Planalto avalia fidelidade nas redes sociais para liberar recursos

General Ramos no Planalto
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Coluna Brasília-DF/Por Leonardo Cavalcanti

Que a relação do Planalto com o Congresso melhorou com a chegada do general Luiz Eduardo Ramos à Secretaria de Governo, quem acompanha o dia a dia na Esplanada já sabia. Esta coluna mostrou, na semana passada, que o aumento da governabilidade verificado pela consultoria Prospectiva, que mede a fidelidade dos parlamentares ao Palácio, aumentou nos últimos dois meses. O que está fora do radar de parte dos políticos e técnicos é um método próprio para acompanhar as demandas de congressistas, governadores e prefeitos que batem à porta do governo em busca de recursos para as bases eleitorais.

Há três meses no cargo, Ramos elaborou com a equipe uma espécie de planejamento estratégico para acompanhar todos os passos das demandas dos políticos em Brasília. A primeira tarefa foi fazer com que as áreas de secretaria, como assessoria parlamentar, assuntos federativos e articulação social, atuem de modo integrado. A partir de planilhas, a equipe do general tenta fechar o cerco sobre a dificuldade na liberação do dinheiro para o político e, antes da verba liberada, avançar sobre as necessidades dos moradores (eleitores) da localidade.

Por fim, o governo federal divide com o parlamentar o bônus pela entrega dos recursos. Ao longo do processo de liberação, é feito um levamento nas redes sociais dos políticos para avaliar a fidelidade do aliado com o Planalto. A estratégia é não apenas ter o acompanhamento sobre as votações, mas sobre o próprio discurso dos políticos nas bases eleitorais. Assim, eventuais traições, tanto nos plenários do Congresso quanto nas ruas, são registradas. Um detalhe: a eleição de 2020 está logo ali.

Osmose // Se não bastasse o vazamento das conversas entre os integrantes da força-tarefa da Lava-Jato, a revelação do ex-procurador-geral Rodrigo Janot de que mataria Gilmar Mendes enfraqueceu ainda mais a imagem do Ministério Público. Há um detalhe ainda não avaliado pelo pessoal do governo: até que ponto o desgaste é ruim para o novo procurador-geral Augusto Aras? Tem gente boa que acredita que ele, por ter isolado a lista tríplice da categoria, se fortaleceu.

Escolha do PGR // Se Bolsonaro um dia se arrepender de ter escolhido Augusto Aras para chefiar o Ministério Público, não vai poder reclamar nem com o papa. A decisão do presidente partiu da cabeça do próprio presidente, contrariando inclusive os fundamentalistas de direita das redes sociais, que eram contrários a Aras.

Monitoramento // Levantamento da consultoria Levels nas redes mostra que a escolha de Aras não agradou nem à oposição nem aos apoiadores de Bolsonaro. No flanco governista, as mensagens contra o procurador representaram 68% da rede. Na oposição, o suposto conservadorismo de Aras sobre homossexualidade e família foi a maior crítica. A coleta de dados ocorreu na última quarta-feira, dia da aprovação de Aras.

Cautela I // Os principais interlocutores do Planalto estão aliviados com a disposição de Bolsonaro em diminuir a exposição logo no início do dia, quando escorava na grade e desandava a falar. As declarações ocorriam quase sempre depois de receber mensagens no WhatsApp de gente no Planalto ligada ao vereador fluminense Carlos Bolsonaro, que pesca todo tipo de insanidade nas redes e repassa para o presidente, sugestionando as declarações agressivas.

Cautela II // Um período de tranquilidade total ocorreu durante o período que Bolsonaro passou hospitalizado por causa da cirurgia para correção de hérnia. Por recomendação médica, conseguiram tirar o celular das mãos de Bolsonaro por alguns dias. A fofoquinha de banco de praça não deveria interessar ao prefeito da quadra, não deveria interessar ao presidente. A piada era que o Ministério da Saúde adverte: ler mensagens de ódio logo cedo atrapalham o governo.

Planalto observa calado o faroeste caboclo no judiciário

Gilmar Mendes e Rodrigo Janot
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Coluna Brasília-DF/Por Leonardo Cavalcanti

A ordem no Palácio do Planalto ao longo do dia de ontem era a de manter o silêncio sobre as declarações do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot a respeito do assassinato do ministro Gilmar Mendes. Entre os políticos mais próximos de Jair Bolsonaro, a avaliação é a de que o episódio tira o foco do presidente, principalmente nos casos relacionados às declarações polêmicas. Há poucas coisas mais controversas na política do que uma autoridade revelar que desejou matar um adversário, e mais ainda ter levado uma arma para a mais alta Corte de Justiça do país.

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A guerra, segundo o pessoal mais ligado a Bolsonaro, deveria se restringir ao Judiciário e ao Ministério Público. Enquanto isso, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, não se conteve e arrancou risos do público de seminário no Rio ao dizer que a PF deveria tirar o porte de arma do ex-procurador. Como o tema deve dominar os debates de Brasília pelos próximos dias, aliados do Planalto têm dúvidas se Bolsonaro vai manter o silêncio sobre as revelações de Janot.

Redes sociais

Em grupos de WhatsApp, delegados da PF debateram um provável abuso do Supremo em ordenar buscas e apreensões em imóveis ligados ao ex-procurador Rodrigo Janot. “Essa ação do STF dispara a perplexidade. Muito grave. Se o máximo tribunal de um país faz isso, o que mais então poderemos esperar de um juiz de primeiro grau? E dos cidadãos comuns?”, disse um dos delegados. “Tenho zero simpatia por Janot, mas não dá.”

Associação

No final do dia, a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) divulgou uma nota à imprensa questionando o mandado de busca e apreensão “flagrantemente ilegal” emitido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar de repudiar o ato cogitado por Janot, a entidade disse lastimar que o “episódio negativo possa, por oportunismo, servir de pretexto para enfraquecer a instituição”. A associação se referiu também à declaração de Gilmar Mendes, que defendeu a mudança na escolha do PGR, abrindo a possibilidade de escolha entre “juristas”.

CURTIDAS
Assessoria // Janot estava sem assessoria de imprensa desde da metade do ano. A avaliação é de que ele — que já havia revelado a história de ter pensado no crime sem citar o nome de quem seria a vítima no livro Nada menos que tudo — não mediu as consequências da entrevista à imprensa. O receio agora de pessoas próximas a Janot, que já está aposentado, é de que ele possa receber punições graves do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

Chaleira // A revelação de que Rodrigo Janot pensou matar Gilmar Mendes repercutiu no Ministério Público, nas redes internas e externas. O procurador do MPF em Santa Catarina, Walmor Moreira, foi um dos mais ativos no Twitter ao longo do dia de ontem. Conservador e religioso — o homem é pastor —, parte das mensagens de Moreira critica o ex-chefe da PGR, o Congresso e o Supremo. E alivia, a partir de exaltações, a equipe e o próprio Bolsonaro, chegando ao presidente dos EUA, Donald Trump. Sem esquecer de citar Deus, por óbvio.

Perplexidade // É impossível encontrar em Brasília alguém que não tenha se surpreendido com a história contada por Janot. O Instituto de Garantias Penais (IGP) se disse “perplexo” diante das declarações de Janot. “Uma pessoa que se confessou tentada pela ideia de sacar uma arma de fogo para matar um ministro meramente porque não suportou uma divergência intraprocessual, não possui a estabilidade mental necessária para exercer a função acusatória.”

Cama de gato // Aliados do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, acreditam que o secretário executivo João Gabbardo tem amarrado ações na pasta para desgastar o chefe, a partir de cortes orçamentários, por exemplo. Segundo o pessoal ligado a Mandetta, a torcida de Reis é que o ministério fique com Osmar Terra, da Cidadania, do mesmo grupo político, profissão e região. No início do mês, Terra chegou a ser cotado para a Saúde no momento de maior fragilidade de Mandetta. A intriga na Esplanada atinge índices inimagináveis.

Bolsonaro espera que Aras tenha atuação mais voltada para os interesses do governo

Bolsonaro e Augusto Aras
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Coluna Brasília-DF/Por Leonardo Cavalcanti

Apesar de afirmar que o procurador-geral da República não é governo, o presidente Jair Bolsonaro acredita que Augusto Aras será ministro da Esplanada. O capitão reformado foi cirúrgico nas palavras, num discurso poucas vezes tão estratégico, ontem, no Planalto.

Por mais que tenha se preocupado em afastar a proximidade com Aras, Bolsonaro espera que o procurador tenha uma atuação mais voltada para os interesses do governo, principalmente na área ambiental — a mesma expectativa é compartilhada por ministros mais voltados para pendengas jurídicas, como embargos de obras em áreas. O problema para Bolsonaro e a vantagem de Aras é que o procurador é indemissível. Ou, pelo menos, a saída dele tem de ter a aprovação do Senado.

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O artigo 128, II, §2º da Constituição deixa claro que a destituição do Procurador-Geral da República, por iniciativa do presidente da República, deverá ser precedida de autorização da maioria absoluta do Senado. Resta a Bolsonaro, agora, torcer para que Aras cumpra o que prometeu. Mas há uma questão importante: como as promessas não foram em público, ninguém sabe quais são, e também não adianta Bolsonaro reclamar.

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A expectativa de integrantes do Ministério Público é de que Aras mantenha o poder da força-tarefa da Lava-Jato. Uma das principais indícios foi a indicação do procurador José Adonis Callou de Araújo Sá para coordenar a operação na Procuradoria-Geral da República. Assim, as dúvidas estão relacionadas às áreas de meio ambiente, minorias e direitos humanos.

A mancha I

As autoridades ambientais de Brasília parecem finalmente terem despertado para as manchas de óleo que atingem 105 praias do Nordeste brasileiro. A coluna entrevistou especialistas no ambiente marinho que está sendo impactado. Ontem, o volume de óleo chegou a Sergipe em extensões quilométricas , iniciadas no Maranhão, passando por cartões-postais como Carneiro (PE), Pipa (RN) e João Pessoa (PB).

A mancha II

As primeiras análises mostram um óleo cru, não refinado, o que descarta, no primeiro momento, vazamentos vindos de refinarias brasileiras, mas o DNA de mostras aponta para petróleo. É possível saber que o material não veio da lavagem de taques de navios, dado o volume de piche encontrado nas praias. Uma das poucas ações das autoridades, até agora, têm sido orientar as comunidades atingidas a informarem animais “oleados” pelas manchas. Fotos mostram tartarugas, aves e peixes com manchas de óleo, em várias praias do país. Uma das equipes de investigação é do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal.

Berço petista I/O Partido dos Trabalhadores iniciou um movimento consistente em busca das prefeituras no ABC paulista. Na campanha de 2016, os dois únicos candidatos petistas na região perderam a disputa pela reeleição, deixando o partido sem nenhum representante nas cidades consideradas berço do lulismo.

Berço petista II/A derrocada petista na região foi o primeiro sinal efetivo da fragilidade do discurso dos representantes nacionais do partido para se contrapor às denúncias de corrupção e à volta dos altos índices de desemprego. Os desgastes, localizados em 2016, acabaram refletidos
na vitória de Jair Bolsonaro.

Berço petista III/A campanha de 2016 quebrou uma hegemonia petista que se repetia desde 1982. Os eleitores das principais cidades que formam a região — Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema — escolheram adversários tradicionais do PT à época, quando o bolsonarismo ainda estava longe de ser um fenômeno.

Berço petista IV/Analistas mais atentos aos movimentos na região avaliam que as chances de eventual retorno de eleitores tradicionais ao PT estarão associadas à continuada crise econômica e à frustração sobre a retomada do emprego.

Funcionário agride deputado do PSL após ser demitido

Dep. Marcelo Brum (PSL-RS)
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Coluna Brasília-DF/Por Leonardo Cavalcanti

Uma cena atípica assustou quem estava no 8° andar do Anexo IV da Câmara no começo da tarde de ontem. Um dos funcionários do gabinete do deputado Marcelo Brum (PSL-RS) se revoltou ao ser demitido e tentou agredir o parlamentar. Os demais trabalhadores do setor ficaram sem entender quando viram o deputado correndo pelos corredores e se refugiando no gabinete de uma liderança.

Tapas no anexo

Marcelo de Brum chegou a ser atingido com um tapa no rosto, e a Polícia Legislativa foi chamada para conter o assessor demitido. Procurada pelo Correio, a assessoria de imprensa do congressista informou que ele está se recuperando do ocorrido e não vai se manifestar sobre o caso no momento.

Augusto Aras quer uma vaga no STF

Augusto Aras
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Coluna Brasília-DF/Por Leonardo Cavalcanti

O subprocurador Augusto Aras treinou para a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado sozinho em casa, sem ajuda de assessores ou profissionais de imagem. Não precisou, como se sabe. O novo procurador-geral da República falou o que os parlamentares queriam ouvir, mesmo quando foi pressionado, como no caso de Fabiano Contarato (Rede-ES). A desenvoltura de Aras no colegiado apenas surpreendeu quem não o conhecia. Além de atuar na área jurídica há mais de 30 anos, ele é professor da Universidade de Brasília (UnB). Tem experiência em oratória.

Entre os amigos de Aras, há a percepção que o novo procurador-geral não vai se contentar com a chefia do Ministério Público nos próximos dois anos. O objetivo será uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), algo já tentado na época do governo Dilma Rousseff. “Ele pode até não tentar disputar a vaga de Celso de Mello (que se aposenta em novembro de 2020), pois teria de entregar o cargo de procurador-geral com pouco mais de um ano. Mas a vaga de Marco Aurélio Mello (que sai em junho de 2021), ele deve tentar”, diz um integrante do MP que conhece Aras muito bem.

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Aos 60 anos, Aras tem mais cinco anos para conseguir chegar ao Supremo. Na lista dos candidatos a uma vaga no STF na gestão Bolsonaro, estão o ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o advogado-geral da União, André Luiz de Almeida Mendonça.

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Apesar da tranquilidade da aprovação no plenário, o número de votos contrários a Aras (68 a favor e 10 contra) foi maior do que o de Rodrigo Janot (60 a 4), em 2015, e de Raquel Dodge (74 a 1), em 2017.

Trabalho / No próximo sábado, das 9h às 18h, o IDP promove a 3º edição da Job Fair, uma feira de carreiras jurídicas que reúne grandes escritórios de advocacia de todo o país e uma programação de palestras repleta de profissionais de referência em diversas áreas. A intenção é aproximar o estudante do IDP do mercado de trabalho, viabilizando entrevistas dos alunos. Às 11h30, tem palestra com o navegador e escritor Amyr Klink.

Aula magna / O vice-presidente Hamilton Mourão dará a aula magna do Programa da Academia Nacional de Polícia, na próxima segunda-feira. O curso é inspirado no treinamento do FBI e desenvolvido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Ao todo, serão capacitados 32 delegados da Polícia Civil e oficiais da PM, escolhidos em processos seletivos no país. A aula de Mourão ocorre às 10h, no Teatro de Arena da Academia.

Exposição / Hoje, às 19h, no Centro Cultural do TCU, tem a abertura da exposição Viagem Espacial, de Augusto Corrêa, um jovem de 19 anos com Síndrome de Down. A primeira-dama Michelle Bolsonaro e o presidente do Tribunal de Contas da União, José Múcio, participam da solenidade.

Cinema / O Escritório Econômico e Cultural de Taipei no Brasil promove, entre os dias 9 e 13 de outubro, a Mostra de Cinema Taiwanês, no Cine Brasília.

Colaboraram Renato Souza e Rodolfo Costa

Discurso de Bolsonaro na ONU foi para eleitores convertidos

Bolsonaro na 74ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas
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Coluna Brasília-DF/Por Leonardo Cavalcanti 

Parte dos diplomatas até tentou suavizar o discurso de Jair Bolsonaro, na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), mas o presidente preferiu falar para os eleitores convertidos, que representam um percentual de votos hoje suficientes para levá-lo a um segundo turno.

A cabeça do capitão reformado funciona de maneira simples desde a campanha, por mais constrangimentos que possa causar à imagem internacional do Brasil — na prática ele não está preocupado com tal coisa, principalmente com a informação manjada de que Donald Trump emendaria outro discurso agressivo na sequência.

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A expectativa do corpo diplomático, menos voltado para a política eleitoral e mais preocupado com a imagem do país, era de que Bolsonaro fizesse um discurso contundente, mas sem agressividades. O curioso é que o presidente usou tais adjetivos para qualificar a própria intervenção depois de deixar o prédio da ONU.

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Mas não foi o que aconteceu. Bolsonaro, mais uma vez, embaralhou opinião com fatos, chegando mesmo a dar falsas informações sobre a qualificação dos médicos cubanos, por exemplo.

Roteiro I

Do roteiro original preparado pelo corpo diplomático, seguiu a defesa da soberania da Amazônia e atribuiu as queimadas a uma questão sazonal, por causa da seca em alguns estados brasileiros, como antecipou este Correio.

Bolsonaro também condenou o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela; reforçou o alinhamento com o norte-americano Trump; e exaltou a relação com Israel. Mas cruzou a linha da contundência, como temia o pessoal mais técnico do Itamaraty.

Roteiro II

O texto final foi fechado pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e pelo assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Felipe Martins. Bolsonaro não apenas fez referências a um socialismo inexistente nos últimos tempos na história brasileira, como não deixou de fazer referências religiosas. Pregou para convertidos, frustrando quem esperava um papel maior para o presidente. Será assim até a campanha oficial de 2020.

Vale lembrar

Como antecipou o Correio, ontem, Bolsonaro fez referências a países, mas não a mandatários, no caso de França e Alemanha. Eis o trecho: “O receio é que Bolsonaro avance sinais de maneira agressiva, criticando diretamente chefes de Estado — algo que deve ocorrer, talvez não nominalmente”.

CURTIDAS

Se não pode vencê-los… // A equipe econômica deve abrir mão de apresentar uma robusta reforma tributária e compor com as matérias em tramitação no Congresso, as Propostas de Emenda à Constituição (PEC) 45, da Câmara, e a 110, do Senado. Uma das poucas contribuições que o governo deve sugerir é a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), a unificação entre o PIS e o Cofins.

Junte-se a eles // O secretário especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, é o mais cotado para liderar as articulações da equipe econômica e costurar uma reforma única. Qualquer novidade, no entanto, ainda será alinhada com Bolsonaro, que retorna somente hoje a Brasília. O martelo precisa ser batido por ele, uma vez que a ideia é atribuir novas funções a Marinho, cujo cargo poderia ter até outro nome.

Foco nos empregos // O que o governo não abrirá mão é de discutir a desoneração da folha de pagamentos. Estão nas análises propostas como redução de valores pagos pelos empresários para o sustento do Sistema S, a tributação de fundos exclusivos e a reoneração de alguns setores para a discussão da desoneração aos maiores empregadores da indústria, do comércio e dos serviços.

Imprensa // A ACT Promoção da Saúde — com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o Joio e o Trigo e a Campaign for Tobbaco-Free Kids — promoveu ontem, em São Paulo, uma oficina para repórteres com foco no comércio de cigarros. O Correio foi um dos participantes.

Colaborou Rodolfo Costa

A apreensão dos diplomatas com Bolsonaro na ONU

Discurso de Bolsonaro na ONU
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Coluna Brasília-DF/ Por Leonardo Cavalcanti 

A minuta preparada pelo corpo diplomático do Itamaraty chegou ao Planalto com cinco sugestões para o presidente Jair Bolsonaro discursar na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) — a defesa da soberania da Amazônia; a condenação do regime de Nicolás Maduro na Venezuela; o alinhamento com o norte-americano Donald Trump; a posição pró-Israel no conflito do Oriente Médio; e o estímulo ao livre comércio e à cooperação regional para o combate ao narcotráfico. O Correio teve acesso a trechos do documento dos diplomatas — com detalhes a seguir.
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Cada um dos pontos, tratados como eixos, tem uma estratégia de política internacional, mas valem para o presidente falar para a audiência brasileira. Um discurso na ONU, entretanto, passa por várias mãos. E assim o corpo diplomático teme uma mudança radical na minuta original apresentada pelo Itamaraty. O texto final foi fechado pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e pelo assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais Felipe Martins.

Dor de cabeça I

A questão é o tamanho da dor de cabeça que Bolsonaro pode causar nos servidores de alto escalão do Itamaraty com um discurso mais agressivo. “Esperamos algo contundente, mas com equilíbrio, algo que não descambe para provocações vazias”, disse um servidor do corpo diplomático
brasileiro que preferiu não se identificar. Tradicionalmente, desde 1947, o presidente da República do Brasil é o primeiro a falar na Assembleia Geral da ONU. Bolsonaro discursa nesta terça-feira, às 9h (horário
de Brasília).

Dor de cabeça II

Para cada um dos eixos há uma estratégia própria do pessoal do Itamaraty. No caso da soberania, o que se pretende é deixar claro que o maior interessado nos assuntos da Amazônia é o Brasil, numa resposta à não participação na cúpula de mudanças climáticas nesta segunda-feira. Uma das considerações a ser feita é que as queimadas na Amazônia ocorrem, segundo o governo, por questões sazonais e estão relacionadas à época seca no país. O receio é de que Bolsonaro avance sinais de maneira agressiva, criticando diretamente chefes de Estado — algo que deve ocorrer, talvez não nominalmente.

Eixos I

O segundo eixo do discurso de Bolsonaro será a condenação do regime de Maduro, antecipado na declaração do Grupo de Lima — do qual o Brasil faz parte —, que “rechaçou os sucessivos obstáculos do regime ilegítimo e ditatorial” da Venezuela. A referência a Trump, que estará numa das partes do texto do capitão reformado, trata-se da reafirmação da proximidade com os Estados Unidos, incluindo aí a indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada em Washington.

Eixos II

Outra novidade será o discurso francamente pró-Israel, ao contrário dos antecessores petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, que, em 2012, defendeu na Assembleia Geral a soberania da Palestina para redução dos conflitos no Oriente Médio. “Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender aos legítimos anseios de Israel por paz”, disse Dilma na época. Por fim, os diplomatas alertaram a Bolsonaro que destacasse a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul. O objetivo aqui é buscar argumentos para ganhar uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.

Curtidas

Despreparo I / O discurso do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (foto), e da equipe de segurança do estado é medonho. O político esperou 48h para reafirmar a ação estúpida do confronto, em que cinco crianças foram abatidas apenas este ano. O mais despreparado, entretanto, é o secretário de Polícia Civil, Marcus Vinícius Braga — o camarada tem uma presunção poucas vezes vistas entre autoridades públicas.

Despreparo II / O assassinato da menina Agatha Félix, de 8 anos, como se sabe, desestruturou o plano anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro. O que o ex-juiz não esperava era ser citado e defendido por Witzel na desastrosa coletiva ontem. Parte dos integrantes da pasta da Justiça, principalmente os militares, é contra a divisão criada por Witzel na antiga secretaria de Segurança. Vale lembrar que o Exército esteve no comando da intervenção do Rio até o ano passado.

Brasil vê cúpula de mudanças climáticas das Nações Unidas como aquecimento para a Cop 25

Homem encapuzado com espada e escudo
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Coluna Brasília-DF


É assim que muitos diplomatas brasileiros veem a cúpula de mudanças climáticas das Nações Unidas hoje, com destaque para a França e outros países. Há uma pressão para que o Brasil e outras nações em desenvolvimento ampliem a contribuição que cada país se propôs quando do Acordo de Paris.

Só tem um probleminha: O Brasil não o fará porque está já perto de alcançar as metas previstas para 2030. Dados do Ministério de Minas e Energia indicam que o país já cumpriu, por exemplo, o percentual de 45% de energia renovável (45,3% em 2018, a meta para 2030 é 45%) e está a 0,6% de cumprir a meta de biocombustíveis.

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O Brasil, como outros países em desenvolvimento, vai se preparar para cobrar investimentos das nações mais ricas. E, como os Estados Unidos saíram do Acordo de Paris, essa conta vai sobrar para os europeus.

É aí que, dizem os diplomatas, está o nó entre o governo brasileiro e o francês, por exemplo. O próximo palco, depois do quartel general da ONU esta semana,
será no Chile, sede da Cop 25.

Adeus, noruegueses

Se o Brasil conseguir o fundo de bioeconomia da Amazônia discutido em Washington com grandes empresas e o Banco interamericano de Desenvolvimento, poderá prescindir daqueles que hoje fazem doações para a região. O fundo será detalhado num encontro em Belém, de 8 a 10 de novembro.

Corre, Maia, corre

Os parlamentares vão pressionar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para votar, a toque de caixa, um projeto que permita aos partidos saber exatamente quanto do Fundo Eleitoral e partidário deve ser destinado a campanhas de prefeitos e quanto para vereadores. E, ainda, qual o limite de gastos de cada vereador e prefeito e se há diferenças entre prefeitos de capitais e de pequenas cidades.

Lavou as mãos

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, já avisou que não vai legislar sobre esse tema. É um caso do Congresso e os políticos que se resolvam. Se nada for feito até 4 de outubro, um ano antes da eleição, mais uma vez as cúpulas partidárias agirão de acordo com a cara do freguês.

Onde mora o perigo

O receio é de que os recursos sejam destinados apenas àqueles que hoje dominam os partidos e não a candidatos da chamada renovação política. E que os prefeitos das capitais terminem abocanhando os valores deixando o interior à míngua.

CURTIDAS

Leitura ambiental/ O presidente Jair Bolsonaro desembarca em Nova York a tempo de jantar com o presidente Donald Trump na segunda-feira à noite, mas chegará depois da cúpula de mudanças climáticas da ONU. Os ambientalistas não gostaram. Acham que quem poderia jantar com Trump, teria perfeitamente tempo de chegar para a conferência climática.

Leitura médica/ Os médicos, entretanto, não queriam nem que o presidente fosse abrir a 74ª Assembleia Geral da ONU. Precisa ainda de um certo repouso para evitar novas complicações.

Índios de lá e de cá/ A cúpula da Juventude se mostrou um desfile de futuros líderes mundiais em defesa do meio ambiente. Destaque, nos Estados Unidos, para Makassa, descendente dos Sioux, que fez uma cerimônia espiritual logo na abertura.

Saída pela esquerda…/ O ministro de Meio Ambiente, Ricardo Salles, cruzou com manifestantes parados em frente ao hotel onde ficou hospedado assim que chegou. Para não passar por eles de novo, optou por uma porta lateral. No Twitter, não poupou críticas.

A ONU e Bolsonaro

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Inspirados pela jovem sueca Greta Thunberg, os nova-iorquinos tomaram as ruas da cidade, no Battery Park, ao sul de Manhattan, a fim de chamar a atenção para as mudanças climáticas e cobrar atitudes mais sérias das autoridades na linha do “nosso planeta não pode esperar”. Hoje, a sede das Nações Unidas terá a Youth Summit Climates, o encontro de cúpula da juventude, dedicado a tratar desse tema e propor soluções. É esse clima de “vamos preservar o planeta antes que ele acabe” que toma conta da cidade e que espera o presidente Bolsonaro na próxima terça-feira.

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Para completar, na véspera do discurso do presidente na ONU, a cúpula sobre mudanças climáticas não terá a participação do Brasil. Não que o país tenha sido vetado, conforme se especulou. O evento é para chefes de Estado e de governo. Se os chefes não vão, simplesmente, o país não fala. O governo brasileiro preferiu dar seu recado na abertura oficial da 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia seguinte, quando se espera uma presença maciça de chefes de Estado e de governo. Porém, a ausência na cúpula do clima é vista no mundo externo como uma certa falta de prioridade ao tema.

Pega um, pega geral

A operação que envolveu o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), fez voltar os movimentos em prol da derrubada dos vetos à Lei de Abuso de Autoridade, na qual o Senado terá papel decisivo.

Casa complicada

Os senadores foram responsáveis, por exemplo, pelo freio nas mudanças que afrouxaram as regras de financiamento de campanha. E agora, o governo espera contar com a Casa para manutenção dos vetos presidenciais à Lei do Abuso. No entanto, dado o climão da semana, nada está garantido.

“Nossa casa está queimando”

A frase dita pelo presidente francês Emmanuel Macron e que provocou toda a crise entre ele o presidente Jair Bolsonaro foi repetida pela ativista Greta Thunberg, na manifestação em Nova York. Hoje, ela fala nas Nações Unidas.

Enquanto isso, nos bastidores…

A sensação entre diplomatas é de que o Brasil não tem quem o defenda em relação ao meio ambiente nas altas-rodas norte-americanas, como a ONU e importantes fundações nos Estados Unidos, capazes de mobilizar a opinião pública. Sem embaixador nem na ONU nem em Washington, está difícil.

Politics for future/ O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, apoiou a liberação dos alunos de escolas públicas para participar da greve global em favor do clima, a “Friday for future”, que levou milhões às ruas pelo mundo. Embora não esteja mais postulando a vaga de candidato a presidente dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, ele continua na política.

Consulado reservado/ Qualquer jornalista que procure o Consulado do Brasil na ONU em busca de informações sobre a viagem do presidente Jair Bolsonaro, ou mesmo a participação na Conferência do Clima, é remetido imediatamente aos integrantes da equipe precursora. Ninguém quer avançar o sinal. No passado, não era assim.

Save the date/ O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (foto), começou a enviar os convites para a sessão em homenagem póstuma ao ex-deputado Sigmaringa Seixas e ao advogado José Gerardo Grossi, em 1 de outubro.

General Ramos em alta no Congresso

General Luiz Eduardo Ramos
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Coluna Brasília-DF/Por Leonardo Cavalcanti

Depois de um início conturbado — com ataques aos parlamentares e à “velha política” —, o presidente Jair Bolsonaro parece ter, finalmente, se convencido de que a guerra aberta com o Congresso só prejudicava a ele mesmo. Assim, o capitão reformado recolheu as armas contra o Parlamento nos últimos dois meses, ao contrário do que ocorreu em relação a setores da sociedade civil e da imprensa.

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A mudança de tom coincide com a atuação mais efetiva do secretário de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos — que substituiu Carlos Alberto dos Santos Cruz e praticamente engoliu Onyx Lorenzoni. A atuação do ministro-militar com líderes partidários tem se mostrado eficiente, pelo menos é este o clima geral dos aliados no Congresso. Tais ações podem explicar um aumento no índice de governabilidade, verificado pela consultoria Prospectiva, que mostra a fidelidade dos parlamentares ao Palácio do Planalto.

Alta fidelidade

Em agosto, o índice de governabilidade chegou a quase 75% das votações. Os melhores resultados apareceram nas pautas econômicas, como liberdade econômica (MP nº 881/19, emenda aglutinativa n° 1); pagamento de peritos do INSS (PL nº 2999/2019); reforma da Previdência (PEC nº 6/2019, segundo turno); e repasse da União à Eletrobras.

Telefonemas

Por falar no general Ramos, ontem pela manhã, ele recebeu uma série de telefonemas estridentes de Bolsonaro sobre a operação da Polícia Federal. Na quarta ligação, o ministro interrompeu a agenda, deixou o gabinete no Planalto e foi se reunir pessoalmente com o presidente.

Curtidas

Decisão confirmada / O Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou integralmente a decisão do desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, Antônio Souza Prudente, que mandou a Vale pagar um salário mínimo para cada indígena, independentemente de idade, das tribos Xikrim e Kaiapó. Os valores referem-se a danos causados aos ecossistemas sócio-ambientais.

Na pauta / O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disse a parlamentares que vai pautar, na próxima semana, um projeto de lei que revoga a Lei Kandir. Representantes de cooperativas entraram em alerta e começaram uma peregrinação no Congresso com o argumento dos riscos para a balança comercial, pois taxar a exportação pode aumentar o preço de determinados produtos no mercado internacional e, com isso, levar à queda de produção.

Vingança / O pé de uma nota do grupo “Muda, Senado”, formado por 21 parlamentares independentes, mostra que a não recondução de dois integrantes do Conselho Nacional do Ministério Público (Lauro Machado Nogueira e Dermeval Farias) não pegou nada bem. “Eles foram aprovados por unanimidade na CCJ, sem qualquer tipo de questionamento. Isso aponta, para uma repetição do passado triste onde o Senado funcionava como instrumento de vingança de investigados”, diz a nota, lida por Alessandro Vieira, do Cidadania.