{"id":20489,"date":"2026-08-23T01:00:00","date_gmt":"2026-08-23T04:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=20489"},"modified":"2026-08-26T12:12:46","modified_gmt":"2026-08-26T15:12:46","slug":"o-opio-dos-que-acreditam-pensar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-opio-dos-que-acreditam-pensar\/","title":{"rendered":"O \u00f3pio dos que acreditam pensar"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Desde 1960, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p>jornalistacircecunha@gmail.com<\/p>\n<p>Facebook.com\/vistolidoeouvido<\/p>\n<p>Instagram.com\/vistolidoeouvido<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n\n\n<details class=\"wp-block-details is-layout-flow wp-block-details-is-layout-flow\"><summary>Raymond Aron e o \u201c\u00d3pio dos Intelectuais\u201d: quando a ideologia substitui o pensamento<\/summary>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n<\/details>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/08\/Captura-de-tela-2026-08-26-113408.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"634\" height=\"505\" src=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/08\/Captura-de-tela-2026-08-26-113408.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-27774\" srcset=\"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/08\/Captura-de-tela-2026-08-26-113408.png 634w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/08\/Captura-de-tela-2026-08-26-113408-300x239.png 300w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/08\/Captura-de-tela-2026-08-26-113408-550x438.png 550w, https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/08\/Captura-de-tela-2026-08-26-113408-230x183.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 634px) 100vw, 634px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1955, num continente ainda em brasa pela mem\u00f3ria de duas guerras e j\u00e1 dividido pela Guerra Fria, o soci\u00f3logo franc\u00eas Raymond Aron publicou \u201cO \u00d3pio dos Intelectuais\u201d, um libelo l\u00facido e inc\u00f4modo contra a intelligentsia parisiense que, sentada nos caf\u00e9s de Saint-Germain-des-Pr\u00e9s, fazia coro ao marxismo sovi\u00e9tico como quem professa um novo catecismo. O t\u00edtulo \u00e9 a chave de tudo: se Marx dissera que a religi\u00e3o era o \u00f3pio do povo, Aron devolvia o golpe mostrando que, para os intelectuais do s\u00e9culo XX, o \u00f3pio havia se tornado a pr\u00f3pria ideologia com o comunismo lido n\u00e3o como hip\u00f3tese pol\u00edtica sujeita a prova, mas como f\u00e9 redentora, incontest\u00e1vel, imune aos fatos. O livro nasce de um espanto moral: como homens de forma\u00e7\u00e3o refinada, treinados na d\u00favida met\u00f3dica e na cr\u00edtica das fontes, podiam justificar ou silenciar os expurgos de Stalin, os processos de Moscou, a fome provocada na Ucr\u00e2nia, os campos de trabalho for\u00e7ado? Aron n\u00e3o pergunta isso com desprezo, mas com a inquieta\u00e7\u00e3o de quem viveu ao lado dos mesmos colegas de faculdade que escolheram o caminho oposto ao seu. Jean-Paul Sartre \u00e9 o interlocutor impl\u00edcito em quase todas as p\u00e1ginas: o fil\u00f3sofo que dizia n\u00e3o ser preciso condenar Stalin porque um dia \u201ca Hist\u00f3ria absolveria\u201d seus m\u00e9todos, desde que o fim fosse justo. Aron respondia que essa \u00e9 exatamente a estrutura do fanatismo religioso disfar\u00e7ado de raz\u00e3o: sacrificar o presente, os corpos concretos, as vidas reais, ao altar de um futuro que nunca chegar\u00e1 para ser devidamente cobrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como a tese central poderia ser resumida em tr\u00eas mitos que Aron desmonta um a um. O primeiro \u00e9 o mito da Esquerda e da Direita como categorias morais absolutas, como se um dos lados detivesse sozinho o monop\u00f3lio da virtude hist\u00f3rica. O segundo \u00e9 o mito da Revolu\u00e7\u00e3o, tratada n\u00e3o como acontecimento pol\u00edtico sujeito a an\u00e1lise fria de custos e resultados, mas como purifica\u00e7\u00e3o quase religiosa, capaz de redimir a viol\u00eancia que a acompanha. O terceiro, e mais profundo, \u00e9 o mito da pr\u00f3pria Hist\u00f3ria, escrita com H mai\u00fasculo, como se possu\u00edsse um sentido necess\u00e1rio, um rumo garantido, uma dire\u00e7\u00e3o que dispensaria o intelectual do trabalho penoso de julgar caso a caso. \u00c9 esse determinismo disfar\u00e7ado de ci\u00eancia e n\u00e3o a defesa de tal ou qual partido que Aron chama, com precis\u00e3o cir\u00fargica, de \u201c\u00f3pio\u201d. O entorpecimento da raz\u00e3o ou a cegueira da l\u00f3gica. O que torna o livro devastador, e ainda hoje atual, n\u00e3o \u00e9 apenas a cr\u00edtica ao comunismo sovi\u00e9tico, hoje tema de museu para muitos leitores. \u00c9 o mecanismo psicol\u00f3gico e sociol\u00f3gico que Aron exp\u00f5e: ou seja, o intelectual, precisamente por se orgulhar de sua autonomia cr\u00edtica, \u00e9 o mais vulner\u00e1vel a abra\u00e7ar sistemas totais de explica\u00e7\u00e3o que o dispensem de pensar problema por problema. N\u00e3o pensem, nem por um minuto, que tamb\u00e9m os intelectuais t\u00eam pregui\u00e7a de pensar. Pensar d\u00e1 trabalho. A ades\u00e3o ideol\u00f3gica oferece uma economia cognitiva sedutora substituindo a incerteza do ju\u00edzo particular pela seguran\u00e7a de uma doutrina que j\u00e1 resolveu, de antem\u00e3o, todas as perguntas. Quanto mais o intelectual se sente parte de uma vanguarda esclarecida, maior \u00e9 o risco de que essa vaidade o cegue diante dos fatos que desmentem sua f\u00e9. Aron n\u00e3o poupa nem os conservadores presos a nostalgias igualmente dogm\u00e1ticas; sua defesa \u00e9 de um liberalismo c\u00e9tico, o do \u201cespectador engajado\u201d, que participa da vida p\u00fablica sem jamais abdicar do direito de duvidar do pr\u00f3prio campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reler esse diagn\u00f3stico quase setenta anos depois \u00e9 medir a extens\u00e3o de uma cegueira que n\u00e3o ficou presa ao s\u00e9culo passado. Trocaram-se os s\u00edmbolos a foice e o martelo por outras bandeiras, o Kremlin por outros centros de irradia\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria, mas o mecanismo ps\u00edquico que Aron descreveu permanece intacto ainda hoje: a substitui\u00e7\u00e3o do exame dos fatos pela lealdade ao grupo, a convers\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em identidades morais inegoci\u00e1veis, o desprezo pelo advers\u00e1rio tratado n\u00e3o como interlocutor a ser convencido, mas como herege a ser expulso do c\u00edrculo da raz\u00e3o. \u00c9 o \u00f3pio funcionando exatamente como antes: dando ao crente a paz de quem j\u00e1 n\u00e3o precisa mais pensar. O Brasil de hoje oferece um estudo de caso que Aron, decerto, reconheceria sem dificuldade. Nas universidades, departamentos inteiros das ci\u00eancias humanas converteram-se em espa\u00e7os de reprodu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica antes que de investiga\u00e7\u00e3o livre, onde a discord\u00e2ncia te\u00f3rica \u00e9 tratada como desvio moral e a diversidade de pensamento, mais do que rara, \u00e9 ativamente desencorajada. O grito hoje nesses lugares \u00e9 \u201crecua fascista\u201d. E uma parcela influente dos formadores de opini\u00e3o repete, com a mesma convic\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica que Aron via em Sartre, o gesto de justificar o injustific\u00e1vel contanto que venha do lado \u201ccerto\u201d da hist\u00f3ria, substituindo o exame caso a caso pela lealdade tribal, ou a pergunta inc\u00f4moda pelo sil\u00eancio c\u00famplice<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um h\u00e1bito, t\u00e3o simples e t\u00e3o raro, deve ser considerado, o de julgar cada quest\u00e3o por seus pr\u00f3prios m\u00e9ritos, resistindo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel de terceirizar o ju\u00edzo a uma tribo, um partido ou uma causa. Sem esse h\u00e1bito, o abismo que Aron via se abrir sob os p\u00e9s dos intelectuais europeus dos anos 1950 continua ali, agora sob os p\u00e9s de quem acredita, com a mesma inoc\u00eancia de ent\u00e3o, estar do lado certo da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Longe do marxismo ser a ci\u00eancia da infelicidade oper\u00e1ria e o comunismo a filosofia imanente do proletariado, o marxismo \u00e9 uma filosofia de intelectuais que seduziu fra\u00e7\u00f5es do proletariado e o comunismo faz uso dessa pseudoci\u00eancia para atingir seu fim pr\u00f3prio, a tomada do poder.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Raymond Aron<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali\u00e1s, que \u00eales, volunt\u00e0riamente, passaram a preferir a nacionalidade italiana, nos d\u00e1 bem conta esta not\u00edcia publicada no &#8220;O Estado de S\u00e3o Paulo&#8221; de 23 do corrente (telegramas da AFP, UPI e AP) (Publicada em 25.05.1962<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada por Ari Cunha (In memoriam) Desde 1960, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com Facebook.com\/vistolidoeouvido Instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; Em 1955, num continente ainda em brasa pela mem\u00f3ria de duas guerras e j\u00e1 dividido pela Guerra Fria, o soci\u00f3logo franc\u00eas Raymond Aron publicou \u201cO \u00d3pio dos Intelectuais\u201d, um libelo l\u00facido e inc\u00f4modo contra a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,2339,114,2340,4282,4283,4281],"class_list":["post-20489","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-historiadebrasilia","tag-mamfil-2","tag-opio","tag-politica-2","tag-iideologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20489","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20489"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20489\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27782,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20489\/revisions\/27782"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}