{"id":27562,"date":"2026-07-25T10:38:44","date_gmt":"2026-07-25T13:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27562"},"modified":"2026-07-27T10:39:17","modified_gmt":"2026-07-27T13:39:17","slug":"a-velhice-nao-absolve-o-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/a-velhice-nao-absolve-o-poder\/","title":{"rendered":"A velhice n\u00e3o absolve o poder"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO<br \/>\n*Criada por Ari Cunha DESDE 1960<\/p>\n<p>hoje<\/p>\n<p>Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Existe uma cren\u00e7a difundida segundo a qual a idade, por si s\u00f3, conduz inevitavelmente \u00e0 sabedoria. A hist\u00f3ria da filosofia, da religi\u00e3o e da literatura est\u00e1 repleta de refer\u00eancias ao anci\u00e3o prudente, cuja longa experi\u00eancia de vida lhe permitiria julgar melhor os homens e os acontecimentos. O tempo ensina apenas quem continua disposto a aprender. Aos demais, apenas envelhece. H\u00e1 homens que chegam \u00e0 velhice mais serenos, mais equilibrados e mais conscientes de suas limita\u00e7\u00f5es. Outros chegam apenas mais endurecidos, mais desconfiados e mais apegados ao poder que acumularam durante d\u00e9cadas. Essa diferen\u00e7a torna-se particularmente perigosa quando o envelhecimento alcan\u00e7a aqueles que controlam Estados.<br \/>\nEm regimes democr\u00e1ticos, a altern\u00e2ncia de poder funciona justamente como mecanismo de renova\u00e7\u00e3o institucional. O voto peri\u00f3dico permite corrigir rumos, substituir lideran\u00e7as e impedir que um \u00fanico indiv\u00edduo confunda seu destino pessoal com o destino da na\u00e7\u00e3o. Nas ditaduras ocorre exatamente o contr\u00e1rio. O governante deixa de servir ao Estado para convencer-se de que o Estado existe para servi-lo. A oposi\u00e7\u00e3o deixa de ser vista como parte natural da vida pol\u00edtica para tornar-se inimiga da p\u00e1tria. Aos poucos, todas as institui\u00e7\u00f5es passam a existir apenas para preservar o governante.<br \/>\nO caso da Nicar\u00e1gua tornou-se um dos exemplos mais recentes desse processo. Daniel Ortega retornou ao poder em 2007, ap\u00f3s j\u00e1 ter governado o pa\u00eds nos anos 1980. Desde ent\u00e3o, promoveu sucessivas mudan\u00e7as institucionais que ampliaram seu controle sobre o Estado. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2021, praticamente todos os principais pr\u00e9-candidatos oposicionistas foram presos ou impedidos de concorrer, em um processo amplamente criticado por organismos internacionais. Posteriormente, novas reformas concentraram ainda mais poder na Presid\u00eancia e reduziram o espa\u00e7o para oposi\u00e7\u00e3o organizada e imprensa independente. A quest\u00e3o foi atualizada de modo surpreendente. Elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o fariam mais sentido com a eterniza\u00e7\u00e3o do poder corrupto.<br \/>\nFen\u00f4meno semelhante pode ser observado retrospectivamente em diversos regimes autorit\u00e1rios do s\u00e9culo XX. Fidel Castro permaneceu d\u00e9cadas no comando de Cuba, inicialmente como primeiro-ministro e depois como presidente. Seu governo atravessou gera\u00e7\u00f5es inteiras sem permitir competi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica multipartid\u00e1ria. Ao longo dos anos, a continuidade do regime passou a depender cada vez mais da preserva\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema de poder constru\u00eddo em torno da lideran\u00e7a revolucion\u00e1ria. N\u00e3o se trata de um fen\u00f4meno exclusivo da Am\u00e9rica Latina. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica conheceu seus anos finais sob uma sucess\u00e3o de dirigentes idosos, incapazes de promover reformas profundas enquanto preservavam estruturas burocr\u00e1ticas envelhecidas. Mao Ts\u00e9-Tung governou a China at\u00e9 idade avan\u00e7ada, conduzindo campanhas pol\u00edticas que produziram consequ\u00eancias humanas devastadoras. Robert Mugabe permaneceu quase quatro d\u00e9cadas no comando do Zimb\u00e1bue antes de ser afastado. Em diferentes continentes, a combina\u00e7\u00e3o entre poder prolongado e aus\u00eancia de mecanismos de altern\u00e2ncia revelou padr\u00e3o semelhante. O problema central n\u00e3o est\u00e1 propriamente na idade. Winston Churchill retornou ao cargo de primeiro-ministro brit\u00e2nico j\u00e1 idoso. Konrad Adenauer liderou a reconstru\u00e7\u00e3o da Alemanha Ocidental em idade avan\u00e7ada. Nelson Mandela chegou \u00e0 Presid\u00eancia da \u00c1frica do Sul aos 75 anos e deixou voluntariamente o cargo ao t\u00e9rmino do mandato.<br \/>\nNessas experi\u00eancias, o fator decisivo n\u00e3o foi a data de nascimento dos governantes, mas a exist\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es capazes de limitar o exerc\u00edcio do poder e garantir sua sucess\u00e3o. Quando um governante passa d\u00e9cadas cercado apenas por pessoas que concordam com tudo o que diz, a realidade deixa gradualmente de chegar ao seu gabinete. O dirigente passa a enxergar apenas aquilo que seus auxiliares julgam conveniente mostrar. Forma-se uma bolha pol\u00edtica onde toda cr\u00edtica \u00e9 interpretada como conspira\u00e7\u00e3o e toda derrota precisa ser atribu\u00edda a inimigos externos. \u00c9 nesse ambiente que surgem algumas das decis\u00f5es mais desastrosas da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea. A aus\u00eancia de contradit\u00f3rio elimina o principal mecanismo de corre\u00e7\u00e3o dos erros. Sem imprensa livre, oposi\u00e7\u00e3o organizada ou elei\u00e7\u00f5es competitivas, desaparecem os instrumentos que normalmente obrigam um governo a rever seus equ\u00edvocos. H\u00e1 tamb\u00e9m um componente psicol\u00f3gico frequentemente observado pelos estudiosos do autoritarismo. O poder prolongado tende a produzir personaliza\u00e7\u00e3o do Estado. O governante passa a acreditar sinceramente que sua perman\u00eancia \u00e9 condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a estabilidade nacional.<br \/>\nA democracia n\u00e3o parte da premissa de que existam governantes perfeitos, mas da convic\u00e7\u00e3o de que nenhum ser humano deve concentrar poder indefinidamente. A altern\u00e2ncia protege n\u00e3o apenas os governados, mas tamb\u00e9m as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es. A hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX e das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI oferece exemplos suficientes para mostrar que n\u00e3o \u00e9 a idade que amea\u00e7a as na\u00e7\u00f5es, mas a perman\u00eancia ilimitada de qualquer indiv\u00edduo no comando delas. N\u00e3o precisamos ir muito longe para aprender essa li\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA frase que foi pronunciada:<br \/>\n&#8220;N\u00e3o haver\u00e1 mais elei\u00e7\u00f5es aqui para que eles [a oposi\u00e7\u00e3o] tentem tomar o governo e o poder&#8221; Daniel Ortega<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nQuem entende de lei espantou a lebre, e o assunto aqui vai tratado, de maneira como me foi relatado: Mazzola e Sormani, os dois jogadores brasileiros que est\u00e3o \u2014 na qualidade de cidad\u00e3os italianos \u2014 integrando a sele\u00e7\u00e3o do simp\u00e1tico pa\u00eds peninsular, podem vir a perder a cidadania brasileira. (Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 hoje Com Circe Cunha e MAMFIL Manoel de Andrade &nbsp; Existe uma cren\u00e7a difundida segundo a qual a idade, por si s\u00f3, conduz inevitavelmente \u00e0 sabedoria. 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