Novas creches públicas do DF atenderão 787 crianças de 0 a 3 anos

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A volta às aulas da rede pública, nesta segunda-feira (29), é marcada pela inauguração de novas creches. A Secretaria de Educação (SEE-DF) abriu 787 vagas para crianças de 0 a 3 anos nas regionais de ensino de Samambaia, São Sebastião, Núcleo Bandeirante, Sobradinho (Fercal) e Gama. O Governo do Distrito Federal (GDF) já havia anunciado que abriria mais 1.295 vagas em creches a partir de 29 de julho.

Do total, há 348 vagas em Samambaia, onde começam a funcionar dois centros educacionais de primeira infância (Cepi) para meninos e meninas de até 3 anos: o Azulão, na QN 425, e o Bambu, na Quadra 208. O restante das oportunidades será para instituições parceiras da SEE-DF, voltadas à faixa etária de 2 a 3 anos, sendo 92 vagas para a Fercal (regional de ensino de Sobradinho), 122 para o Gama, 100 para o Núcleo Bandeirante e 125 para São Sebastião.

As crianças que serão atendidas pela inauguração das novas creches serão as já inscritas e classificadas no Cadastro de Solicitação de Vagas. As famílias beneficiadas foram contatadas pela SEEDF. É possível conferir a classificação do seu filho na lista de espera para creches no link. Quem quiser se inscrever, deve fazê-lo ligando para o número 156, opção 2.

A rede pública de ensino do DF atende 459.935 mil estudantes da educação infantil à educação de Jovens e Adultos (EJA) em 678 unidades. A rede conta ainda com 111 instituições parceiras que atendem crianças de 0 a 3 anos e ganha mais seis creches com os Cepis inaugurados.

Carta-compromisso do MEC para melhorar a educação inclui creches

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24/08/2018. Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press.

Nesta quinta-feira (11), o ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o secretário de Educação Básica, Jânio Macedo, lançaram uma “carta-compromisso” com objetivos para a educação até 2022. O objetivo é impulsionar a educação infantil, o ensino fundamental, o ensino médio e a educação para jovens e adultos e tornar o Brasil referência em educação básica na América Latina até 2030.

O documento é dividido em sete eixos: creches, ensino fundamental, novo ensino médio, educação conectada, formação de docentes, escolas cívico-militares e retorno social. Em relação às creches, a intenção é inserir 1,7 milhão de crianças nas instituições. Para isso, o Programa Nacional de Reestruturação e Aquisição de Equipamentos para a Rede Escolar Pública de Educação Infantil (Proinfância) será reestruturado para agilizar a conclusão de mais de 4 mil creches até 2022.

Até o momento, menos de 50% das obras do programa foram concluídas desde 2007. Ao todo, foram aprovadas 9.028 obras das quais apenas 4.047 estão concluídas. Faltam finalizar 4.981.

Mais de 1.295 vagas serão abertas em creches do DF

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Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press.

A partir de 29 de julho, serão abertas mais 1.295 vagas para creches públicas no Distrito Federal. Essa ampliação ocorre com a assinatura de novos termos de colaboração e aditivos a contratos anteriores com instituições conveniadas. Serão beneficiadas as regiões administrativas de Samambaia, Núcleo Bandeirante, Estrutural, Gama, São Sebastião e Sobradinho. O objetivo é zerar a fila de espera para creches com a criação de 19 mil vagas, ao longo da atual gestão.

Esta é a primeira vez que a Secretaria de Estado de Educação (SEE-DF) busca cumprir decisão judicial de 1993 — conforme plano apresentado em Ação Civil Pública promovida pela Promotoria de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc) do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) —, definindo um plano de trabalho que inclui metas claras e um cronograma de atendimento à população, especialmente às mães que precisam trabalhar e não têm com quem deixar os filhos. Trata-se de um direito previsto na Constituição Federal e no Plano Nacional de Educação.

A SEE-DF irá assinar também um Termo de Cooperação com a Defensoria Pública do DF nesta terça-feira (2/7), às 11h. A parceria tem o objetivo de melhor o atendimento aos pais que buscam vagas em creche, evitando-se que tenham que entrar na Justiça para ver assegurado o direito dos filhos.

Reajuste com conveniadas

A SEE-DF começou o processo de criação das 1.295 vagas com a assinatura de novos termos de colaboração e aditivos a contratos anteriores com instituições parceiras para o atendimento. Como não recebiam aumento há dois anos, também está estabelecida uma norma para reajuste que, a partir de agora, será de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), no valor per capita.

Além disto, o objetivo dos novos contratos e aditivos é desburocratizar a relação da secretaria com as conveniadas, para tornar o processo dinâmico, de maneira que a negociação entre as partes atinja mais rapidamente a finalidade do interesse público. Os convênios continuam seguindo os critérios legais previstos, mas com o acréscimo de também observarem as especificidades das relações com as instituições parceiras.

Acesso

Para ter acesso à creche, a pessoa interessada deve ligar para o telefone 156, opção 2. As inscrições estão abertas durante o ano inteiro. A classificação das crianças inscritas no Cadastro de Solicitação de Vagas se dará ordem decrescente de pontuação, da maior pontuação para a menor, obtida a partir dos critérios de prioridade para o atendimento, a saber: mãe trabalhadora ou responsável legal trabalhador; baixa renda; medida protetiva; risco nutricional e mãe adolescente. Além disso, é levado em consideração o tempo de inscrição (criança que a cada ano completo, contado a partir da data de efetivação da inscrição, ficar aguardando o surgimento de vaga e o encaminhamento para a matrícula). Para conferir a posição do seu filho na lista de espera, acesse o site.

Governo do DF começará ano letivo com 3,7 mil novas vagas em creches

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Crianças em creche pública. Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A

O Governo do Distrito Federal começará o ano letivo da rede pública de ensino, na próxima segunda-feira (11), com 3.780 vagas ofertadas em creches. A seleção para preencher as vagas já começou, atendendo os alunos prioritários da lista de inscritos da Secretaria de Educação. As regionais de ensino têm convocado responsáveis para matricular os filhos desde a última segunda-feira (4).

As oportunidades foram abertas nas instituições devido a movimentação natural dos alunos que completam 3 anos de idade. Atualmente, a demanda de atendimento para crianças de 0 a 3 anos na rede pública é de 23.640 vagas. Com as vagas ofertadas esta semana, o déficit cai para 19.940. Neste momento, as maiores carências dentro do déficit geral, considerando a demanda de 23.640 inscritos, estão no Plano Piloto, com 4.151 crianças inscritas e aguardando vagas; Ceilândia, com 3.768; e Samambaia, com 3.058.

O GDF também prometeu que 2,3 mil vagas em creche serão abertas este ano, sendo que 1,3 mil ainda neste semestre, por meio de ampliação dos convênios em vigor, e outras 1 mil até o segundo semestre. As chances estarão disponíveis em seis Centros de Educação da Primeira Infância (Cepi) que serão inauguradas este ano. Saiba quais são e confira a etapa de preparo de cada um:

Em construção:

Cepi Periquito, em Samambaia

Cepi Bem-te-vi, em Samambaia

Cepi Papagaio, em Ceilândia

Cepi Cajuzinho, no Lago Norte

Aguardando mobiliário:

Cepi Bambu, em Samambaia

Cepi Azulão, em Samambaia

A meta do governo é criar 19 mil novas vagas nos próximos quatro anos. Se esse objetivo for alcançado, seriam quase 10 mil vagas a mais do que as criadas nos últimos sete anos, desde que a Secretaria de Educação passou a ter a responsabilidade de prestar este atendimento, em 2011. Todas as vagas são preenchidas conforme o Manual de Procedimentos para Atendimento à Educação Infantil, disponível no site da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF).

Com intuito de atender a demanda por creches, um dos caminhos planejados é a parceria com entidades filantrópicas, confessionais e sem fins lucrativos. No total, 112 instituições constituem a rede conveniada de ensino infantil (etapa creche) do DF, 60 delas com atendimento em prédio próprio e 52 em Centros de Ensino de Primeira Infância, os Cepis, que são parcerias público-privadas com gestão terceirizada. Todas as instituições que celebram convênio com a SEEDF passam por processo de chamada pública, atendendo às exigências legais estabelecidas para esse tipo de atendimento. Essas entidades hoje são responsáveis pelo atendimento de 15.025 crianças entre 0 e 3 anos.

As inscrições para creche pública podem ser feitas ao longo do ano pelo site, pelo telefone 156 (de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h) ou em cada regional de ensino da Secretaria de Educação. Quando surge vaga, as coordenações entram em contato com a família. Confira vídeo da Secretaria de Educação com orientações para inscrever seu filho na lista de espera para creches públicas do DF.

Crianças de 0 à 3 anos atendidas na rede de instituições parceiras
Evolução da rede conveniada

Pesquisadoras lançam livros sobre boas práticas e redes de cooperações em creches

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O livro Redes de cooperação em creches: sete histórias sobre a integralidade do cuidado na infância e intersetorialidade em ação aborda, a partir de histórias de sete municípios do estado de São Paulo, boas práticas intersetoriais cotidianas encontradas nas creches. A publicação é organizada por Claudia Maria Simões Martinez e Carla Regina Silva, ambas docentes do Departamento de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Carlos (DTO/UFSCar).

A obra traz dados gerados por pesquisa realizada entre 2013 e 2015, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV). O estudo investigou o que os gestores de creche fazem e o tipo de colaboração com a qual contam para solucionar problemas do dia a dia dessas instituições.

 

Como resolver problemas no dia a dia

A equipe de pesquisa foi composta pelas professoras da UFSCar Maria Cristina Piumbato Innocentini Hayashi, Regina Helena Torkomian e Patrícia Della Barba. Também participaram a docente convidada da Universidade do Porto (Portugal) Anne Marie Fontaine, bolsistas que receberam apoio da FMCSV/Fapesp e colaboradores da UFSCar e da Universidade de São Paulo (USP).

Escrito por docentes, terapeutas ocupacionais integrantes do DTO e estudantes, o livro é destinado a gestores e dirigentes de unidades de educação infantil públicas e privadas, além de profissionais envolvidos diretamente com o cuidado integral da criança na primeira infância.

O objetivo principal é indicar como resolver problemas do cotidiano, por exemplo: o que fazer se uma criança cai e se machuca, como revisar a segurança dos brinquedos e o que fazer quando se identificam maus tratos.

 

Leia!

Redes de cooperação em creches: sete histórias sobre a integralidade do cuidado na infância e intersetorialidade em ação

Organizadoras: Claudia Maria Simões Martinez e Carla Regina Silva

Editora: EduFSCar

135 páginas

R$ 29

Quer colocar seu filho numa creche pública do DF? Tire dúvidas em vídeo

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Ao todo, o Distrito Federal conta com 14 creches públicas, 58 instituições conveniadas e 50 Centros de Ensino da Primeira Infância (Cepiss) em várias regiões. Assim, em instituições públicas ou em parceria com o governo, são atendidas 15 mil crianças de até 3 anos e 47 mil meninos e meninas de 4 a 5 anos.

 

Com matrículas de fato em instituições totalmente públicas, há 1.004 crianças. Na rede particular, são 28.101. Nos últimos quatro anos, o Governo de Brasília incorporou mais 27 instituições à rede públicas de creche, mesmo assim, ainda há demanda não atendida.

 

Cerca de 16 mil aguardam na fila por uma vaga em creche pública na capital federal. O número assusta interessados que, às vezes, desanimam antes mesmo de tentar.

 

No entanto, inscrever-se é o único jeito de garantir que a vez do seu filho um dia chegará. Como ainda existem muitas dúvidas sobre onde ir, quem procurar e como fazer para conseguir uma matrícula na rede pública, a Secretaria de Educação preparou um vídeo para ajudar a explicar o passo a passo do processo. Confira:

 

As matrículas para creche na rede pública são feitas a qualquer época do ano pelo telefone 156 ou na regional de ensino de cada cidade. Saiba onde fica a creche mais próxima pelo site

 

Confira no link a classificação das crianças com inscrições validadas para vagas em creches públicas no DF até o momento.

 

Contexto nacional

Das mais de 11,8 milhões de crianças de 0 a 3 anos no país (segundo dados de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas cerca de 26% frequentam creches (sejam públicas sejam particulares). O cálculo foi feito a partir das Sinopses Estatísticas da Educação Básica de 2017, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

 

Apesar de o Inep não coletar o deficit de vagas, fazendo a correlação com os números populacionais e o número de crianças dessa faixa etária na creche (cerca de 3,1 milhões), chega-se a esse percentual. Bem abaixo da meta de ter 50% dos meninos e meninas de 0 a 3 anos em instituições do tipo estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE).

O centro comunitário que se tornou jardim de infância: conheça experiência de modelo alternativo de educação infantil no Chile

Publicado em Deixe um comentárioChile Crece Contigo, Creche

Santiago, Chile — Do lado de fora, parece uma casa como as outras da rua, térrea e simples, com grades no portão. Por dentro, porém, a edificação, mesmo que modesta, abriga um universo de diversão, aprendizado, afeto e arte para 20 crianças de 2 anos a 5 anos e 11 meses. Assim é o único Centro Educativo Cultural de la Infancia (Ceci) localizado na comuna de La Granja, em Santiago, no Chile. Nesse modelo de educação infantil, todos convivem juntos em uma única sala, onde brincam, ouvem histórias, fazem desenhos e pinturas, além de almoçar. Muito além da estrutura ou de qualquer outro aspecto, o que faz a diferença ali, como contam as famílias, é a dedicação das duas educadoras, Cecilia Férnandez e Gladys Hormazaval.

20 alunos frequentam o local

“Sou apaixonada pelo que faço. Fico encantada com a pureza das crianças”, conta Gladys. O amor pela atividade é visível em tudo o que faz. Para explicar, por exemplo, a uma menina de 3 anos que ela não pode sair da sala enquanto os outros almoçam, não se limita a ordenar ou proibir. A funcionária senta com a garota e esclarece que, naquele momento, se ela ficar no quintal, estará sozinha, pois durante o almoço, as “tias” precisam ajudar as outras crianças a comer. “E se você cair e se machucar, doerá em você e também em mim. Sofreremos as duas.” A mesma gentileza e sensibilidade observa-se em Cecilia.

A educadora Cecilia trabalha no local desde que ele foi fundado, na década de 1970

“A convivência com as crianças e as famílias sempre foi fácil para nós, pois nos baseamos no respeito. Há algumas muito ativas, outras mais reservadas, e aceitamos o jeito de cada uma. Não são elas que têm de se adaptar a nós, mas o contrário”, afirma Cecilia. Ali, meninos e meninas são livres para brincar com o que quiserem e só existe uma regra, baseada na consideração pelos demais: “É preciso respeitar o amiguinho, se ele está usando um brinquedo, por exemplo, tem de esperá-lo parar de usar”. Com o convívio social, é possível notar o desenvolvimento de cada aluno.

Gladys cuida das crianças com carinho de mãe e avó

Experiência aprovada

“Uma das crianças aqui tem autismo, e o pai estava desesperançoso quando a trouxe para cá, mas, em pouco tempo, as mudanças eram visíveis. Ele conta que o filho mudou demais, socializa, participa das atividades”, comemora. Os bons resultados também têm como componente fundamental a participação ativa das famílias que não só comparecem a reuniões, mas avaliam as funcionárias periodicamente e são estimuladas a contribuir com os projetos da instituição, cada uma como puder. Os pais de Agustín Vergara, 5 anos, por exemplo, fazem móveis em madeira e trouxeram para o centro infantil um esqueleto de baleia em madeira, quando a turma estava investigando esse animal.

Agustín e a mãe, Evelin, mostra réplica de apiário de madeira feita pela família e levada para o centro

Em outra ocasião, quando as crianças estavam aprendendo sobre as abelhas, produziram a réplica de um apiário. Os temas que motivam as atividades são escolhidos pelas próprias crianças. Evelin Gallardo, mãe de Agustín, conta que dois tios do filho frequentaram o espaço durante a infância. “Por isso, procuramos esse lugar, que é excelente, a comida é de qualidade, tudo é bem-feito. O que realmente faz a diferença são as ‘tias’. O Agustín está aqui há três anos e melhorou muito na maneira de expressar ideias.” O garoto é um dos mais sociáveis da sala, gosta de puxar conversa com todo mundo.

Luciana e a avó, Cecilia

Volta e meia diz aos outros que tem superpoderes: “O principal é o da supervelocidade”, brinca. Luciana Poblete Sepulteda, 5, diz que tem muitos amigos ali no centro infantil. “O que eu mais gosto aqui é descobrir sobre os animais, como a baleia”, conta. Ela mora perto do centro infantil e costuma ser buscada pela avó, Cecilia Cabierre, que é só elogios para a instituição. “É um espaço muito bom. Nesses dois anos, a Luciana aprendeu mais sobre compartilhar, dividir com os outros e socializar”, diz. Os Cecis são uma das modalidades alternativas ligadas à Junji (Junta Nacional de Jardines Infantiles). Esse tipo de espaço é sempre cedido e administrado por alguma organização social, recebendo fundos do governo. Cada estabelecimento pode atender até 32 crianças em período parcial de segunda a sexta-feira. À noite, são realizadas atividades com a comunidade.

 

Modelo diferente

O Ceci de La Granja surgiu como um centro comunitário de mães na década de 1970. “Durante o período da ditadura (que durou de 1973 a 1990), havia muitas famílias entristecidas. Muitos maridos tiveram de imigrar, e as esposas ficaram sozinhas. Éramos mães, mulheres da comunidade, que não tínhamos nada e começamos a trabalhar aqui tecendo lã, que vendíamos para o exterior”, recorda Cecilia. Elas não tinham com quem deixar os filhos, então vinham com eles para o espaço. Com o passar do tempo, cada vez mais integrantes passaram a trabalhar fora, então o que antes era um lugar para fazer artesanato na presença das crianças acabou se tornando um ambiente para acolher a meninada, mantido por mulheres da região.

“Recebíamos doações de alimentos, como queijo e leite, de ONGs e, em 1987, escrevemos uma carta à Junji pedindo ajuda para que fornecessem alimentação completa para os meninos”, afirma Cecilia, cujos três filhos e três netos frequentaram o espaço durante a infância. A existência e a continuidade do centro é prova do esforço das funcionárias e do envolvimento da comunidade com ele, pois os desafios não foram poucos. “Antes, tínhamos muitos cômodos, então atendíamos mais crianças, divididas em três turmas, até passarmos por um incêndio”, relata Cecilia. A casa ficou destruída depois que o fogo, que começou em um vizinho, se alastrou para ali.

Natalia Jimena Tapia Arévaldo, profissional de gestão de programas da Junji, e Paulina Saldaño Aránguiz, funcionária do sistema de proteção à infância do programa Chile Crece Contigo

A edificação (que hoje conta com dois salões, um onde funciona o centro infantil, e outro onde são oferecidas oficinas para avós) foi reconstruída pelas próprias famílias. Durante as obras, a iniciativa funcionou por dois anos em uma capela e por mais um em um colégio. Depois disso, o local passou a receber, além de alimentação de Junji, recursos do governo, tornando-se um Ceci. Natalia Jimena Tapia Arévaldo, profissional de gestão de programas da Junji, explica que cada unidade do tipo tem particulares, mas o que caracteriza a todos é o senso de comunidade. “A participação é muito grande. Se os pais trabalham e não podem vir ali pessoalmente, mandam algo”, observa.

“Existe a noção de que a responsabilidade não é só da instituição, pois a família é a primeira fonte educadora”, explica. “E, assim, os Cecis acabam sendo, muitas vezes, mais legitimados pela população, há mais confiança por parte dos pais, pois eles também participam do processo e conhecem os funcionários”, completa Paulina Saldaño Aránguiz, funcionária do sistema de proteção à infância do programa Chile Crece Contigo.

 

>> Leia amanhã sobre o atendimento de saúde a crianças e famílias no Chile

*A jornalista viajou como bolsista do programa de reportagens sobre primeira infância do International Center for Journalists (ICFJ), com patrocínio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV)

Chile também enfrenta desafios para universalizar a educação infantil, especialmente até os 3 anos

Publicado em Deixe um comentárioChile Crece Contigo, Creche

Santiago, Chile — Capacitações e avaliações permanentes de professores garantem a qualidade do atendimento de crianças de até 6 anos em ambientes educativos chilenos. Apesar de ter avançado, o país também tem, como o Brasil, o desafio de ampliar o acesso a creches e jardins de infância, especialmente até os 3 anos de idade. Por lá, a educação infantil é obrigatória entre os 5 e os 6 anos, quando as crianças frequentam o nível chamado Kinder.

O Jardín Infantil Santa Mónica, em Santiago

Nessa faixa etária, a cobertura passou de 85%, em 2001, para 98%, em 2017. No mesmo intervalo, a cobertura de educação infantil como um todo saltou de 30% para 53,24%. A universalização antes dos 5 anos é um desafio e uma das metas da Junta Nacional de Jardines Infantiles (Junji), instituição pública responsável pela administração e fiscalização de creches e jardins de infância no país desde 1970. No total, cerca de 793 mil meninos e meninas têm acesso à educação infantil por lá, dos quais apenas 6% frequentam instituições pagas.

Nas unidades, o desenvolvimento de cada criança é acompanhado e relatado diariamente, como nesse quadro de evolução

Cerca de metade está em unidades públicas; e 43% em entidades particulares, mas com subvenção do governo. Enquanto o acesso não se torna universal, são atendidas prioritariamente as crianças das famílias mais pobres e as de até 4 anos. No total, a Junji administra 1.276 jardins de infância no país, 654 clássicos (fundados, mantidos e administrados pelo governo) e 622 alternativos (que recebem dinheiro público, mas a gestão é de alguma organização social). Belia Toro, chefe de desenvolvimento curricular da Junji, conta que, apesar de a Junta ter 48 anos e tradição em educação infantil, muito mudou após a criação do programa Chile Crece Contigo, há 12 anos. “A partir disso, passou a existir, além de um trabalho multissetorial (que precisa se intensificar), uma ideia de educação para a família, não só para as crianças”, aponta.

Adriana Gaete Somarriva e Belia Toro, da Junji (Junta Nacional de Jardines Infantiles)

“Há uma série de materiais, oficinas e elementos de apoio para os pais”, completa. Adriana Gaete Somarriva, vice-presidente executiva da Junji, conta que a capacitação e a avaliação permanente de professores é prioridade na rede. Graças a isso, a oferta de educação infantil é de alta qualidade. “Eu tive muita experiência em escolas de educação básica. E, entre as crianças que estão chegando, você nota imediatamente quais são as que passaram por educação infantil e as que não. Pois o tempo que demoram a aprender a ler é muito menor”, compara. “Apesar de não serem alfabetizadas nesse período, elas têm um bom desenvolvimento na linguagem que faz toda a diferença”, afirma.

Exemplo de sala de aula de jardim infantil no Chile

Comparações

O Brasil tem 8,5 milhões de crianças matriculadas na educação infantil, o que inclui creche e pré-escola. No Chile, as matrículas são da ordem de 793 mil — quase 11 vezes menos. O vizinho latino-americano também tem população e terreno mais de 11 vezes menores que os brasileiros. Há diferenças, mas também similaridades: ambos os países precisam trabalhar para ampliar o acesso à educação infantil.

Por aqui, a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) é ter, pelo menos, 50% das crianças de até 3 anos frequentando creches, mas correlacionando dados das Sinopses Estatísticas da Educação Básica de 2017 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apenas 26% o fazem.

Um dos pátios do Jardín Infantil Santa Mónica, na comuna de Recoleta

No Chile, a taxa média de matrículas até os 3 anos está em patamar similar, mas ligeiramente maior que o do Brasil: cerca de 29%. Uma grande diferença é que boa parte da oferta brasileira é particular, enquanto no Chile é majoritariamente pública. Outra questão é que a procura dos próprios pais chilenos por matrículas até os 3 anos ainda não é tão alta, de acordo com avaliação da Junji.

Educadoras e crianças em uma das salas do local

Numeralha
Cobertura da educação infantil no Chile por faixa etária

De 85 dias a 1 ano – 10%
De 1 ano a 2 anos – 26%
De 2 anos a 3 anos – 33%
De 3 anos a 4 anos – 64%
De 4 anos a 5 anos – 90%
De 5 a 6 anos – 98%

Fonte: Junji

Pais satisfeitos

María Jesus Arriagada, diretora da unidade

Com 31 educadoras e cinco cozinheiras, o Jardín Infantil Santa Mónica atende 236 crianças de 0 a 4 anos de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 16h30. Ali, as crianças tomam café da manhã e almoçam. As turmas são divididas por faixa etária. A instituição se localiza na comuna de Recoleta, que, no total, tem seis jardins infantis clássicos (ou seja, fundados, mantidos e administrados pelo governo), como o de Santa Mónica, e nove que funcionam com transferências de fundos. María Jesus Arriagada, diretora da unidade, conta que há uma reunião mensal com todos os funcionários. “Nessas ocasiões, passamos um dia discutindo, promovemos capacitações, conseguimos revisar nosso projeto educativo e ver no que podemos melhorar.”

 

Susan Ramirez e filha de 1 ano e 9 meses, Florencia

Num centro maior, é mais difícil que a participação comunitária seja tão próxima quanto em unidades menores, mesmo assim, o envolvimento familiar é muito estimulado. “Os pais que podem vêm e interagem. Os que não têm como estar presencialmente podem se fazer de presentes de outras formas. Pedimos que enviem por exemplo um vídeo mostrando como é a criança na rotina do lar”, conta a diretora María Jesus. Para subsidiar o trabalho e atender melhor às necessidades de cada estudante, ela conta que troca informações e dados sobre alunos com equipes de serviço social e do centro de saúde da região.

 

A haitiana Dialine e a filha Delca

Para ela, o retorno das famílias é muito gratificante, como quando contam que a criança aprendeu algo diferente e mostrou em casa. “Muitos responsáveis que tiveram os filhos num jardim particular e vêm para cá gostam muito mais daqui. Não necessariamente a educação paga será melhor. Há um abismo de diferença entre a educação infantil pública e muitos jardins particulares”, comenta. A estudante de estética Susan Ramirez fica muito tranquila ao deixar a filha de 1 ano e 9 meses, Florencia, ali. “Vejo que ela gosta das tias. Isso é o mais importante. Mais que a estrutura, as educadoras fazem a diferença, pois são muito prestativas e dedicadas”, elogia.

Gustavo com o pai, Álvaro

A haitiana Dialine Teautij mora no Chile há pouco tempo e, apesar de falar pouco espanhol, demonstra que está satisfeita com o desenvolvimento da filha de 1 ano, Delca. “Ela fica bem e feliz aqui. Não chora para vir”, conta a vendedora numa barraca de feira. Álvaro Berrios Vergara trabalha na construção civil e busca o filho Gustavo, 3, no local quase todos os dias. “Este é o primeiro ano dele nesse jardim e vejo que é muito melhor do que o em que ele estava anteriormente, pois as tias são mais próximas dos alunos e se preocupam mais”, afirma o pai ainda de outros filhos de 16 anos, 12 anos e 10 anos. Nicolás Riquelme só tem elogios para a experiência da filha, Colomba, 3, ali.

Nicolás, Colomba e Joselyn

“A qualidade é excelente, ela me conta dos desenhos que fizeram e outras atividades.” Colomba fala com carinho de Joselyn Campillay, educadora que trabalha há três anos no local. A filha dela, Fernanda, 3, também frequenta o jardim, mas em outra turma. “É muito gostoso conviver com crianças, todos os dias há algo especial. Tenho 30 anos, mas carrego comigo a alegria da minha infância”, conta ela que também tem um filho de 12 anos.

A educadora Joselyn com a filha, Fernanda (no colo), e outras crianças

 

*A jornalista viajou como bolsista do programa de reportagens sobre primeira infância do International Center for Journalists (ICFJ), com patrocínio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV)

Falta de creches atrapalha a carreira das mães trabalhadoras e o desenvolvimento do país

Publicado em 6 ComentáriosCreche

Sem acesso a rede pública universalizada de cuidados para crianças de até 3 anos, as trabalhadoras com filhos pequenos sofrem uma série de exclusões no mercado corporativo, o que prejudica a inserção e o desenvolvimento profissional feminino.

A oferta de creches gratuitas e de qualidade tem tudo a ver com o desenvolvimento profissional, social e econômico do país. A falta de local para deixar as crianças atrapalha, ou até impede, que trabalhadores com filhos pequenos — majoritariamente mulheres, pois são elas as que mais se responsabilizam pela prole — se insiram, se mantenham e avancem no mercado. “É preciso ter creche pública de qualidade para todos. Assim, as crianças se desenvolvem melhor e as mães continuam suas trajetórias profissionais. Todo mundo sai ganhando: com mais mulheres trabalhando, a economia cresce”, calcula Bia Nóbrega, psicóloga pela Universidade de São Paulo (USP) com mais de 19 de anos de experiência em recursos humanos. “Existe uma relação direta entre creche e carreira e, claramente, as mães são as que mais sofrem com a falta disso”, afirma Angélica Guidoni, sócia da consultoria Trajeto RH. O problema atinge todas as camadas sociais, mas é mais cruel com as mais pobres.

“As que têm melhores condições financeiras ainda podem pensar e avaliar onde deixar os filhos, com uma babá ou numa creche particular, por exemplo. Têm mais possibilidades de se colocarem à disposição para uma promoção”, pondera a coach e psicóloga. “Já as que não podem arcar com os custos desse tipo de serviço ficam numa situação muito limitada”, compara. As opções que sobram não são as melhores, mas é preciso arranjar caminhos. “Nos bairros mais humildes, existem mulheres que cuidam de quatro a cinco crianças. Outra possibilidade é uma rede de vizinhos: um fica com as crianças hoje, outro depois”, exemplifica Bia Nóbrega. No entanto, dificilmente, a mãe conseguirá sair para trabalhar totalmente tranquila com o bem-estar da criança nesses casos.

 

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Deficit de vagas
Escritora, palestrante e pesquisadora do universo feminino, Alice Schuch afirma que “a oferta de creches é um dos maiores ganhos que o governo pode proporcionar às mulheres, já que a ausência dessa estrutura, agrava muitíssimo o problema do feminino”. A melhor maneira de criar um filho saudável, explica Alice, doutora em educação e gêneros pela Universidad de Desarrollo Sustentable, do Paraguai, é a realização da mãe. “Se ela for frustrada por causa das dificuldades de ter uma carreira, muito provavelmente passará isso para a criança.”

 

E se o país quiser investir nas próximas gerações, precisa fazer isso desde cedo, nas creches, que devem ser desenvolvidas em termos de qualidade e quantidade, algo que ainda está longe de sair do papel. Uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE) é colocar, pelo menos, 50% das crianças de até 3 anos em creches. O primeiro prazo estabelecido para cumprir o objetivo não foi cumprido e, então, adiado para 2024.

 

Existem mais de 11,8 milhões de crianças de 0 a 3 anos no país segundo dados de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entanto, há apenas 3,1 milhões de matrículas em creches nessa faixa etária, de acordo com as Sinopses Estatísticas da Educação Básica de 2017, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O Inep não coleta dados de deficit de vagas, mas fazendo a correlação com os números populacionais, apenas 26% das crianças frequentam creches nos três primeiros anos de vida. “No ritmo atual, não alcançaremos a meta nem com investimentos. Num momento de contenção de despesas, isso se agrava ainda mais”, lamenta Heloisa Oliveira, administradora executiva da Fundação Abrinq.

 

Famílias de três regiões do DF comentam o impacto da falta de creches

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Aecione vive com seis filhos, o mais novo com 2 anos. Sem vaga em uma unidade pública, ela não consegue trabalhar

Aecione Pinto de Lira, 45 anos, teve 12 filhos, dos quais seis vivem com ela e o marido, carroceiro, em Planaltina. A família nunca conseguiu apoio de creches. Sem outros parentes no Distrito Federal, a pernambucana que cresceu em São Paulo não trabalha e fica em casa para cuidar, especialmente, do caçula, de 2 anos, mas também dos demais, que têm 7, 9, 11, 12 e 16 anos e frequentam a escola. O primogênito, que não mora mais com ela, tem 31 anos. “Com o fato de não ter creche, você não consegue nem correr atrás de arrumar serviço. É muita falta de responsabilidade do governo”, queixa-se. Nas ocasiões em que procurou trabalho, sentiu o preconceito dos empregadores. “Dizem que criança atrapalha, têm medo de que a gente fique saindo para ir à reunião de escola…” Aecione é beneficiária do Bolsa Família e complementa a renda como revendedora de produtos de venda direta. “Eu sempre fiz faxina também, mas, depois que o menino mais novo nasceu, parei. Após o parto dele, minha saúde não ficou bem”, conta ela, que tem nível fundamental incompleto.

 

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Silvana está satisfeita por ter encontrado alguém de confiança para cuidar da filha
A enfermeira Silvana Alves dos Santos, 32 anos, terminou o curso na Universidade Católica de Brasília (UCB) em junho e, desde então, procura emprego. Ela também faz pós-graduação em urgência e emergência. Nunca conseguiu creche pública e, há algum tempo, deixa a filha, de 1 ano e seis meses, na casa de uma mulher que é paga para cuidar de três crianças nos Jardins Mangueiral. “Ela já ficava lá para eu poder estudar e continuou. São R$ 400 por mês, e ela fica das 7h às 15h”, revela. No começo, Silvana e o marido, que é mecânico numa empresa de veículos a diesel, contrataram uma pessoa para ficar na casa deles. “Era uma conhecida, mas ela teve de sair para fazer tratamentos de saúde”, diz. Foi então que ela começou a procurar creches. “Foi muito difícil, as que eu achava eram muito caras. Até que recebi a recomendação de uma mais em conta, onde coloquei minha filha.”

 

A experiência durou pouco, porque o estabelecimento mudou para São Sebastião, então, se tornou contramão para a família. “A gente sonha em conseguir uma boa creche pública. Isso fica na cabeça da mãe. Quando você não consegue, isso gera preocupação e frustração. A creche dá mais confiança do que deixar com uma pessoa estranha seu bem mais precioso”, diz ela, que já trabalhou como operadora de caixa.

 

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Sirlene tem dois netos, um de 11 meses e um de 2 anos. Sem creche, a filha Sabrina tem dificuldade de encontrar emprego

A casa de Sirlene Alves de Deus, 39 anos, na Cidade Estrutural, abriga o namorado, os dois filhos e os dois netos dela. “Eu sou a única que trabalha. Meu namorado faz bico, é percussionista e toca aos fins de semana. O grosso das contas sou eu quem pago”, conta a empregada doméstica. “Meu expediente é de segunda a sábado.” Os filhos, Gabriel, 20, e Sabrina Hemily, 17, não estudam nem trabalham. Cada um tem um filho: respectivamente, Miguel, de 11 meses, e Pedro Henrique, de 2 anos. A família não conta com creche para nenhum deles e, apesar de esse não ser o único fator causador, isso dificulta a inserção profissional e os estudos. “A Sabrina nunca trabalhou, com ou sem carteira assinada, mas está procurando emprego. O Gabriel vendia balinha e jujuba no sinal quando era mais novo. Depois que ficou de maior, nunca procurou serviço. Os dois abandonaram os estudos.”

 

Sirlene acredita que, com creche, a situação seria melhor para as crianças e toda a família. “Fica complicado sem isso, porque eu sustento a casa e não tenho como deixar de trabalhar para cuidar dos meninos. Ganho um salário mínimo, se for pagar uma particular, não teremos o que comer”, desabafa a baiana, que mora no DF desde 1993. “Quem cria o Pedro Henrique mesmo sou eu. A mãe mora perto, mas não ajuda. Durante o dia, quem mais cuida dele é meu namorado”, diz. “Com certeza. Meu sonho é que todos eles trabalhem, até para ajudar a construir a casa. O muro e o banheiro são de tijolos, mas o resto é barraco de madeirite.” O local não conta com rede de esgoto nem água encanada, e a rua não é asfaltada.

 

Sabrina Hemily completa 18 anos em outubro e passa os dias dividida entre cuidar de Miguel e procurar emprego. A creche mudaria muita coisa na minha vida, especialmente para poder procurar serviço e voltar a estudar.”

 

A carência de creches no país, segundo especialistas

Vagas só para quem pode pagar

 

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“Nossa maior preocupação em relação ao acesso à creche é que vários estudos mostram que as crianças que pertencem às famílias de mais baixa renda são as que estão fora delas”, alerta Beatriz Abuchaim (foto), gerente de Conhecimento Aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), que tem como foco a defesa da primeira infância. Ou seja, são as mães desempregadas e em mais complicada situação financeira que não contam com esse apoio. “Não falta vaga para quem pode pagar. Falta para quem não pode. No DF, onde tem muito servidor público e pessoas com renda mais alta, a maior parte das matrículas é na rede particular. Pouco mais de 1% é de fato da rede pública”, completa Heloisa Oliveira, da Abrinq. A colega dela Denise Cesario, gerente executiva da Fundação Abrinq, observa que a falta de acesso pode gerar muitos riscos. “Quando se deixa a criança com um amigo, um vizinho, até um parente, além de não receber estímulos adequados, ela pode estar sujeita a outros perigos, como o de não ser bem cuidada, de ser violentada.” O que não quer dizer, necessariamente, que o atendimento seja adequado em todas as creches.

 

“Um dado preocupante é que as crianças mais vulneráveis, que vêm de um lar estressor, com pais menos educados, estão fora da creche ou, em algumas regiões do país, estão em creches muito ruins”, alerta a psicóloga, mestre e doutora em educação Beatriz Abuchaim. A boa qualidade da educação infantil (que inclui creche e pré-escola) pode trazer um impacto muito positivo, que perdurará por toda a vida. “Ao mesmo tempo, em ambientes sem interação, que não sejam estimulantes, a gente não vê esse avanço e, às vezes, há até prejuízos”, pondera. “No caso das mães trabalhadoras, esse atendimento é uma necessidade, então a gente tem de lutar para que ele seja bom.” Arranjar um jeito de medir a qualidade das creches, inclusive, é algo em que a FMCSV tem trabalhado. Atualmente, os indicadores do governo levam em conta basicamente a estrutura física, como a presença de berçário, parquinho, banheiro infantil. Eduardo Marino, diretor de Conhecimento Aplicado da Fundação, observa que o objetivo é tornar possível medir também a qualidade das interações e dos estímulos feitos.

 

Peso cai sempre nos ombros da mãe

 

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No Brasil e na maior parte dos países, fica com as mães a responsabilidade principal pela criança. “É muito raro o pai faltar ao trabalho para levar o filho ao médico. Isso é muito ruim, porque a sobrecarga é tremenda. O empregador obviamente sabe disso e entende que a mulher terá mais chance de se ausentar da empresa por causa da criança”, aponta Bia Nóbrega.

 

“Em muitos casos, a própria mãe não pleiteia uma vaga ou desafio profissional por entender que ficaria difícil por causa dos filhos. Dar um jeito significaria colocar o pai na jogada, o que gera desgaste. Então, ela se barra”, percebe Angélica Guidoni (foto), que tem experiência de consultoria de RH em empresas de médio e grande porte, nacionais e multinacionais. Frente às dificuldades de conciliar filhos pequenos e carreira sem creches para todos, não só as próprias mulheres se privam de oportunidades, como também os chefes têm o costume de escolher por elas. Eles não chegam nem a ofertar chances (de promoção ou viagem, por exemplo) às profissionais. “Os gestores pensam: ‘Fulana tem filho pequeno, portanto, não pode’. Só que, às vezes, esse cenário não é real, a trabalhadora daria um jeito. Falta dar a chance de ela decidir.” Fenômeno análogo se repete nas seleções de emprego.

 

Para Angélica, a falta de universalização do serviço de creche, aliada à concentração das tarefas domésticas e familiares apenas nas trabalhadoras, está por trás da desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. “A profissional tem menos tempo para construir networking. Em vez de sair com os colegas para um happy hour, onde poderia encontrar alguém da direção, volta para casa e para os filhos depois do expediente”, diz. “Esse empobrecimento das relações é supercrítico para o desenvolvimento da carreira e faz com que elas sejam menos cotadas para cargos de chefia. Um reflexo da falta de creche e também da falta da paternagem ativa”, comenta Angélica.

 

Dividir responsabilidades

 

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Para pleitearem vagas de emprego com serenidade e confiança, as mulheres precisam entender que não estão sós. E num contexto em que há cada vez menos senso de sociedade e paternidade com relação ao cuidado com as crianças, isso se torna muito difícil sem creches. “Não foi à toa que a humanidade começou em tribo. Os filhos eram da tribo, não só da mulher. É complexo ter um filho só para você e ser o único responsável num mundo masculinizado, onde a maternidade é o auge do feminino”, afirma Angélica Guidoni, especialista em constelações sistêmicas pela Faybel. A subsecretária de Promoção de Políticas para Crianças e Adolescentes do Distrito Federal, Perla Ribeiro (foto), chama a atenção para a importância de desvincular a imagem do zelo e da criação de filhos como algo exclusivo da mãe, até porque ela não os gera sozinha. “Cuidar das nossas crianças não é (ou não deve ser) o cuidado de um só. É preciso de uma rede em que cada pessoa tem o seu papel. O pai é muito importante para o desenvolvimento infantil, complementando o trabalho da companheira”, destaca.

 

Os comportamentos atuais geram, na maior parte das mulheres, a sensação de desamparo, a ideia de que precisam dar conta de tudo sozinhas. Perla salienta o papel social e do Estado para amenizar essas situações. “A criança tem de ter o cuidado da família — e pensando de modo extenso, de todos os membros. Mas também é responsabilidade do Estado e da sociedade cuidar da criança, garantindo-lhe direitos básicos e fundamentais, como vida, educação, saúde, alimentação saudável, espaços lúdicos. Precisamos resgatar princípios comunitários de cuidado com o outro”, diz.

 

Primeira infância

OEI seleciona três municípios para projeto-piloto

Atenta aos cuidados necessários à primeira infância, a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) planeja criar projetos de acolhimento para crianças de zero a três anos de idade. “Dentre as prioridades, estão a gestão pedagógica e administrativa, além da gestão de projetos de infraestrutura”, adiantou o diretor da OEI, Raphael Callou. “Discutir soluções na primeira infância pode transformar o país”, acrescentou o presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Sílvio Pinheiro.

 

Presente na abertura do seminário Diálogos da Ibero-América: Primeira Infância, ocorrido na última quarta-feira (5), Silvio Pinheiro ressaltou que a iniciativa da OEI de discutir soluções para a primeira infância é mais do que necessária. Segundo Sílvio Pinheiro, a gestão atual do FNDE encontrou obras inacabadas por conta de dificuldades legais de prorrogação de prazos. “Trabalhamos por oito meses com o TCU e CGU, buscando uma nova regulamentação que permitisse que estados e municípios repactuassem com o FNDE, para ganhar prazo e concluir creches em construção. Com isso, reduzimos o número de obras inacabadas e ampliamos os prazos das que estão em andamento.”

 

16 mil crianças de até 3 anos estão na fila por creche pública no DF

 

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Apesar de aumento de cerca de 6 mil vagas desde 2015, no momento, cerca 16 mil crianças de até 3 anos estão na fila por vaga em creche pública no DF, segundo a Secretaria de Educação do Distrito Federal (Seedf). Na faixa etária de 4 a 5 anos, não há demanda reprimida por pré-escola. Entre as 29 mil crianças que frequentam creches no Distrito Federal, a maioria (28.101) o faz na rede particular, com base nas Sinopses Estatísticas da Educação Básica de 2017 do Inep. As 1.004 que usam o serviço público estão matriculadas em 18 unidades do governo. Em nota enviada por e-mail, a Seedf informou que “conta com 14 creches públicas, 50 centros de ensino de primeira Infância (Cepis) e 58 instituições conveniadas, atendendo 15.287 crianças de 0 a 3 anos e 47.203 de 4 a 5 anos”.

 

Já na rede particular, de acordo com a pasta, são 319 unidades, com 15.944 crianças de 0 a 3 anos e 19.849 estudantes de 4 a 5 anos. As divergências entre os números da secretaria e os do Inep se devem ao fato de a pasta distrital usar como base o Censo Escolar do DF. Há também diferenças na interpretação dos dados. As redes conveniadas citadas pela Secretaria são formadas por instituições privadas. O número de creches públicas aparece como 18 nas informações do Inep, porque o órgão considerou unidades do tipo e também quatro escolas, em Samambaia e em São Sebastião, que oferecem turmas de creche.

 

Durante o Seminário Diálogos da Ibéro-América: Primeira Infância, promovido na última quarta-feira pela Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), a primeira-dama do DF, Márcia Helena Rollemberg, disse que o o atual governo construiu 27 creches e têm mais três para serem inauguradas.

 

A contribuição das empresas

Na percepção de Bia Nóbrega, é cada vez mais comum que os empregadores se preocupem com as condições de qualidade de vida das mães, já que isso afeta o trabalho. O benefício mais comumente oferecido é o auxílio creche. São poucas as firmas que contam com berçário ou creche no ambiente corporativo. “A possibilidade de home office também tem sido mais frequente.” A valorização da diversidade, acredita ela, está em alta “As empresas estão se dando conta de que, ao abrir mão de ter mães na força de trabalho, abrem mão de melhores resultados”, diz. Angélica Guidoni, da Trajeto RH, observa, porém, que isso está mais no discurso do que na prática.

 

“A gente ouve falar mais em equidade, mas não há ações novas”, aponta. Para Alice Schuch, há até retrocessos. “As empresas valorizam diversidade e se interessam pelo bem-estar dos funcionários, mas, com o atual nível de desemprego, poucas estão fazendo algo de fato para dar mais apoio às mães”, avalia. O resultado é que as firmas acabam perdendo talentos.

 

Falta de opções leva ao trabalho autônomo

Pesquisa do site de empregos Catho com 5.120 pessoas revelou que a quantidade de mulheres que chegam a deixar o trabalho (30%) após a chegada dos filhos é cerca de quatro vezes maior que a de homens (7%). Entre as entrevistadas, 8% conseguiram retomar a carreira em até seis meses, enquanto 31% levaram mais de três anos ou não retornaram. Entre os pais com hiato na carreira por causa dos filhos, 33% voltam ao mercado em menos de um semestre. Entre as mães que ingressaram em empresas após essa pausa, 60% avaliam as perspectivas profissionais como ruins ou péssimas. As creches (ou a falta delas) têm tudo a ver com esses resultados. Em certos casos, o cuidado infantil sai tão caro que pagar por uma creche não compensa dependendo do salário. “Tendo em vista o que gastavam para ir e vir e ainda custear creche, não são poucas as que param de trabalhar por perceberem que é mais vantajoso, analisando até a qualidade de vida e a segurança do filho”, diz Angélica Guidoni.

 

“A qualidade das creches anda muito ruim também, então, considerando tudo isso, não é raro a mãe ficar insegura e ‘preferir’ ela mesma cuidar”, observa. “E não é que a mulher não possa ser dona de casa. O problema é quando ela se sente obrigada a isso por não ter com quem deixar o filho”, completa Alice Schuch, mestre em educação pela Universidad del Mar, no Chile. “E se ela fica muito tempo afastada do mercado, fica bastante difícil voltar.” Em casa, bicos ou trabalho autônomo são as possibilidades que surgem para não ficar totalmente parada.

 

Planejamento familiar

A necessidade de creche é ainda mais gritante em casos de gravidez na adolescência, em que a mãe precisa de um estabelecimento do tipo não só para trabalhar, mas também para prosseguir os estudos. Quando essa situação acontece aliada a problemas financeiros, os desafios se agigantam. A superintendente do Instituto da Infância (Ifan), Luzia Laffite, sugere que os governos, especialmente os locais, em nível municipal e distrital, adotem postura menos passiva com relação a isso. “A rede formal de apoio tem condições de fazer o mapeamento de mães e famílias de risco (não só por gravidez na adolescência, mas também outras situações)”, afirma. “É preciso fazer busca ativa desse grupo. Às vezes, são pessoas que não querem fazer pré-natal nem participar de grupo de mães, pois têm vergonha de sua miséria (não só econômica)e se excluem — ou são excluídas — da família”, observa.

 

A psicóloga ressalta que os níveis de gravidez na adolescência são muito altos no país. “E, se elas não contam com apoio de ninguém da família, o Estado precisa prover”, defende. Para a psicóloga Angélica Guidoni, é de suma importância também o trabalho de prevenção, que deve começar nas escolas, de forma sistematizada. Mesmo porque quase metade das gestações não é planejada e, a cada cinco bebês no país, um tem mãe adolescente. Os dados são do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). “Planejamento familiar, educação sexual, educação financeira deveriam ser matérias de ensino médio — e também do ensino superior”, diz Guidoni.

 

Três perguntas para

Elen Souza, assessora de Carreira da Catho, psicóloga, pós-graduada em psicopatologia e  psicossomática 

A falta de um sistema universal de creches gratuitas e de qualidade atrapalha muitas mulheres a voltarem ao mercado de trabalho?
É fundamental que as mães tenham com quem deixar seus filhos para que possam retornar ao mercado de trabalho, já que, socialmente, ainda são vistas como únicas responsáveis pelo cuidado dos filhos nos primeiros anos de vida, embora essa seja uma visão ultrapassada e que, felizmente, vem mudando pouco a pouco. Essa falta de suporte — e a questão da disponibilidade de creches é uma delas — desencoraja, dificulta e inviabiliza o retorno da mulher ao mercado de trabalho formal.

 

O estresse de ter de deixar o filho com algum parente, vizinho ou conhecido pode prejudicar o desempenho no trabalho?
Deixar o filho para retornar ao trabalho, independentemente de quem cuidará da criança, seja escola, creche, parentes, seja rede de vizinhos, é um processo geralmente difícil. E, principalmente, no primeiro momento em que acontece essa “separação”, é normal a mãe se sentir dividida. Porém, com um respaldo adequado e cercado de pessoas de confiança, automaticamente, a mulher terá mais tranquilidade no retorno ao trabalho.

 

Empresas e órgãos públicos que oferecem benefícios, como creche no local de trabalho e auxílio-creche cumprem papel importante?
Sem dúvida. Essa iniciativa é importante e é uma das formas mais eficazes de apoio às mulheres no retorno ao trabalho. Torna-se um benefício para mães, que enxergam uma possibilidade de ficarem próximas da criança durante o expediente, otimizando o tempo e se antecipando a imprevistos inerentes à maternidade.