Trabalho infantil já machucou gravemente quase 30 mil crianças desde 2007 e nunca vale a pena

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Por Luiz Neto*

Dados do Ministério da Saúde revelam que, desde 2007,, por causa do trabalho infantil, mais de 45 mil crianças e adolescentes tiveram Problemas de saúde saúde, 27.180 meninos e meninas sofreram acidentes graves e 268 morreram. Os dados vão de 2007 até 2019. Segundo o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI), há 1,7 milhão de crianças e adolescentes que, além de trabalharem, estudarm e realizam afazeres domésticos.

Dados do Ministério da Saúde mostram consequências do trabalho infantil

Essa longa jornada de trabalho aumenta o abandono à escola e, quando não causa o abandono, prejudica o desempenho das crianças na escola. Já os acidentes podem ser graves, causando até mesmo mutilações e mortes. Foram 698 amputações traumáticas no nível do pulso e da mão entre 2007 e 2019.

As consequências do trabalho infantil podem ser várias, todas problemáticas. Segundo a secretária executiva do FNPETI, Isa Oliveira, “as duas mais graves são empecilhos à escolarização e riscos à segurança física”. Ela destaca que a exploração infantil é, infelizmente, muito mais comum e mais próximo do cotidiano do que se pode pensar. “Há grandes empresas que não empregam diretamente crianças e adolescentes, mas não monitoram a linha de produção do produto. Então, o produto final tem trabalho infantil em seu histórico”, denuncia.

Isa Oliveira, secretária-executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (FNPETI)

Isa destacou a indústria do chocolate, a do amendoim e a da mandioca como algumas das mais problemáticas. Para a secretária, o perfil do trabalho infantil no Distrito Federal é diferente. A maioria das crianças e adolescentes que são obrigadas a trabalhar estão na área urbana. “Quando o cidadão ou cidadã presenciar o trabalho infantil visível, seja como vendedor ambulante ou o que for, ele ajuda ao não contratar esses serviços”, disse Isa Oliveira.

Além disso, ela destaca que “temos que lembrar que crianças e adolescentes são sujeitos que têm o direito de brincar”. A exploração do trabalho, por vezes, acaba levando a outros tipos de violação. “Ao negar esse direito, estamos incentivando que as crianças voltem para as ruas, onde ficam vulneráveis ao aliciamento do tráfico de drogas e exploração sexual.”

André Luiz Pires é graduado em ciências econômicas pela Universidade de Sorocaba e mestre em economia pela Universidade Federal de Uberlândia. Em seu artigo acadêmico Trabalho infantil vale a pena?, ele diz que “é amplamente reconhecido que esta forma de trabalho gera apenas malefícios, não só para as crianças que trabalham, como também para a sociedade em geral.”

Campanha “Trabalho infantil vale a pena?”

O Ministério Público do Trabalho da Paraíba (MPT-PB), o Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção ao Trabalhador Adolescente na Paraíba (FEPETI-PB) e a Casa Pequeno Davi, com apoio do Fórum Nacional, divulgam, no mês da criança, a campanha “Trabalho infantil vale a pena?”. A pergunta é uma provocação, diante da defesa do trabalho infantil feita por autoridades, como o próprio presidente Jair Bolsonaro.

A campanha é composta por cartazes e vídeos. A parte audiovisual mostra o depoimento de adultos vítimas do trabalho infantil. Eles contam como lidam com as consequências dessa grave violação de direitos. A campanha é acompanhada da hashtag #TrabalhoInfantilNAOValeaPena.

Denuncie!

Se você souber ou presenciar alguma situação de trabalho infantil, há vários jeitos de denunciar. Por telefone, é possível ligar para o Disque 100. On-line, é possível denunciar no site do Ministério Público do Trabalho. Outros órgãos que podem ser procurados são o Conselhos Tutelares, Delegacias Regionais do Trabalho e Secretarias de Assistência Social.

 

*Estagiário sob supervisão de Ana Paula Lisboa

App que conecta pais a babás chega ao Brasil; há mais de 1,1 mil profissionais cadastradas no DF

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Como você costuma contratar babá para ficar com seus filhos? A tecnologia, agora, se torna aliada de pais que precisam de alguém de última hora. Aplicativo especializado em conectar babás a pais passou a funcionar no Brasil e em Brasília: é o Sitly. O app foi criado em 2009, na Holanda. A novidade Chegou ao país após 10 anos funcionando apenas na Europa.

A ferramenta usa geolocalização para fazer a conexão entre o lado de quem busca emprego, e o de quem busca alguém para cuidar de crianças. Filtros e avaliações estão entre as possibilidades de busca para facilitar o encontro de acordo com as preferências. O aplicativo está disponível para iOS e Android.

O Distrito Federal conta com aproximadamente 1.100 babás cadastradas no aplicativo, que já está presente em mais de 440 cidades brasileiras, sendo as mais populares Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e belo Horizonte.

Pais ou responsáveis interessados em buscar uma babá pelo aplicativo podem fazer o cadastro, de forma gratuita e inserir preferências e necessidades, como valor que você está disposto a pagar, carga horária, entre outros.

Após responder o filtro, a plataforma mostra todas as cuidadoras que se encaixam no perfil descrito. É possível enviar mensagens e marcar entrevista para conhecer as escolhidas e observar como ela interage com as crianças.

Para cuidadoras, o cadastro é parecido. É necessário inserir dados como disponibilidade, experiência e valor por hora, além da foto de perfil. As famílias compatíveis aparecerão depois do preenchimento dos dados.
Assim como no caso dos pais, as babás também podem enviar mensagens e agendar uma entrevista.

Para mais informações, acesse o site.

Simpósio internacional de medicina fetal ocorre em São Paulo

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O Centro de Ensino Superior Especializado em Diagnóstico por Imagem (Cetrus) organiza o Simpósio Internacional de Medicina Fetal. O evento será em 19 de outubro em São Paulo, no Bourbon Convention Ibirapuera Hotel. O objetivo do simpósio é debater temas como a prática diária dos obstetras e fetólogos. Autoridades nacionais e internacionais participarão, alguns presencialmente e outros por videoconferência.

Fábio Peralta, Simone Pedra e Katia Bilardo: alguns dos especialistas que se apresentarão no evento

O valor da inscrição é R$ 1.200 e pode ser feita até 19 de outubro, no dia do evento. Mais informações podem ser encontrados no link.

Conheça alguns dos palestrantes:

Simone Pedra (Brasil): chefe do departamento de Cardiologia Fetal do Instituto Dante Pazzanese, chefe da Ecocardiografia Fetal do Hospital do Coração e influente pesquisadora em cardiologia fetal e intervenções cardíacas no feto. Falará sobre cardiopatias fetais, o que diagnosticar no primeiro trimestre, suspeita e prognóstico, além de intervenções no coração fetal a partir de resultados no Brasil e no mundo.

Fábio Peralta (Brasil): doutor em medicina pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutor em medicina fetal e responsável pelo setor de Medicina Fetal do Cetrus.

Daniel Rolnik (Austrália): professor de ginecologia, obstetrícia e medicina fetal da Universidade de Monash, autor do ASPRE trial e um dos grandes pesquisadores da atualidade em rastreamento e prevenção de pré-eclâmpsia. No evento, abordará as temáticas rastreamento e prevenção da pré-eclâmpsia em gestações únicas e gemelares.

Katia Bilardo (Holanda): professora de medicina fetal, diagnóstico pré-natal e tratamento do feto da Universidade de Groningen, organizadora do TRUFFLE trial e uma das mais influentes pesquisadoras em vitalidade fetal. Palestrará sobre diagnóstico e conduta na restrição de crescimento fetal e resultados pós-natais.

Um dado alarmante no Dia das Crianças: meninos e meninas se sentem desprotegidos e não ouvidos

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O estudo Small Voices Big Dreams 2019 (“pequenas vozes, grandes sonhos 2019”, em tradução livre), do ChildFund Alliance, ouviu quase 5.500 crianças de 10 a 12 anos de 15 países diferentes. Os resultados apresentados pelo levantamento da agência humanitária internacional foram preocupantes.

Confira destaques dos resultados entre crianças brasileiras. ChildFund Alliance

Uma em cada duas crianças não acredita que os adultos escutem sua opinião em assuntos que são importantes para ela. Apenas 18% acredita que o governo agiria para protegê-las. Mais de 88% das crianças acredita que devem pedir ajuda de adultos em situações violentas, mas a maioria encontra barreiras para fazê-lo. Estes são alguns dos dados globais.

E o que pensam as crianças brasileiras?

Ao comparar os dados do Brasil com o do resto do mundo, a situação parece se agravar. No Brasil, a pesquisa foi feita com 722 crianças nos estados em que a ChildFund atua: Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Amazonas, Piauí, Bahia e Goiás. Aqui, 67% dos meninos e meninas de 10 a 12 anos não se sentem suficientemente protegidos contra a violência. A média no mundo é de 40%. Além disso, menos de 3% das crianças acredita que políticos e governantes cumprem seu papel para protegê-las. A média mundial é de 18,1%.

As causas da violência segundo as crianças brasileiras. ChildFund Alliance

No Brasil, 90% dos meninos e meninas entrevistados rejeitam a violência física como um instrumento de educação. No levantamento global, esse percentual é de 69%. Os lugares em que as crianças mais se sentem seguras é em casa e com seus pais (especialmente com a mãe). Nove em cada 10 crianças acredita que a coisa mais importante que adultos podem fazer para combater a violência contra crianças é amar mais as crianças e escutar o que elas têm a dizer.

As principais causas da violência infantil, na avaliação das crianças brasileiras, são o fato de serem indefesas, a falta de conhecimento dos direitos que possuem e a perda de autocontrole dos adultos devido ao uso de substâncias. Enquanto as garotas têm medo de que coisas ruins aconteçam com elas, garotos têm medo de serem forçados a fazer coisas ruins. Garotas também identificam mais alguns tipos de violência que garotos, especialmente os de natureza sexual.

 

As causas da violência

 

De acordo com as crianças, há uma relação de desequilíbrio de poder em situações violentas. Os entrevistados ressaltaram três principais fontes de violência: a impotência das crianças, o ciclo da violência e abuso de substâncias. Quase seis de cada 10 crianças acham que a violência ocorre porque elas não conseguem defender a si mesmas de adultos ou de outras crianças.

 

Uma porcentagem alta dos entrevistados acredita que adultos que mal-tratam crianças foram vítimas de violência na infância. Além disso, 69% das crianças não acham aceitáveis punições físicas para crianças. Esse índice é menor em países africanos e asiáticos.

O estudo na íntegra está disponível em inglês, espanhol e francês, e pode ser encontrado no link.

No Dia das Crianças, sociedades de ortopedia alertam para a prevenção de acidentes

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Durante todo o mês de outubro, quando se comemora o dia da criança, a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) desenvolve, em parceria com a Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica (SBOP), uma campanha on-line para alertar pais e cuidadores sobre prevenção de acidentes com os pequenos.

SBOT/SBOP

De acordo com a ONG Criança Segura, os acidentes são a principal causa de morte de crianças e adolescentes de 1 a 14 anos no Brasil, superando óbitos relacionados a doenças e até mesmo a violência. O objetivo da ação é destacar ações para evitar que isso aconteça.

Confira atitudes que podem salvar vidas, de acordo com a SBOT:

>> Levar os pequenos corretamente no banco de trás, usando cadeirinha e cinto de segurança;
>> Redobrar a atenção ao entrar em águas desconhecidas, seja em lugares com cachoeiras, rios, lagos, praias seja em piscinas, a fim de evitar afogamentos;
>> Para evitar queimaduras, orientar as crianças a estourar bombinhas e estalinhos longe de fogueiras, de substâncias inflamáveis, de pessoas e de objetos que podem quebrar e se estilhaçar, caso de garrafas de vidro e latas de refrigerante. E também de não carregar os artefatos nos bolsos, já que eles podem explodir acidentalmente;
>> A fim de evitar engasgamentos, preste atenção aos acessórios das roupas, como cordões e broches; nunca dar ou deixar que a criança se alimente deitada; e não oferecer nada enquanto ela estiver falando, andando, correndo, brincando ou chorando.

Livro infantil apresenta a ecologia para as crianças de um modo fácil e divertido

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Ecologia até na sopa, das autoras argentinas Mariela Kogan e Ilena Lotersztain, com ilustrações de Pablo Picyk, propõe uma narrativa fictícia, mas com informações verdadeiras, que tem o intuito de apresentar para o público infantojuvenil a importância da ecologia e da preservação do meio ambiente. As páginas mostram como preservar a natureza afeta a vida de todos, independentemente da idade ou do lugar onde vivem.

O livro conta a história de duas irmãs, Sofia e Violeta, que vão passar a tarde com a tia Mariela. A partir de situações cotidianas, a tia tira, de uma maneira divertida, as dúvidas que as sobrinhas têm em relação à ecologia.

Ao decorrer das páginas, são apresentados temas como: por que sacolas plásticas são tão perigosas, o que significa o aquecimento global, a importância de economizar água e aonde a fumaça dos carros vai parar. Os assuntos são tratados em uma linguagem didática e direta, fazendo com que o jovem leitor entenda com facilidade assuntos que não fáceis de explicar.

Todas as explicações são acompanhadas de ricas e coloridas ilustrações, contribuindo ainda mais para a compreensão do tema. Ecologia até na sopa é uma ótima dica de leitura para a criançada não só passar o tempo, mas também se informar e se conscientizar — e as menores, ainda não alfabetizadas, podem acompanhar com intermédio de um leitor.

Ecologia até na sopa

Autoras: Mariela Kogan e Ileana Lotersztain

Ilustrador: Pablo Picyk

Tradutora: Mell Brites

Editora: Companhia das Letrinhas

48 páginas

R$ 39,90

Hospital Anchieta abre inscrições para curso gratuito de gestantes e shantala

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O curso, oferecido há 24 anos gratuitamente, tem como proposta discutir os cuidados durante a gravidez, com o recém-nascido, amamentação, e a massagem indiana que ajuda a acalmar os bebês.

Esta já é a quarta edição do curso em 2019. As inscrições começaram na última segunda-feira (7) e seguem abertas enquanto houver vagas. As aulas são gratuitas e ocorrerão no Hospital Anchieta, localizado em Taguatinga, em 4, 11, 18 e 25 de novembro, das 14h30 às 18h30. Os interessados devem acessar o site  para se inscrever.

Ofertado há 24 anos, desde o início do hospital, o curso se tornou referência para mães que desejam aprender os cuidados com os bebês recém-nascidos. No entanto, não é um curso direcionado apenas para as mamães, pois é importante que todos os familiares que são responsáveis por uma criança estejam envolvidos, por isso é possível que um acompanhante esteja presente.

A equipe multidisciplinar responsável pelo curso é composta por obstetra, anestesiologista, pediatra, enfermeira, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e psicóloga.

Além das aulas abordando os cuidados durante a gravidez e a shantala, os especialistas tiram dúvidas sobre anestesia e a massagem terapêutica para os bebês.

A primeira infância é problema de todo mundo, defende a atriz Denise Fraga

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São Paulo – O segundo e último dia do Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância juntou em torno do debate sobre o início da vida personalidades, além do médico Drauzio Varella, como a atriz Denise Fraga; a diretora de Responsabilidade Social da TV Globo, Beatriz Azeredo; e o diretor de campanhas da Purpose no Brasil, Caio Coimbra. O evento, organizado pelo Núcleo de Ciência pela Infância (NCPI), reuniu 300 pessoas presencialmente em São Paulo, além de diversas outras em 84 simpósios-satélites realizados em 84 localidades, das quais duas no exterior.

A atriz Denise Fraga fez uma importante reflexão sobre a necessidade de repensar comportamentos individuais e comunitários. Após se tornar mãe, ela começou a escrever uma coluna de crônicas na Revista Crescer, em que desabafa e faz pensar sobre maternidade, filhos e infância. “Se tem algo que nossos filhos vão nos dar é dúvidas. Aí me convidaram para fazer essa coluna, onde eu pudesse despejar tudo isso, e eu me descobri um ser escrevente”, disse.

Em uma de suas crônicas, Denise Fraga diz que “nossos pequenos nos dão um tesouro: a chance de nos reconectarmos com o que é essencial”, no sentido de estar no momento presente, observar com atenção plena objetos tão simples quanto uma colher. “Como eles são melhores do que nós, eles ainda têm algo que perdemos.” A atriz revelou se preocupar com o processo de “desumanização” que acomete a sociedade atual.

“Todos nós, nossa família, nossos filhos estão com o olho enfiado na tela, com a atenção dividida… Eu fico pensando no que a gente vai fazer com essa arma fantástica que está mais usando a gente do que a gente usando ela, que é o celular.” Toda essa dispersão e o excesso e a velocidade de informações acabam desviando o foco do que é realmente importante. “Eu li outro dia que aumentou muito o suicídio infantil, de 8 a 12 anos. Deveria soar uma sirene contínua infernizando nossos ouvidos. As crianças estão se suicidando. Aí tem alguma coisa muito errada”, alertou.

“E como a gente se atreve a não fazer nada?”, questionou. Ela defende que, assim como a omissão é um enorme erro, o comprometimento têm grande impacto. “São as pessoas que fazem a diferença. Eu fico mais esperançosa porque ainda tem gente fazendo, ainda tem muita gente legal neste mundo”, afirmou. “A gente tem que ficar atento para ter estraétigas de esperança. Eu sinto que há uma epidemia de melancolia. É uma sociedade absurda. Com quem você acha que vai ficar o filho de uma pessoa que ganha um salário minímo se ela não tem creche?”, perguntou.

A artista acredita que as tradições dos indígenas Maputi, do Chile, podem ser boa inspiração para moldar uma nova sociedade, que se responsabilize pelas crianças de forma coletiva, em vez de atribuir essa responsabilidade somente aos pais. “O que me marcou é que eles dizem: seu filho não é seu, seu filho é nosso. A missão de cuidar é de todos. Os índios fazem isso.” É preciso que o Brasil assuma essa postura com relação à primeira infância, que é onde começam todas as desigualdades. “Tem gente que diz: não é problema meu. Mas é problema de todos nós.”

Encontro de alumni

Na tarde desta sexta-feira (4), ocorreu um encontro dos ex-alunos do curso de liderança executiva em desenvolvimento da primeira infância, que é promovido em parceria entre a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e a Universidade Harvard.

No total, 580 pessoas já passaram pela formação, entre parlamentares, prefeitos, governadores, primeiras-damas e outros líderes, servidores públicos, educadores, trabalhadores de saúde e assistência social, integrantes do terceiro setor, entre outros que podem fazer a diferença no desenvolvimento da primeira infância em suas áreas de atuação.

O curso, inclusive, foi um dos propulsores que permitiu a criação e a aprovação, em apenas um ano, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, do Marco Legal da Primeira Infância. Como destacou o ministro da Cidadania, Osmar Terra, na quinta (3).

“Eu nunca tinha visto algo assim. O Marco da Primeira Infância foi aprovado no Senado e na Câmara por unanimidade. Tinha parlamentares de todos os partidos lutando por isso”. Ele destacou a importância da iniciativa. “O curso de Harvard foi decisivo para esse processo”, afirmou.

 

*A jornalista viajou a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

Programas de visitas domiciliares, como o Criança Feliz, são maior aposta de especialistas para garantir desenvolvimento na primeira infância para as famílias mais pobres

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São Paulo – “As famílias são a chave para o estímulo na primeira infância. É ela que provê recursos, apego, amor, estímulo e aprendizados”, comentou Raquel Bernal, professora da Universidade de Los Andes, na Colômbia, durante o oitavo Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infânncia. “Nem todos os pais sabem fazer isso. Em alguns, não há espaço no cérebro pra pensar na criança já que estão lidando com problemas graves como falta de comida, falta de moradia.”

Raquel Bernal, da Universidade de Los Andes

Por isso, ela defende que programas de parentalidade, incluindo os de visitas domiciliares, são muito importantes. No entanto, eles precisam ter qualidade. “Em outras áreas, se o governo investir em algo que não for bom, pode só desperdiçar dinheiro. Na primeira infância, se a qualidade do programa não for boa, você pode machucar e prejudicar as crianças”, alertou Raquel.

Elementos-chave que ela cita para assegurar a qualidade de programas de parentalidade são: currículo estruturado com base em evidências; pessoal qualificado, treinado e orientado sistematicamente; brinquedos e materiais para compartilhar; e supervisão construtiva. “Não tem equidade sem qualidade. E sem qualidade a gente corre o risco de intensificar desigualdades”, declarou Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

O professor do Insper Naercio Menezes Filho

Na avaliação do professor do Insper Naercio Menezes, para ajudar as famílias com menor escolaridade e renda, há muito que se pode fazer. “Os programas em que vemos mais efeito são os de visitas domiciliares, como o Criança Feliz. É importante ter alguém visitando essas famílias pobres para identificar problemas e encaminhar quando preciso, por exemplo, para um médico; além de ajudar a melhorar a interação entre as mãos e as crianças”, apontou.

Iniciativa é consolidada internacionalmente

O formato é reconhecido mundialmente, como comentou Helen Raikes, professora catedrática de estudos da criança, juventude e família da Universidade de Nebraska-Lincoln, nos Estados Unidos. Avaliando programas de visitas domiciliares, ela concluiu que eles têm resultados tanto de curto quanto de longo prazo.

“Os programas de visitação familiar podem reduzir pela metade a taxa de abuso e negligência à criança e o envolvimento com os serviços de proteção infantil”, analisou ela, a partir de quatro estudos sobre programas de intervenção de qualidade para crianças de 0 a 3 anos em situação de risco nos Estados Unidos.

Helen Haikes, da Universidade de Nebraska-Lincoln

Esse tipo de política pública também traz impactos ao desenvolvimento cognitivo e de linguagem. Em longo prazo, os resultados envolvem melhor escolaridade, empregabilidade e salários ao longo da vida. Em geral, na vida adulta, essas pessoas tendem a ter filhos mais tarde e a ser mais saudáveis (com taxas mais baixas de pré-hipertensão, menor risco de doenças cardíacas e menos obesidade).

 

*A jornalista viajou a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

“Onde você nasce determina onde você estará em 40 anos”: o peso da escolaridade e da condição socioeconômica das mães

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São Paulo – Mais da metade das crianças vivem em situações fora do ideal no Brasil, o que atrapalha a formação de cidadãos plenos. Ao mesmo tempo, a primeira infância é a faixa etária em que, se houver investimento, tem mais potencial de quebrar ciclos de desigualdade. É o que destaca Naercio Menezes Filho, doutor em economia pela Universidade de Londres e professor do Insper e da Universidade de São Paulo (USP). “O Brasil é bastante estratificado, com pouquíssima mobilidade entre classes”, disse. “E a primeira infância é a melhor maneira de atacar a desigualdade”, afirmou durante o oitavo Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância.

O doutor em economia Naercio Menezes Filho

 

O evento começou nesta quinta-feira (3) e continua nesta sexta-feira (4). Apesar de admitir que houve melhorias ao longo dos anos na situação das crianças, há muito o que avançar no país nesse sentido, como Naercio comenta a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Em torno de 60% das nossas crianças estão vivendo com pelo menos uma dessas restrições: falta de proteção social, de moradia ou de saneamento básico”, alertou. Além disso, de acordo com o Unicef (Fundo das Nações Unidas pela Infância), 60% das crianças e dos adolescentes no país, ou 32 milhões, vivem na pobreza. “Será que eles vão ter condições de realizar seus sonhos?”, questionou Naercio.

Produtividade estagnada

“Até que ponto o baixo aprendizado (como mostram resultados do Pisa, Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) e a situação dos jovens nem nem (que nem estudam nem trabalham) vêm das desigualdades da primeira infância?”, perguntou. “Nossa produtividade, em termos de PIB por trabalhador, é a mesma de 40 anos atrás. Até que ponto isso reflete a falta de qualidade e resultados na educação que, por sua vez, decorre de problemas na primeira infância?”

O peso da escolaridade das mães

Segundo ele, que desenvolve estudos em áreas como educação, mercado de trabalho, distribuição de renda e produtividade, a escolaridade das mães é um dos maiores preditores do futuro das crianças. “As análises mostram que os filhos de analfabetas dificilmente chegam à faculdade, enquanto os filhos das mães com nível superior seguem, em sua maior parte, para o nível superior”, observou. Dessa maneira, Naercio relaciona baixos resultados educacionais e profissionais com o que ele chama de “a loteria da vida”: quem teve a sorte de nascer num lar com melhores condições e pais com maior escolaridade terá, desde o ventre, mais vantagens.

Raquel Bernal, professora da Universidade de Los Andes

“Onde você nasce vai determinar onde você estará daqui a 40 anos, mas não deveria ser assim. A gente acha que é natural, mas todos deveriam ter oportunidades iguais”, defendeu Naercio. “As mães com nível superior fazem cerca de 10 consultas de pré-natal; as mães com até quatro anos de estudo fazem 6. Até o peso ao nascer do bebês de mães com ensino superior é maior”, comparou. Raquel Bernal, professora de economia da Universidade de Los Andes, na Colômbia, também percebe isso.

Em estudo em que comparou atividades estimulantes desenvolvidas com filhos de mães com diferentes níveis de escolaridade em Argentina, Costa Rica, Panamá, Trindade e Tobago, verificou que a quantidade de atividades estimulantes cresce com a quantidade de anos estudados pelas mães. “Existem lacunas significativas nos ambientes de aprendizagem nas casas das famílias por causa de características socioeconômicas”, observou a doutora em economia pela Universidade de Nova York. Por isso, políticas públicas e programas que auxiliam as famílias em sua missão têm grande valor, segundo a pesquisadora.

 

*A jornalista viajou a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal