Nossas crianças

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Cartaz de divulgação do SOS Crianças Desaparecidas, da FIA

Há tragédias que não se anunciam com explosões, sirenes ou nuvens de fumaça. Elas acontecem em silêncio, à margem das manchetes, enquanto a rotina segue como se nada estivesse errado. O desaparecimento de crianças e adolescentes é uma dessas tragédias. Um flagelo contínuo, persistente e cruel que o mundo e o Brasil, em particular, insistem em assistir com inquietante passividade. Não se trata de casos isolados, de episódios fortuitos ou de estatísticas frias. Trata-se de um fenômeno estrutural, crescente e devastador.

No Brasil, segundo dados oficiais, cerca de 66 crianças e adolescentes desaparecem todos os dias. Em 2025, aproximadamente 24 mil menores simplesmente sumiram. Evaporaram da convivência familiar, da escola, da vizinhança. No mundo, as estimativas são ainda mais alarmantes: entre 1,5 milhão e 8 milhões de crianças desaparecem anualmente, vítimas de redes criminosas que operam sem fronteiras, sem escrúpulos e, muitas vezes, sem resistência efetiva do Estado. O mais perturbador é que esses números não diminuem, pelo contrário, crescem ano após ano, revelando a incapacidade ou a falta de prioridade das autoridades em enfrentar o problema com a seriedade que ele exige.

No território nacional, estados como Rio Grande do Sul, Roraima e Amapá figuram entre os líderes em registros de desaparecimentos. Regiões com características distintas, mas unidas por um mesmo denominador: vulnerabilidades institucionais, falhas de fiscalização e fronteiras porosas, físicas ou sociais. Para os órgãos oficiais, a principal motivação desses desaparecimentos está ligada à exploração sexual e ao tráfico humano, crimes que figuram entre os mais lucrativos do planeta, atrás apenas do tráfico de drogas e de armas. Ainda assim, a resposta estatal permanece tímida, fragmentada e, muitas vezes, tardia.

No Brasil, as investigações policiais relacionadas a desaparecimentos de menores são, em regra, insuficientes e precárias. Falta integração entre as forças de segurança, bancos de dados unificados e atualizados e recursos humanos e tecnológicos, mas sobra burocracia. Em muitos casos, as primeiras horas que são cruciais para a localização de uma criança acabam sendo desperdiçadas em protocolos ultrapassados, exigências formais e uma lógica perversa que trata o desaparecimento como “fuga” ou “conflito familiar”, minimizando o risco real. Essa postura não é apenas equivocada. É perigosa.

Em qualquer país que se pretenda, minimamente, comprometido com seu futuro,  desaparecimento de uma única criança deveria ser tratado como emergência nacional. Não é aceitável que o sumiço de um menor seja relativizado, diluído em estatísticas ou tratado como mais um número em relatórios anuais. Cada criança desaparecida representa uma vida interrompida, uma família destruída e uma ferida aberta na sociedade. É preciso dizer com todas as letras: o desaparecimento sistemático de crianças e adolescentes é uma ameaça à segurança nacional. Segurança nacional não se limita à defesa de fronteiras, à proteção de infraestruturas críticas ou ao enfrentamento de ameaças externas. Ela inclui, de forma inequívoca, a proteção da população mais vulnerável e a preservação do capital humano do país.

Um Estado que não consegue proteger suas crianças falha em sua missão mais básica. Em condições normais, fatos dessa magnitude deveriam provocar reações imediatas e coordenadas. O desaparecimento de uma criança deveria ser suficiente para mobilizar forças federais, estaduais e municipais, acionar alertas nacionais, interromper fluxos suspeitos, reforçar fronteiras e desencadear buscas incessantes, de norte a sul. Deveria haver protocolos automáticos, respostas padronizadas e uma cultura institucional que partisse do princípio de que cada minuto conta. Mas o que se vê é o oposto: famílias peregrinando por delegacias, dados desencontrados, investigações que esfriam com o tempo e um silêncio que se instala à medida que a comoção inicial desaparece. O país segue funcionando, o noticiário muda de assunto e a criança continua desaparecida. Essa normalização da barbárie é inaceitável. A exploração sexual infantil e o tráfico humano não prosperam no vazio. Eles se alimentam da pobreza, da desigualdade, da omissão do poder público e da indiferença coletiva. São crimes que exigem logística, rotas, compradores e proteção. Nada disso acontece sem falhas graves de fiscalização e sem a complacência ativa ou passiva de estruturas institucionais.

Tratar esse problema apenas como uma questão policial é reduzir sua complexidade e, ao mesmo tempo, aliviar a responsabilidade do Estado como um todo. Estamos diante de um desafio que exige políticas públicas integradas, investimento contínuo, cooperação internacional e, sobretudo, vontade política. É preciso ir além de campanhas pontuais e discursos protocolares. O desaparecimento de crianças e adolescentes não pode continuar sendo uma estatística tolerável. Ele precisa ser reconhecido, enfrentado e combatido como aquilo que de fato é: uma emergência nacional, um atentado contra o futuro e uma prova decisiva do compromisso do Estado com sua própria sobrevivência moral. Silenciar diante disso é, em última instância, tornar-se cúmplice.

A frase que foi pronunciada:
“Cada número representa uma família destruída e uma criança em risco. O Estado precisa agir com rapidez e responsabilidade”.
Senadora Damares

Foto: istoe.com.br

História de Brasília
Mas há uma coisa que intriga na carta. Por que o dr. Amador procurou o dr. Paulo Nogueira para não aceitar a direção do Hospital, se não diz, também, se foi convidado? (Publicada em 15/5/1962)

Circe Cunha

Publicado por
Circe Cunha
Tags: #AriCunha #Brasília #CirceCunha #DesaparecimentoDeAdolescentes #DesaparecimentoDeCrianças #Fiscalização #HistóriadeBrasília #Mamfil #ProteçãoÀCriança #Segurança #SegurançaNacional

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