Crase 3: casa, terra

Publicado em português

Ferreira Gullar acertou ao dizer que “a crase não foi feita pra humilhar ninguém”. Mas fez vistas grossas pra pormenor importante. O sinalzinho dá um senhor nó nos miolos. Pra desatá-lo, só há uma saída — ficar de olho no artigo. É ele que promove os rolezinhos.

Cheio de manhas, faz de conta que está presente. Mas não está. Ou vice-versa. Finge que se encontra lá, juntinho do substantivo. Mas… cadê? A criaturinha nem passou por perto. Casa e terra são freguesas da brincadeira malandra. O que fazer? Conjugar o verbo prevenir. Com ele, o remediar perde o emprego.

Casa

Crase antes de casa? Depende do artigo. A casa onde moramos rejeita o pequenino: Logo, não admite o acento grave: Saí de casa. Trabalho em casa.

Sem artigo, o a que antecede a casa onde moramos é preposição purinha. Não admite acento de crase: Dirigi-me a casa cedo.

A casa dos outros pede artigo — a casa da vovó, a casa da esquina, a casa dos pais: Foi à casa da avó. Vai à casa do João. Dirigiu-se à casa da esquina. Dirigiu-se à casa dos pais. Vai à casa de parentes distantes.

Viu? Antes da casa dos outros aparece artigo. A crase tem vez.  

Terra

Terra firme, em oposição a mar, não admite artigo. Por isso os marinheiros gritam “terra à vista”. Sem artigo, nada de crase: O navio chegou a terra ao amanhecer.

Nos demais significados de terra, usa-se a crase:  Maria voltou à terra natal. Os astronautas regressaram à Terra.