Luis Macedo/Câmara dos Deputados
José Nelto - Luis Macedo Câmara dos Deputados Líder do Podemos na Câmara, José Nelto (GO), alerta para os riscos e custos políticos de um governo impopular

Sob sinal de alerta, governo deve tomar cuidados para que luz amarela não chegue à vermelha

Publicado em Economia

RODOLFO COSTA

A sociedade acendeu a luz amarela ao governo. Por mais que o presidente Jair Bolsonaro desdenhe da última pesquisa Datafolha, que aponta para o aumento da reprovação do governo, de 33% para 38%, e a piora da aprovação, de 33% para 29%, os dados indicam um sinal de alerta contundente, por serem só oito meses de governo. O levantamento tem pontos positivos e negativos, mas o viés é de queda, não de alta, advertem ao Blog cientistas políticos e parlamentares. 

 

Mesmo diante de um aumento da rejeição de cinco pontos percentuais e de uma queda da popularidade de quatro pontos percentuais, o cientista político e sociólogo Paulo Baía, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vê pontos favoráveis à gestão de Jair Bolsonaro. “Ele perde parte da aprovação, mas dentro do limite da margem de erro. E tem ainda um discurso muito valorizado em pelo menos 1/4 do eleitorado”, ponderou. 

 

A recente pesquisa Datafolha indica a gestão com uma aprovação de 29%. Considerando a margem de erro, de dois pontos para mais ou menos, é possível apontar que ele tem 31% de popularidade. Na última pesquisa, realizada em julho, ele tinha 33%. Ou seja, o governo está no limite da margem de erro. Além disso, Baía ressalta não ter notado nos números com perda de densidade no Sudeste, região estratégica para qualquer gestão e político.

 

No entanto, param aí os pontos favoráveis. Baía observou na pesquisa recente uma perda de densidade considerável na região Sul e do eleitorado de classe média alta. “A pesquisa não é boa, nem ruim, mas tem um viés de queda, que pode chegar à região Sudeste e ultrapassar a linha da classe média baixa em resultados futuros”, alertou. Para o professor da UFRJ, o eleitor “raiz” ainda não está afetado, mas o governo começa a perder o apoio do apoiador mais moderado, de centro. 

 

Reversão

A reversão do quadro de popularidade, para Baía, passa por algumas correções. “Se Bolsonaro quer manter uma faixa competitiva, alguns ajustes de discursos e de agenda precisarão ser feitos. Não sei se Bolsonaro perde, enquanto eleitor, aqueles votos absorvidos de candidatos mais centristas, como (Geraldo) Alckmin (candidato do PSDB), do (João) Amoedo (candidato do Novo), e do (Henrique) Meirelles (candidato do MDB). Mas, na satisfação momentânea, perde”, destacou. 

 

O cientista político Lucas Fernandes, consultor de análise política da BMJ Consultores, também faz uma leitura ponderada da pesquisa. Ressalta que Bolsonaro a aprovação de Bolsonaro se mantém dentro da margem de erro, mas alerta para os riscos desse patamar cair ainda mais. “O presidencialismo de coalizão exercido pelo (ex-presidente Michel) Temer o possibilitou a ter uma boa interlocução com o Parlamento, apesar da rejeição. A atual gestão, contudo, não exerce esse mesmo presidencialismo. A popularidade de Bolsonaro é o ativo que ele tem para negociar com o Congresso. Se ele perde isso, o poder de barganha vai para o espaço”, advertiu.

 

No entanto, diferentemente de Baía, Fernandes observa alguma alteração no ritmo do eleitor. Para ele, o levantamento do Datafolha aponta que uma camada do eleitor ideológico, ainda que pequena, começa a migrar para quem faz uma análise moderada do governo. “A avaliação do governo como regular ficou estável, de 31%, em julho, para 30%. Isso sugere que, quem apoiava e achava o governo ótimo ou bom, passou a ser regular. E alguns dos que se situavam entre os regulares passaram a reprovar, ou seja, interpretar a gestão como ruim ou péssima”, ponderou.

 

Diante das dificuldades de observar Bolsonaro adotando uma narrativa mais ao centro, com mais equilíbrio, abandonando o tom mais radical, Fernandes entende que apenas a economia pode mudar os atuais dados.  “Se ele se sentir muito pressionado, é possível que modere o discurso. Mas acreditamos que isso seja pouco provável. Assim, essa gestão dependerá de bons resultados da economia, algo que não esperávamos para o curto prazo. A violência ainda é um problema central, mas questões econômicas se valorizaram mais nessa pesquisa”, sustentou. 

 

Luz vermelha

O deputado federal José Nelto (Podemos-GO), líder do partido na Câmara, interpreta como bem fundamentada a pesquisa e alerta para os riscos políticos que ela sugere. “A partir do momento que o governo não tem base, perde capital político rapidamente, briga com vários setores da sociedade e compra brigas com o mundo civilizado, dispensando ajuda, a sociedade acende a luz amarela. Para a luz amarela chegar à vermelha é um piscar de olhos”, avisou. 

 

Os riscos políticos se referem às dificuldades em aprovação de reformas. Nelto alerta que o aumento da impopularidade pode complicar e exigir um custo político maior para obter vitórias em temas que não sejam de interesse mútuo do país, como a agenda econômica. “Essa questão do filho (Eduardo) para a embaixada brasileira nos Estados Unidos vai ter um preço alto. A sociedade rejeita o nepotismo, e o Senado vai ouvir isso”, justificou. 

 

Nesta terça-feira (3/9), a bancada do Podemos se reunirá com o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, para discutir a relação com o governo. A composição do partido com o Planalto, ou seja, a discussão da formação de base, deve ser dialogada, admite Nelto. Mas dependerá do Executivo. “Tudo depende do governo. Tem que sinalizar. Nós sinalizamos um diálogo republicano e o governo está achando que o Centrão é que vai salvar ele”, criticou. 

 

O parlamentar reconhece que há um descontentamento grande de partidos da chamada Aliança para o Bem do Brasil, bloco aprovado na Câmara composto por Podemos, Cidadania, PV, Patriota e Novo, com o governo. “Sinalizamos apoio para dialogar votações nominais nas sessões plenárias (de matérias polêmicas), e estamos aguardando”, contextualizou. Mesmo parlamentares do chamado Centrão e outros partidos maiores na Câmara também criticam o governo. “O Planalto dialoga com os líderes, mas, dentro da pirâmide do partido, tem gente que não está ganhando nada”, alertou uma liderança do blocão.