A Europa hoje é o nosso amanhã

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Hoje, com Circe Cunha e Mamfil – Manoel de Andrade

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Foto: reprodução da internet

É muito mais que uma crise. A Europa passa por um processo acelerado de desgaste cultural, político e institucional que suas lideranças insistem em tratar como fenômeno passageiro. Não o é. O que está em curso é uma mudança estrutural, e a recusa em nomeá-la com clareza pode custar caro ao futuro do continente.

O primeiro sinal dessa transformação está nas ruas das grandes cidades europeias. Paris, Bruxelas, Berlim, Estocolmo, todas enfrentam, em maior ou menor grau, dificuldades concretas de integração de populações imigrantes, especialmente oriundas de países de maioria islâmica. Não se trata de retórica: são bairros segregados, aumento da tensão social, episódios recorrentes de violência urbana e uma sensação crescente de perda de controle por parte do Estado.

A narrativa oficial insiste em classificar esses problemas como “desafios de inclusão”. Mas essa formulação suave esconde um fato mais duro: o modelo multicultural europeu falhou em produzir coesão. Em vez de integração, o que se observa, em muitos casos, é a formação de sociedades paralelas, com códigos culturais próprios e, por vezes, em choque com os valores liberais que sustentaram a Europa moderna.

Negar esse conflito não o elimina, apenas o agrava. Isso não significa, como frequentemente se afirma de maneira alarmista, que a Europa esteja prestes a se tornar um “continente islâmico”. Esse tipo de previsão simplifica uma realidade muito mais complexa. No entanto, também é um erro negar que há uma mudança demográfica e cultural relevante em curso, e que ela vem sendo administrada com hesitação e, muitas vezes, com medo de enfrentar o debate de forma franca.

Ao mesmo tempo, a União Europeia demonstra sinais claros de desgaste como projeto político. A promessa de prosperidade e estabilidade deu lugar a uma estrutura percebida como burocrática, distante e incapaz de responder com rapidez a crises sucessivas, sejam elas econômicas, migratórias ou geopolíticas.

O Brexit não foi um acidente isolado, mas um sintoma visível de um mal-estar mais profundo. A centralização de decisões em Bruxelas, muitas vezes desconectadas das realidades nacionais, alimenta o crescimento de movimentos que questionam não apenas políticas específicas, mas a própria ideia de integração supranacional.

Um dia ela foi exemplo de coordenação entre nações soberanas, hoje, a Europa parece presa entre a necessidade de união e o impulso de fragmentação. Mas, talvez, o aspecto mais sensível dessa crise esteja no campo cultural. A Europa contemporânea vive uma redefinição acelerada de valores, família, identidade, religião, pertencimento. As chamadas pautas identitárias ganharam espaço e influência, promovendo mudanças reais na legislação, na educação e no debate público.

Para muitos, isso representa avanço e ampliação de direitos. Para outros, uma ruptura brusca com fundamentos históricos da civilização europeia. O problema não está na existência dessas pautas, mas na forma como o debate tem sido conduzido: frequentemente polarizado, intolerante a divergências e incapaz de construir consensos mínimos. Em vez de fortalecer o tecido social, o confronto constante tende a fragmentá-lo ainda mais. Quando a isso se soma uma crise de identidade de um continente que já não sabe definir com clareza o que é, o que defende e quais são seus limites, o resultado é previsível: insegurança, reação e radicalização.

É nesse ambiente que crescem tanto movimentos nacionalistas quanto formas mais rígidas de afirmação cultural dentro de comunidades imigrantes. Um alimenta o outro. E o centro político, historicamente responsável pelo equilíbrio europeu, perde espaço. A Europa, portanto, não está “acabando”. Mas está, sim, enfraquecida e, sobretudo, indecisa. E essa hesitação é, talvez, seu maior risco.

Para a América Latina, o cenário europeu funciona como um aviso — não como um destino inevitável, mas como um exemplo de como múltiplas crises podem se sobrepor quando não enfrentadas com clareza. Importar, de forma acrítica, debates europeus sobre identidade, cultura e organização social pode produzir distorções profundas em sociedades com trajetórias completamente diferentes.

Com os próprios desafios, a América Latina ainda traz desigualdade, fragilidade institucional, violência e não pode se dar ao luxo de incorporar conflitos externos sem reflexão. Ao mesmo tempo, há lições importantes: a necessidade de políticas de integração eficazes, a importância de preservar coesão social e o risco de permitir que o debate público seja capturado por extremos. A realidade não é morna. Mas também não é simples.

Na Europa, não há o enfrentamento a uma única ameaça, nem a um único culpado. Enfrenta o acúmulo de decisões mal calibradas, omissões prolongadas e uma dificuldade crescente de encarar os próprios dilemas sem recorrer a slogans sejam eles otimistas ou apocalípticos. O futuro do continente dependerá menos de narrativas e mais de escolhas concretas.

A frase que foi pronunciada:
“A Europa precisa encontrar um equilíbrio entre responsabilidade e solidariedade.”
Angela Merkel

Burj Khalifa
Foram usados 330 mil metros cúbicos de concreto e 100 mil toneladas de aço. O prédio mais alto do mundo tem 828 metros de altura e foi construído em seis anos. Já em Brasília, uma década é necessária para a reforma de um teatro e, até hoje, não é possível atravessar da Asa Norte à Asa Sul pelo Eixão sem passar por uma obra, que parece eterna.

Teatro Nacional, em Brasília. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Agência Brasil

História de Brasília
O presidente João Goulart chegou a Brasília depois de muito tempo, mas, pelas boas notícias que trouxe, compensou a ausência, na qual teve mais tempo para meditar sobre o Distrito Federal. (Publicada em 17/5/1962)

Circe Cunha

Publicado por
Circe Cunha
Tags: #AriCunha #Brasília #CirceCunha #HistóriadeBrasília #Mamfil

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