_105369399_b25c5f3f-d9ae-4379-9483-dcc26581e878 ADRIANO MACHADO/REUTERS

Desastre ambiental em Brumadinho

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Marcelo Capucci
Professor,escritor, ambientalista e baterista da Plebe Rude.

Na sexta-feira, 25, eu estava em um restaurante de Brasília tomando uma caipirinha, provavelmente batizada com uma pinga de qualidade duvidosa, enquanto esperava meu prato da tradicional, deliciosa e pesada feijoada, quando fui fisgado pelo naipe de metais da nossa,provavelmente, emissora mais rica nos canais abertos.

Nessas horas, quem já viu de tudo acontecer pelos noticiários, nos últimos 45 anos, já fica com o coração na mão esperando terroristas nas torres gêmeas, sumiço de avião, lesão no dedinho do Neymar… Mas, pasme, novamente me deparo com a toda-poderosa Vale enlameando o meio ambiente e a vida de milhões de brasileiros, e de novo.

Alguns jornalistas ainda continuam tratando o material como lama, mas se enganam porque esse organismo letal passa muito longe de uma simples mistura de terra e água. Pra se ter ideia, não existe verbete na língua portuguesa capaz definir com exatidão o que é o tal rejeito de mineração.

Aliás, os dicionários não sabem precisar, mas a mineradora brasileira e suas parceiras gringas sabem muito bem como NÃO tratar essas verdadeiras latrinas de suas operações.

Dar encaminhamento correto para esse insumo oneraria demais a produção de uma indústria que insiste em degradar ecossistemas e pessoas há centenas de anos nesse país. Sempre visando o lucro das commodities, das exportações e emprego de mão de obra barata em detrimento de pouco investimento em novas e modernas tecnologias, tudo isso sob a guarda de uma classe política que se faz de surda mesmo diante das falas de ambientalistas que vinham se posicionando veementemente contra a concessão de novas liberações desde o rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana, da mesma Minas Gerais, em 05 de novembro de 2015.

Fiquei realmente revoltado ao ver as imagens de celular de moradores, trabalhadores, vítimas… daquela quantidade absurda do tal rejeito que levou pontes, estradas de ferro e soterrou sonhos e anseios de centenas de esquecidas famílias brasileiras.

O “lamaçal”que atropelou tantos sonhos é constituído basicamente de restos de minério de ferro, aminas (compostos orgânicos derivados da amônia e usados na separação do minério) e sílica . Essa horrenda onda destruiu morros, árvores, pastagens e plantações. Pelo caminho, invadiu riachos e rios, triturando peixes, vacas e pessoas. Um liquidificador gigante, que imploramos, não dilacere nossas memórias e nossas revoltas.

Esse tipo de material é extremamente difícil de ser removido e continuará a contaminar os rios por décadas. O que nos garante, mais uma vez, que a qualidade de nossa, já escassa água doce, seja novamente comprometida. Assim, que Deus tenha piedade do Velho Chico!

Perdi a fome, pedi outra caipirinha e parti… chorando por meus irmãos de Brumadinho.