{"id":27543,"date":"2026-08-14T03:33:43","date_gmt":"2026-08-14T06:33:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27543"},"modified":"2026-08-14T20:51:24","modified_gmt":"2026-08-14T23:51:24","slug":"o-passado-medieval-volta-a-escola-do-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-passado-medieval-volta-a-escola-do-futuro\/","title":{"rendered":"O passado medieval volta a escola do futuro"},"content":{"rendered":"<div>VISTO, LIDO E OUVIDO<\/div>\n<div>*Criada por Ari Cunha DESDE 1960<\/div>\n<div>Hoje com Circe Cunha e Mamfil, Manoel de Andrade<\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vivemos a d\u00e9cada em que a intelig\u00eancia artificial resolve equa\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis, e em que a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica promete redesenhar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de c\u00e1lculo. Seria de se esperar, portanto, que a escola mais bem-sucedida do nosso tempo fosse tamb\u00e9m a mais tecnol\u00f3gica: telas em toda carteira, algoritmos adaptativos, gamifica\u00e7\u00e3o, realidade aumentada. A surpresa inc\u00f4moda para boa parte dos educadores que apostaram todas as fichas na inova\u00e7\u00e3o digital \u00e9 que algumas das experi\u00eancias educacionais mais consistentes e mais celebradas da atualidade v\u00eam de escolas que fizeram o caminho inverso. Em vez de acumular ferramentas novas, essas escolas desenterraram uma ferramenta muito antiga: o Trivium, estrutura de ensino da gram\u00e1tica, da l\u00f3gica e da ret\u00f3rica que organizava as escolas mon\u00e1sticas e as primeiras universidades da Idade M\u00e9dia.<br \/>\nA pista para entender esse movimento est\u00e1 em um pequeno ensaio de 1947, &#8220;As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem&#8221;, da escritora e tradutora brit\u00e2nica Dorothy Sayers. Nele, Sayers argumenta: o modelo escolar herdado da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial com disciplinas fatiadas, conte\u00fados decorados, conclus\u00f5es prontas entregues ao aluno para memoriza\u00e7\u00e3o produz jovens abarrotados de informa\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, incapazes de articular um racioc\u00ednio pr\u00f3prio. O Trivium, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o ensina &#8220;mat\u00e9rias&#8221;: ensina opera\u00e7\u00f5es da mente. Na fase da gram\u00e1tica, a crian\u00e7a pequena absorve fatos, vocabul\u00e1rio e estruturas com a avidez natural de quem aprende com prazer. Na fase da l\u00f3gica, o pr\u00e9-adolescente aprende a organizar esses fatos, a identificar fal\u00e1cias, a argumentar com coer\u00eancia e sentido. Na fase da ret\u00f3rica, o jovem aprende a comunicar suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es com clareza e beleza. O resultado pretendido n\u00e3o \u00e9 o aluno que sabe a resposta certa, mas o aluno que sabe como chegar a qualquer resposta ou a defini\u00e7\u00e3o mais precisa poss\u00edvel do que significa aprender a aprender.<br \/>\nEsse programa, que soa arcaico \u00e0 primeira vista, \u00e9 hoje o motor de um dos movimentos educacionais de crescimento mais r\u00e1pido nos Estados Unidos. A chamada educa\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, presente tanto em redes de escolas particulares quanto em um contingente expressivo de fam\u00edlias que educam os filhos em casa, multiplicou o n\u00famero de escolas crist\u00e3s cl\u00e1ssicas de poucas dezenas para centenas nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, um crescimento que os pr\u00f3prios pesquisadores do campo descrevem como o mais acelerado entre os modelos alternativos de ensino no pa\u00eds.<br \/>\nLevantamentos como o Cardus Education Survey, que acompanhou mais de mil egressos desse tipo de escola, mostram diferen\u00e7as dif\u00edceis de ignorar: cerca de 81% desses alunos ingressam imediatamente no ensino superior, contra 59% dos egressos de escolas p\u00fablicas e 64% dos egressos de escolas cat\u00f3licas tradicionais na mesma pesquisa; e cerca de 64% concluem a gradua\u00e7\u00e3o, taxa superior \u00e0 de pares oriundos de escolas evang\u00e9licas convencionais e de escolas p\u00fablicas.<br \/>\nO Ideb, \u00edndice brasileiro que combina profici\u00eancia e fluxo escolar numa escala de 0 a 10, chega a 6,0 nos anos iniciais do ensino fundamental, mas cai para 5,0 nos anos finais e desaba para 4,3 no ensino m\u00e9dio sinal de que a escola brasileira perde o aluno exatamente na fase em que ele deveria estar desenvolvendo capacidade de argumenta\u00e7\u00e3o e leitura cr\u00edtica. Organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil apontam o investimento p\u00fablico insuficiente, historicamente abaixo de 4% do PIB, como um dos fatores estruturais por tr\u00e1s desse quadro, ao lado de pol\u00edticas como a progress\u00e3o continuada sem mecanismos eficazes de refor\u00e7o pedag\u00f3gico, que reduziram a evas\u00e3o escolar mas n\u00e3o resolveram o d\u00e9ficit de aprendizagem.<br \/>\nH\u00e1 sinais, ainda t\u00edmidos, de que parte do Brasil j\u00e1 percebeu o problema. Nos \u00faltimos anos, multiplicaram-se pelo pa\u00eds pequenas escolas particulares e grupos de ensino domiciliar que se autodenominam &#8220;cl\u00e1ssicos&#8221; e adaptam o Trivium \u00e0 realidade brasileira, com aulas de latim, debate e leitura de textos originais em vez de resumos did\u00e1ticos. S\u00e3o iniciativas ainda restritas a fam\u00edlias de maior poder aquisitivo e a nichos urbanos, sem qualquer equivalente na rede p\u00fablica, que concentra a esmagadora maioria dos alunos do pa\u00eds.<br \/>\nUm pa\u00eds que decora f\u00f3rmulas sem compreender por que elas funcionam, que treina para o gabarito da prova em vez de para o argumento, continuar\u00e1 produzindo jovens tecnicamente equipados e intelectualmente desarmados diante da pr\u00f3xima onda de mudan\u00e7a, seja ela a intelig\u00eancia artificial, a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica, ou qualquer outra que ainda venha a ter um nome que ainda n\u00e3o conhecemos.<\/p>\n<p>A frase que foi pronunciada:<br \/>\n\u201cTemos uma popula\u00e7\u00e3o alfabetizada, no sentido de que todos s\u00e3o capazes de ler e escrever; por\u00e9m, devido \u00e0 \u00eanfase dada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e t\u00e9cnica em detrimento das humanidades, muito poucos dos nossos cidad\u00e3os aprenderam a compreender e a usar a linguagem como instrumento de poder.\u201d<br \/>\nDorothy Sayers<\/p>\n<p>Imund\u00edcie<br \/>\nConstrangedora a situa\u00e7\u00e3o dos banheiros do Aeroporto Internacional da capital do pa\u00eds. Na quarta feira pela manh\u00e3 a situa\u00e7\u00e3o estava alarmante.<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<br \/>\nPontes de Miranda esclarece mais, examinando justamente os casos dos possuidores de dupla nacionalidade (caso de Mazzola e Sormani): \u201cO que lhe importa (ao Brasil) \u00e9 saber que o seu nacional prefere outra nacionalidade. Portanto, a express\u00e3o \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o Volunt\u00e1ria\u201d abrange, no inciso I, a liga\u00e7\u00e3o posterior, volunt\u00e1ria, qualquer que seja a outro estado\u201d. (Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO *Criada por Ari Cunha DESDE 1960 Hoje com Circe Cunha e Mamfil, Manoel de Andrade &nbsp; Vivemos a d\u00e9cada em que a intelig\u00eancia artificial resolve equa\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis, e em que a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica promete redesenhar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de c\u00e1lculo. 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