{"id":27396,"date":"2026-06-11T01:00:09","date_gmt":"2026-06-11T04:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27396"},"modified":"2026-06-11T20:49:21","modified_gmt":"2026-06-11T23:49:21","slug":"a-grande-ilusao-do-nosso-seculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/a-grande-ilusao-do-nosso-seculo\/","title":{"rendered":"A Grande Ilus\u00e3o do Nosso S\u00e9culo"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_27414\" aria-describedby=\"caption-attachment-27414\" style=\"width: 405px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-27414\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/06\/soc.jpg\" alt=\"\" width=\"405\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/06\/soc.jpg 405w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/06\/soc-202x300.jpg 202w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/06\/soc-230x341.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 405px) 100vw, 405px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-27414\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Vivemos numa era em que a apar\u00eancia suplantou a realidade. Das g\u00f4ndolas de supermercado \u00e0s tribunas do Congresso, do feed do Instagram ao card\u00e1pio de fast food tudo ostenta uma fachada polida que esconde o vazio ou a mentira por tr\u00e1s. O fil\u00f3sofo Guy Debord previu isso em 1967: a sociedade do espet\u00e1culo. Mas o que vivemos hoje vai muito al\u00e9m do que ele imaginou. N\u00e3o se trata apenas de apar\u00eancias superficiais. Trata-se de uma arquitetura sistem\u00e1tica do falso, erigida camada por camada, que substitui o real pelo simulacro, at\u00e9 que ningu\u00e9m mais consiga distinguir um do outro.<\/p>\n<p>George Orwell, em 1984, descreveu um Estado que fabricava mentiras. O que n\u00e3o previu \u00e9 que o mercado faria o mesmo trabalho, com mais efici\u00eancia e sem precisar de cassetetes. &#8220;Quando tudo \u00e9 espet\u00e1culo, nada \u00e9 real \u2014 e quando nada \u00e9 real, qualquer mentira pode parecer verdade.&#8221;<\/p>\n<p>Consideremos a moda. Nas vitrines das redes mais populares do Brasil, exp\u00f5em-se cal\u00e7as jeans fabricadas com rasgos e furos propositais, desbotamento artificial e manchas simuladas vendidas a R$ 350 a pe\u00e7a ou R$1.500. S\u00e3o roupas que, h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, seriam enviadas ao brech\u00f3 com pena. Hoje, s\u00e3o vistas como sinal de status, dependendo de uma etiqueta na pe\u00e7a. O consumidor paga como rico e se veste como pobre. A ind\u00fastria da moda transformou o desleixo em est\u00e9tica, o pijama em roupa de rua e o moletom em traje para reuni\u00f5es remotas. A pandemia acelerou esse colapso das fronteiras: o que se usava para dormir passou a ser aceit\u00e1vel em videoconfer\u00eancias profissionais. O conforto virou desculpa para a dissolu\u00e7\u00e3o de qualquer padr\u00e3o. E a ind\u00fastria, naturalmente, lucrou em cada etapa.<\/p>\n<p>No universo alimentar, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave. Segundo a UFCSPA, mais de 57% das calorias consumidas por brasileiros v\u00eam de alimentos ultraprocessados, aqueles compostos, majoritariamente, de amido modificado, xarope de glicose, corantes artificiais e estabilizantes. S\u00e3o produtos que ostentam embalagens vibrantes com imagens de frutas frescas, enquanto seus ingredientes reais se escondem em letras min\u00fasculas numa fonte ileg\u00edvel. Um iogurte industrializado t\u00edpico pode conter apenas 3% de componente l\u00e1cteo real. O resto \u00e9 gelificante, ado\u00e7ante e aroma artificial de morango que nunca viu um morango. A comida de astronauta, desenvolvida para sobreviv\u00eancia em miss\u00f5es espaciais, desceu \u00e0s g\u00f4ndolas dos mercados populares n\u00e3o como inova\u00e7\u00e3o, mas como substitui\u00e7\u00e3o da comida de verdade.<\/p>\n<p>Na arena pol\u00edtica, o fake ganhou sofistica\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. Pesquisa do Instituto Reuters de 2024 apontou que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds com maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no mundo. N\u00e3o porque os brasileiros sejam mais ing\u00eanuos, mas porque as estruturas de distribui\u00e7\u00e3o de mentiras s\u00e3o aqui mais eficientes. Vemos candidatos que se apresentam como &#8216;do povo&#8217; enquanto gerenciam fortunas offshore. Basta escolher qualquer nome e ler o discurso de posse. Vemos l\u00edderes que bradam contra a corrup\u00e7\u00e3o enquanto seus filhos registram contratos milion\u00e1rios com o Estado. A dicotomia esquerda-direita, que mobiliza multid\u00f5es, serve muitas vezes apenas para ocultar que ambos os lados compartilham os mesmos financiadores.<\/p>\n<p>A Guerra do Iraque em 2003 \u00e9 o caso mais documentado: os EUA invadiram o pa\u00eds com base em &#8216;provas&#8217; de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa que jamais foram encontradas. Colin Powell apresentou ao Conselho de Seguran\u00e7a da ONU imagens de sat\u00e9lite que provaram ser fabricadas. Centenas de milhares morreram. Quando a mentira foi revelada numa publica\u00e7\u00e3o no The Guardian que dizia: \u201cUm relat\u00f3rio do Senado dos EUA de 2004 detalhou que as avalia\u00e7\u00f5es da comunidade de intelig\u00eancia sobre as armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa iraquianas, feitas antes da guerra, eram fundamentalmente falhas e amplamente influenciadas pela press\u00e3o do governo.\u201d O mundo havia mudado e ningu\u00e9m foi responsabilizado. O padr\u00e3o se repete. A verdade que liberta chega sempre depois que os fatos j\u00e1 foram sepultados sob novos ciclos de not\u00edcias, novas guerras, novas indigna\u00e7\u00f5es fabricadas. A mentira original cumpriu sua fun\u00e7\u00e3o; a revela\u00e7\u00e3o posterior \u00e9 apenas uma nota de rodap\u00e9.<\/p>\n<p>Hoje o Brasil abriga mais de 600 mil estabelecimentos religiosos registrados numero que supera farm\u00e1cias, escolas e hospitais somados. Parte expressiva desses templos opera como franquias espirituais, onde a f\u00e9 \u00e9 monetizada com precis\u00e3o empresarial: d\u00edzimos compuls\u00f3rios, &#8216;sementes&#8217; financeiras prometendo retorno sobrenatural, transmiss\u00f5es ao vivo com bot\u00e3o de PIX integrado. O Conselho Federal de Teologia n\u00e3o existe; qualquer pessoa pode se autointitular pastor e iniciar uma congrega\u00e7\u00e3o. A aus\u00eancia de regula\u00e7\u00e3o cria terreno f\u00e9rtil para o predador espiritual, aquele que usa o sagrado como alavanca para extrair recursos de quem j\u00e1 tem pouco. A f\u00e9 \u00e9 real; a estrutura que a comercializa, frequentemente, n\u00e3o.<\/p>\n<p>O mundo fake n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno recente nem uma conspira\u00e7\u00e3o organizada. \u00c9 o resultado l\u00f3gico de sistemas econ\u00f4micos e pol\u00edticos que recompensam a apar\u00eancia sobre a subst\u00e2ncia, o curto prazo sobre o duradouro, o clique sobre a reflex\u00e3o. A boa not\u00edcia, e h\u00e1 sempre uma, \u00e9 que a mentira tem custo energ\u00e9tico. Exige manuten\u00e7\u00e3o constante. A realidade, por mais inconveniente que seja, sempre encontra uma fresta. Cabe a cada um decidir se quer viver no conforto do simulacro ou na lucidez desconfort\u00e1vel do real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>&#8220;As bombas at\u00f4micas est\u00e3o se acumulando nas f\u00e1bricas, a pol\u00edcia patrulha as cidades, mentiras ecoam pelos alto-falantes, mas a Terra continua girando em torno do Sol.&#8221;<\/em><br \/>\nGeorge Orwell<\/p>\n<figure id=\"attachment_20608\" aria-describedby=\"caption-attachment-20608\" style=\"width: 619px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-20608\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/02\/george.jpg\" alt=\"\" width=\"619\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/02\/george.jpg 851w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/02\/george-300x218.jpg 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/02\/george-768x559.jpg 768w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/02\/george-800x582.jpg 800w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/02\/george-550x400.jpg 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/02\/george-230x167.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 619px) 100vw, 619px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-20608\" class=\"wp-caption-text\">George Orwell<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nO total das verbas liberada num s\u00f3 dia para Bras\u00edlia atinge a cifra de um bilh\u00e3o, quinhentos e oitenta e quatro milh\u00f5es. <strong>(Publicado em 20.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; Vivemos numa era em que a apar\u00eancia suplantou a realidade. 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