Surfistas do cerrado

Publicado em Crônicas
2018. Crédito: Carlos Müller/Divulgação.  Banda brasiliense Natiruts.

Severino Francisco

Quando a minha filha falou que havia escolhido uma praia no Paraná para passar três dias de descanso com a família, pensei que fosse uma piada. Não tinha notícia de que aquele simpático estado, terra natal do implacável Dalton Trevisan, tivesse um verão à beira-mar.

Não botei nenhuma fé no excêntrico roteiro supostamente marítimo. Mas, para meu espanto, eu estava completamente equivocado. Que me desculpem os que desacreditam da astrologia, no entanto, gostaria de registrar que a minha filha é veloz, tem áries no signo solar e leão no ascendente.

Pois bem, lá fomos nós para uma cidadezinha organizada, com pousadas agradáveis e boa comida a um preço razoável. O mar era manso, com ondas pequenas, perfeito para quem leva crianças. Sem eles, a festa não é completa.

Bem, à noite, saímos da pousada para fazer um passeio no calçadão da orla. Uma emissora de rádio da cidade animava o passeio com música. Não prestava muita atenção à trilha sonora, pois era uma oportunidade de conversar de frente para o barulho das ondas, que, segundo Rubem Braga, é a música de Deus.

1997. Crédito: Kiko Peres/Divulgação. Banda Natiruts, durante na Ermida Dom Bosco.

Mas, de repente, tocou um reggae que fez até as ondas balançarem na levada. Tudo entrava em sintonia e sincronia com a música. Era a trilha sonora perfeita para aquele instante de devaneio. Prestei mais atenção e me liguei: caramba, era música brasiliense, era o Natiruts: “Quero ser feliz também/Cresça, independente do que aconteça/Eu não quero que você esqueça/Que eu gosto muito de você”.

A canção bateu-me na alma não apenas pelo bairrismo, mas também porque é linda; é uma música feliz, solar, que traz uma promessa de felicidade: “Quero ser feliz também/Navegar nas águas do teu mar/Desejar para tudo o que vem/Flores brancas/Paz e Iemanjá”.

 

16/9/1998. Crédito: Jorge Cardoso/CB/D.A Press. Brasil – GO. Integrantes da banda de reggae Nativus, matriz da Natiruts,  no dia da gravação de seu vídeo clip, na Chapada dos Veadeiros.

Naveguei na canção e ela me deu uma enorme nostalgia da felicidade, porque atravessamos um período muito difícil, que já se arrasta por vários anos.Talvez não tenhamos feito nada para merecê-la nos últimos tempos, ao menos do ponto de vista coletivo. Ou então os deuses estão jogando dados que desconhecemos.

Brasília é uma cidade artificial capaz de produzir trilha sonora para o verão praiano brasileiro, em territórios que ficam há muitos quilômetros da aridez do cerrado. O artificial se transformou em histórico e em cultural.

Um amigo me disse que o Natiruts é a trilha sonora das praias brasileiras no verão. Ele constatou o sucesso na Bahia, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e em Curitiba. No máximo, as e os Natiruts são surfistas do Lago Paranoá.

É curioso e divertido constatar que o reggae de Brasília, uma cidade que, segundo Clarice Lispector, é uma praia sem mar, balança o verão do litoral brasileiro. “Quero ser feliz também/navegar no mar do teu olhar…”

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