{"id":27570,"date":"2026-08-13T04:55:11","date_gmt":"2026-08-13T07:55:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27570"},"modified":"2026-08-14T20:49:29","modified_gmt":"2026-08-14T23:49:29","slug":"a-cruz-esquecida-e-o-que-as-licoes-da-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/a-cruz-esquecida-e-o-que-as-licoes-da-europa\/","title":{"rendered":"A cruz esquecida e o que as li\u00e7\u00f5es da Europa"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO<br \/>\n*Criada por Ari Cunha DESDE 1960<\/p>\n<p>hoje<\/p>\n<p>Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade<\/p>\n<p>H\u00e1 pa\u00edses que se tornam laborat\u00f3rios involunt\u00e1rios da hist\u00f3ria. A Fran\u00e7a de hoje, com suas escolas sem crucifixos, seus debates intermin\u00e1veis sobre v\u00e9u e burqu\u00edni, e bairros inteiros onde o franc\u00eas do dia a dia convive com o \u00e1rabe das mesquitas e o preg\u00e3o dos muezins, \u00e9 um desses laborat\u00f3rios. N\u00e3o porque tenha sido &#8220;invadida&#8221; por um ex\u00e9rcito, mas porque, ao longo de d\u00e9cadas, abriu m\u00e3o de afirmar com clareza aquilo que a constitu\u00eda como na\u00e7\u00e3o, ou seja, sua heran\u00e7a greco-romana, judaico-crist\u00e3 e iluminista e isso obviamente deixou um v\u00e1cuo que, como todo v\u00e1cuo civilizacional, n\u00e3o permaneceu vazio, sendo imediatamente ocupado.<br \/>\nA laicidade francesa, nascida da separa\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado em 1905, foi concebida como neutralidade: o Estado n\u00e3o professa nenhuma f\u00e9, mas tamb\u00e9m n\u00e3o combate nenhuma. Na pr\u00e1tica recente, por\u00e9m, essa neutralidade se transformou, em muitos espa\u00e7os p\u00fablicos, em apagamento ativo dos s\u00edmbolos crist\u00e3os onde as cruzes foram retiradas de reparti\u00e7\u00f5es, pres\u00e9pios contestados na Justi\u00e7a, calend\u00e1rio escolar cada vez mais desvinculado de suas ra\u00edzes crist\u00e3s. O paradoxo \u00e9 cruel: o mesmo pa\u00eds que se orgulha de ter decapitado reis em nome da raz\u00e3o, hesita d\u00e9cadas depois, em nomear com igual firmeza os limites que pretende impor a costumes importados, incluindo interpreta\u00e7\u00f5es da sharia que disputam, em bairros inteiros, a primazia sobre o direito civil franc\u00eas. A cultura \u00e9 como natureza : abomina o v\u00e1cuo. Quando uma sociedade permite deixar de transmitir \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria religiosa e c\u00edvica, ela n\u00e3o fica &#8220;neutra&#8221;: fica dispon\u00edvel. E o que ocupa o espa\u00e7o dispon\u00edvel n\u00e3o \u00e9 escolhido por decreto, mas pela vitalidade de quem ainda cr\u00ea, ainda batiza os filhos, ainda organiza a vida cotidiana em torno de uma f\u00e9 praticada.<br \/>\nA Fran\u00e7a tem hoje a maior comunidade mu\u00e7ulmana da Europa Ocidental em n\u00fameros absolutos cerca de 5,7 milh\u00f5es de pessoas segundo o Pew Research Center, mais que a soma dos mu\u00e7ulmanos de pa\u00edses como Catar e Bahrein. \u00c9 uma comunidade heterog\u00eanea, majoritariamente integrada e distante dos estere\u00f3tipos que a imprensa sensacionalista explora; mas \u00e9 tamb\u00e9m, em certos bairros de Paris, Marselha ou Roubaix, uma presen\u00e7a numericamente dominante, com suas pr\u00f3prias regras informais de conviv\u00eancia, enquanto os templos crist\u00e3os ao redor esvaziam e, n\u00e3o raro, s\u00e3o vendidos e convertidos a outros usos. Quem caminha por certas ruas de Saint-Denis ou do 18\u00ba arrendores de Paris relata a sensa\u00e7\u00e3o de estar em outro pa\u00eds n\u00e3o por preconceito, mas porque a paisagem humana, comercial e religiosa de fato mudou. Isso n\u00e3o \u00e9, como \u00e0s vezes se afirma com exagero ret\u00f3rico, uma &#8220;tomada de territ\u00f3rio&#8221; orquestrada; \u00e9 o resultado, mais prosaico e mais preocupante, de d\u00e9cadas de imigra\u00e7\u00e3o pouco planejada somadas ao recuo silencioso da pr\u00e1tica crist\u00e3 entre os pr\u00f3prios franceses.<br \/>\nEsse deslocamento demogr\u00e1fico caminha lado a lado com um deslocamento simb\u00f3lico. Escolas que antes marcavam o calend\u00e1rio letivo pelo Natal e pela P\u00e1scoa hoje evitam at\u00e9 men\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas a essas datas em nome da neutralidade; hospitais e prefeituras retiram crucifixos que estavam pendurados havia gera\u00e7\u00f5es; e, na dire\u00e7\u00e3o oposta, cresce a demanda por refeit\u00f3rios com op\u00e7\u00f5es halal, por hor\u00e1rios de ora\u00e7\u00e3o respeitados em ambientes de trabalho e por interpreta\u00e7\u00f5es informais de normas de conduta baseadas na sharia em bairros onde o Estado franc\u00eas, na pr\u00e1tica, mal se faz presente.<br \/>\nAfinal de contas, a quem interessa essa discuss\u00e3o? Por que n\u00f3s, brasileiros precisamos ficar atentos? Porque os mesmos mecanismos , seculariza\u00e7\u00e3o acelerada, esvaziamento das igrejas, relativismo cultural travestido de toler\u00e2ncia, associado a fluxos migrat\u00f3rios cada vez mais intensos e pouco regulados, n\u00e3o s\u00e3o exclusividade europeia. O Brasil, herdeiro da mesma matriz greco-romana e judaico-crist\u00e3, vive seu pr\u00f3prio processo de afastamento das tradi\u00e7\u00f5es que historicamente deram coes\u00e3o \u00e0 na\u00e7\u00e3o: queda na frequ\u00eancia \u00e0s igrejas entre os jovens, disputas judiciais sobre s\u00edmbolos religiosos em espa\u00e7os p\u00fablicos, e um discurso p\u00fablico que, muitas vezes, trata a preserva\u00e7\u00e3o de valores como sin\u00f4nimo de atraso. Advogar por Sharia em solo brasileiro ainda soa distante, mas a li\u00e7\u00e3o francesa n\u00e3o \u00e9 sobre Sharia especificamente, \u00e9 sobre o que acontece quando uma civiliza\u00e7\u00e3o deixa de acreditar em si mesma. Defender a heran\u00e7a cultural do Ocidente n\u00e3o \u00e9, como pretendem seus cr\u00edticos, uma forma de xenofobia. \u00c9 reconhecer, com dados e sem eufemismos, que nenhuma sociedade sobrevive a longo prazo esvaziada de sentido pr\u00f3prio. Se a Fran\u00e7a de hoje serve de alerta, que sirva tamb\u00e9m de convite: cultivar as pr\u00f3prias ra\u00edzes, a fam\u00edlia, a cruz, mas tamb\u00e9m a \u00e9tica c\u00edvica e o legado republicano que dela derivam antes que o v\u00e1cuo, mais uma vez, seja preenchido por quem tem mais f\u00e9 e vontade do que n\u00f3s.<\/p>\n<p>A frase que foi pronunciada:<br \/>\n\u201cAqueles que, diante do Isl\u00e3, refletem sobre a pr\u00f3pria f\u00e9, dificilmente alcan\u00e7am uma compreens\u00e3o abrangente da outra religi\u00e3o como um mundo independente. Trata-se meramente de uma contra-imagem. Modelos muito diferentes.\u201d<br \/>\nHans Zirker<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nPontes de Miranda, o acatado constitucionalista, comentando o art. 130 da Constitui\u00e7\u00e3o, ensina que desde que &#8220;o brasileiro d\u00ea ensejo a que o Estado estrangeiro o considere seu nacional, \u201cH\u00e1 perda da nacionalidade brasileira.\u201d.(Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade H\u00e1 pa\u00edses que se tornam laborat\u00f3rios involunt\u00e1rios da hist\u00f3ria. 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