O Titanic e o trajeto da soberba

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Titanic prester a zarpar do porto de Southampton, na Inglaterra. • Getty Images

A Epopeia do RMS Titanic permanece, mais de um século depois, como uma das metáforas mais poderosas sobre o destino de projetos grandiosos conduzidos sob o signo da autoconfiança excessiva. Concebido como símbolo máximo da engenharia e do progresso de sua época, o navio partiu cercado por expectativas quase míticas de invulnerabilidade. Poucos dias depois, repousava no fundo do Atlântico, vítima não apenas de um iceberg, mas de uma cadeia de decisões equivocadas, negligência e soberba. A história, que poderia ser apenas um episódio trágico do início do século XX, revela, na verdade, um padrão recorrente que se repete em empresas, governos e instituições públicas ao longo do tempo. Sempre que decisões são tomadas com base em ilusões de controle absoluto, desprezo por limites e ausência de transparência, o resultado tende a seguir uma rota previsível: o colapso.

Marcada por um espírito de competição e afirmação de poder a construção do navio tratava de provar ao mundo a capacidade técnica e econômica de uma era. No entanto, no processo, escolhas críticas foram relativizadas. Redução no número de botes salva-vidas, velocidade elevada em área de risco e confiança excessiva nos sistemas de segurança compuseram um cenário em que o desastre deixou de ser uma possibilidade remota para se tornar uma consequência provável. Transpondo essa lógica para o campo institucional, observa-se fenômeno semelhante.

Projetos públicos e privados frequentemente nascem sob promessas grandiosas, discursos otimistas e projeções ambiciosas. O problema surge quando esses projetos deixam de ser guiados por critérios técnicos, responsabilidade fiscal e ética administrativa, passando a ser conduzidos por interesses políticos, vaidades pessoais ou expectativas irreais. Nesse contexto, a metáfora da “carta náutica da ética pública” ganha relevância. Assim como uma embarcação depende de mapas, instrumentos e regras claras de navegação para evitar perigos, instituições dependem de princípios como transparência, prestação de contas e respeito às normas para garantir sua sustentabilidade. Quando esses parâmetros são ignorados, a navegação torna-se errática.

Max Weber, ao tratar da ética da responsabilidade, alertava que o exercício do poder exige consciência das consequências dos atos. Para Weber, governar não é apenas decidir, mas assumir os riscos e impactos dessas decisões. Quando essa responsabilidade é substituída por voluntarismo ou improviso, o resultado tende a ser instabilidade. No ambiente empresarial, casos de colapsos corporativos ao redor do mundo mostram como estratégias baseadas em crescimento acelerado sem fundamentos sólidos podem levar à ruína. Empresas que ignoram riscos, mascaram informações ou operam com estruturas frágeis podem, por um tempo, sustentar a aparência de sucesso. Mas, assim como no Titanic, basta um evento crítico para expor fragilidades acumuladas.

No setor público, os efeitos são ainda mais amplos. Decisões mal fundamentadas não afetam apenas acionistas ou investidores, mas toda a sociedade. Obras superfaturadas, políticas públicas mal planejadas e gestão ineficiente de recursos geram impactos que se estendem por anos, comprometendo desenvolvimento econômico e qualidade de vida.

Outro elemento presente na tragédia do Titanic foi a comunicação falha. Alertas sobre icebergs foram recebidos, mas não devidamente considerados. A crença na invulnerabilidade do navio reduziu a percepção de risco. Em instituições, fenômeno semelhante ocorre quando críticas são ignoradas, órgãos de controle são enfraquecidos ou informações são deliberadamente omitidas. A ausência de mecanismos eficazes de controle e transparência cria um ambiente propício para decisões desconectadas da realidade. Sem feedback adequado, líderes podem acreditar que suas escolhas são infalíveis, reforçando um ciclo de autoconfiança que se afasta progressivamente dos fatos.

Editorialmente, a lição que emerge dessa analogia é clara. Não são apenas icebergs que afundam grandes projetos, mas a combinação de arrogância, falta de planejamento e desprezo por limites. A ética pública, nesse sentido, não é um adorno moral, mas um instrumento de sobrevivência institucional. Respeitar normas, ouvir alertas, planejar com base em dados e manter transparência não são obstáculos ao progresso, mas condições para que ele seja sustentável. Ignorar esses princípios pode até gerar resultados imediatos, mas tende a produzir crises no médio e longo prazo.

A história do Titanic não é apenas um relato do passado. Ela continua a se repetir, em diferentes escalas e contextos, sempre que instituições acreditam estar acima das regras que deveriam segui-las. E, como no oceano, os sinais de perigo raramente desaparecem, eles apenas aguardam o momento em que serão finalmente percebidos. No fim, toda travessia exige prudência. Porque, diante da força dos fatos, nenhuma construção, por mais grandiosa que pareça, está imune às consequências de escolhas mal orientadas. E quando a rota ignora a carta da ética, o destino dificilmente será outro que não o naufrágio.

A frase que foi pronunciada:
“Desde o dia em que foi projetado, ele estava praticamente condenado… isso [o uso de rebites de ferro] foi quase o calcanhar de Aquiles do Titanic.”

Paul Louden-Brown, Arquivista da White Star Line

Paul Louden-Brown. Foto de John McVitty.

História de Brasília
Esta é, particularmente, uma notícia de grande repercussão para os pais, que estavam enfrentando uma situação de desespero vendo o exemplo que os professôres estavam dando a seus filhos. (Publicada em 17. 05.1962)

Circe Cunha

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Circe Cunha
Tags: #AriCunha #Brasília #CirceCunha #Gestão #HistóriadeBrasília #Mamfil #Negócios #Soberba #Titanic política

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