\u00edtica externa, essa m\u00e1xima recorda que governos passam, mas os custos e benef\u00edcios de suas decis\u00f5es permanecem para toda a sociedade.<\/p>\n<p>A frase que foi pronunciada:<br \/>\n\u201cPol\u00edtica externa brasileira: s\u00f3 ventos do norte n\u00e3o movem moinhos\u201d<br \/>\nJanina Onuki<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nO dever de cidad\u00e3o, participando do Juri Popular, obrigar-me-ia a deixar \u00easte espa\u00e7o sem a coluna, hoje. Mas, como estou na Casa da Justi\u00e7a, neste momento, abro o espa\u00e7o para citar um caso interessante, j\u00e1 que ter\u00e3o in\u00edcio, no fim do m\u00eas, as partidas de futebol pelo Campeonato Mundial.(Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com &nbsp; Constru\u00edda ao longo de d\u00e9cadas, a pol\u00edtica externa de uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser confundida com a pol\u00edtica dom\u00e9stica nem subordinada \u00e0s conveni\u00eancias ideol\u00f3gicas de governos transit\u00f3rios. 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