{"id":27102,"date":"2026-08-20T01:04:08","date_gmt":"2026-08-20T04:04:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27102"},"modified":"2026-08-20T10:08:22","modified_gmt":"2026-08-20T13:08:22","slug":"o-individuo-e-o-estado-de-si-proprio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-individuo-e-o-estado-de-si-proprio\/","title":{"rendered":"O indiv\u00edduo \u00e9 o Estado de si pr\u00f3prio"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27682\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/Captura-de-tela-2026-08-20-100641.png\" alt=\"\" width=\"508\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/Captura-de-tela-2026-08-20-100641.png 508w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/Captura-de-tela-2026-08-20-100641-300x195.png 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/Captura-de-tela-2026-08-20-100641-230x150.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 508px) 100vw, 508px\" \/>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>\u201cO socialismo n\u00e3o defende o povo; ele defende o Estado contra o povo. Ele destr\u00f3i a menor minoria que existe na Terra: o indiv\u00edduo.\u201d A frase, atribu\u00edda \u00e0 fil\u00f3sofa Ayn Rand, (1905-1982) soa para muitos como ret\u00f3rica de guerra fria ou um exagero panflet\u00e1rio de outra \u00e9poca. Mas basta atravessar o mapa-m\u00fandi e percorrer o calend\u00e1rio do \u00faltimo s\u00e9culo para perceber que ela n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora sem sentido pr\u00e1tico, \u00e9 relat\u00f3rio cru do que viu e viveu na carne, em seu tempo. De fato, onde quer que o socialismo tenha sido implantado como projeto de Estado, e n\u00e3o apenas discutido como ideia em livros e semin\u00e1rios, o resultado foi repetido de forma quase mon\u00f3tona, com uma regularidade quase mec\u00e2nica, a confirmar tudo de maneira fria: o indiv\u00edduo deixou de ser fim em si mesmo e passou a ser meio para um objetivo coletivo definido por outros e indefinido para o indiv\u00edduo. E, como todo meio, dentro dessa f\u00f3rmula maligna, p\u00f4de ser sacrificado sempre que o objetivo assim o exigir.<\/p>\n<p>Nenhum experimento ilustra melhor a tese de Rand do que a pr\u00f3pria Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, onde viveu parte de sua vida. O bolchevismo prometeu libertar o oper\u00e1rio e o campon\u00eas da explora\u00e7\u00e3o. Em vez disto entregou um aparato estatal monstruoso, que decidia o que cada fam\u00edlia podia comer, plantar, dizer e pensar. A coletiviza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada da agricultura ucraniana, entre 1932 e 1933, provocou o Holodomor, fome artificial que matou milh\u00f5es de pessoas justamente porque camponeses individuais resistiram a entregar suas terras e sua produ\u00e7\u00e3o ao Estado. O sistema de campos de trabalho for\u00e7ado, o Gulag, tornou-se o s\u00edmbolo mais duradouro dessa l\u00f3gica onde dissidentes, escritores, camponeses relutantes e at\u00e9 militantes do pr\u00f3prio partido que ousaram, em algum momento, divergir e acabaram triturados por um Estado que se apresentava como guardi\u00e3o coletivo do povo, mas que na pr\u00e1tica perseguia qualquer indiv\u00edduo que se recusasse a se dissolver na massa ou no formigueiro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na China mao\u00edsta, que seguiu a mesma f\u00f3rmula, o indiv\u00edduo restou como estat\u00edstica e s\u00f3 isto. O Grande Salto Adiante, lan\u00e7ado por Mao Ts\u00e9-Tung em 1958, \u00e9 talvez o exemplo mais brutal de como o coletivismo trata a pessoa como n\u00famero descart\u00e1vel. Ao perseguir metas industriais irreais fixadas centralmente, o regime provocou uma fome que, segundo estimativas hist\u00f3ricas, matou entre 30 e 45 milh\u00f5es de chineses. Fam\u00edlias inteiras foram desestruturadas, celeiros pessoais requisitados, ferramentas de cozinha fundidas para cumprir cotas de a\u00e7o. Uma d\u00e9cada depois, a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural transformou vizinhos em delatores e filhos em acusadores dos pr\u00f3prios pais, tudo em nome da pureza ideol\u00f3gica do coletivo contra o chamado indiv\u00edduo \u201cburgu\u00eas\u201d, \u201cdesviante\u201d ou simplesmente diferente.<\/p>\n<p>Noutro tempo e lugar a receita se repetiu.<\/p>\n<p>Sob o Khmer Vermelho, entre 1975 e 1979, o projeto de apagamento do indiv\u00edduo atingiu talvez seu \u00e1pice hist\u00f3rico e s\u00e1dico. Cidades foram esvaziadas \u00e0 for\u00e7a, fam\u00edlias separadas, o pr\u00f3prio conceito de propriedade privada e de vida pessoal foi declarado inimigo da revolu\u00e7\u00e3o. Usar \u00f3culos, falar outro idioma ou simplesmente ter estudado eram, aos olhos do regime, provas de individualismo perigoso. Estima-se que cerca de um quarto da popula\u00e7\u00e3o cambojana tenha morrido em quatro anos, n\u00e3o por acidente, mas como consequ\u00eancia direta de um projeto que via a pessoa concreta e individual como obst\u00e1culo ao homem novo coletivo.<\/p>\n<p>Em Cuba, o racionamento estatal de alimentos, a proibi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de pequenos neg\u00f3cios privados e o controle sobre a sa\u00edda do pa\u00eds transformaram a autonomia pessoal em privil\u00e9gio concedido pelo Partido, n\u00e3o em direito do cidad\u00e3o. Na Alemanha Oriental, a Stasi chegou a manter um em cada sessenta cidad\u00e3os como informante, criando uma rede gigantesca de vigil\u00e2ncia que fez da vida privada, que era talvez o \u00faltimo ref\u00fagio do indiv\u00edduo, num espa\u00e7o monitorado dia e noite pelo Estado onipresente.<\/p>\n<p>Na Coreia do Norte, o sistema songbun classifica formalmente cada pessoa, por heran\u00e7a familiar, em categorias de lealdade ao regime, determinando emprego, moradia e acesso a alimentos: o indiv\u00edduo n\u00e3o nasce livre, nasce classificado pelo Estado e seu futuro cabe apenas nessa categoria.<\/p>\n<p>Mais perto de n\u00f3s, a Venezuela oferece um exemplo contempor\u00e2neo desse mesmo padr\u00e3o. O controle de c\u00e2mbio, o confisco e a estatiza\u00e7\u00e3o de empresas privadas, o controle de pre\u00e7os e a persegui\u00e7\u00e3o a opositores pol\u00edticos desidratou a economia e a sociedade civil venezuelanas. Milh\u00f5es de venezuelanos deixaram o pa\u00eds, criando a maior crise migrat\u00f3ria da hist\u00f3ria recente da Am\u00e9rica Latina e talvez do mundo moderno. Foram todos n\u00e3o apenas em busca de riqueza, mas em busca do direito b\u00e1sico de decidir sobre a pr\u00f3pria vida, algo que o Estado bolivariano, em nome do \u201cpovo\u201d e do \u201csocialismo do s\u00e9culo XXI\u201d, foi progressivamente esvaziando.<\/p>\n<p>O que une a Ucr\u00e2nia de St\u00e1lin, a China de Mao, o Camboja de Pol Pot, a Alemanha Oriental, Cuba e a Venezuela n\u00e3o \u00e9 a geografia, nem cultura, nem sequer a inten\u00e7\u00e3o declarada de seus l\u00edderes, muitos dos quais, sinceramente ou n\u00e3o, diziam agir em nome do povo. O que os une \u00e9 a estrutura. Ou seja, quando o Estado assume o poder de planejar centralmente a vida econ\u00f4mica e social, ele necessariamente precisa de autoridade para anular escolhas individuais que contrariem o plano.<\/p>\n<p>A frase que foi pronunciada:<\/p>\n<p>\u201cUm sistema comunista pode ser reconhecido pelo fato de poupar os criminosos e criminalizar o opositor pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<p>Alexander Solschenizyn<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que a reuni\u00e3o transformou-se numa solenidade, usando da palavra o advogado da defesa Newton Antunes, e, a seguir, o promotor Sebasti\u00e3o Barbosa. Foi uma solenidade de grande civismo. (Publicada em 25.05.1962)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido \u201cO socialismo n\u00e3o defende o povo; ele defende o Estado contra o povo. 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